<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754</id><updated>2011-06-17T15:00:29.008+01:00</updated><title type='text'>My Love Life</title><subtitle type='html'>"Come up to my house. Come on and do something new. I know you love one person, so why can't you love two?" (Morrissey)</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://my-love-life.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>102</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114716774753732586</id><published>2006-05-09T10:36:00.000+01:00</published><updated>2006-05-09T10:48:07.690+01:00</updated><title type='text'>cessa de existir, ó meretriz</title><content type='html'>Lamento a irregularidade na "actualização" deste blogue. Tenho andado bastante ocupado nos últimos tempos, e pouco virado para estas coisas. Hoje de manhã voltei a ler alguns posts e pensei que é pena que não se tenha ido mais longe com isto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas "My Love Life", como já deviam suspeitar, morreu. Desta vez é que é. Agradeço as visitas e espero que continuem a passar por cá, se quiserem. Eu voltarei com certeza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114716774753732586?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114716774753732586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114716774753732586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/05/cessa-de-existir-meretriz.html' title='cessa de existir, ó meretriz'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114342110221778211</id><published>2006-03-27T01:49:00.000+01:00</published><updated>2006-03-27T01:58:22.226+01:00</updated><title type='text'>nadir / o idiota</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;às vezes penso que não é justo ter de suportar todo este mal sozinho&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;mas eu sei, porque a legião tomou a forma para me dizer&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e se eu cedesse quisesse&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114342110221778211?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114342110221778211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114342110221778211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/nadir-o-idiota.html' title='nadir / o idiota'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114296490754682216</id><published>2006-03-21T19:14:00.000+01:00</published><updated>2006-03-21T19:15:07.560+01:00</updated><title type='text'>Düsseldorf, 1992</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffff99;"&gt;No segundo andar da antiga casa, numa marginal residencial ao Reno, os dois irmãos procuram entreter-se, por entre retratos cinzentos de família, por debaixo de um telhado outrora esburacado pela guerra, por cima de um soalho de madeira que range histericamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Submergindo na escuridão dos armários, emergem pouco depois vitoriosos, às gargalhadas, com uma pequena caixa de cartolina. Abrem-na, retiram do seu interior um grande painel colorido com o mapa do mundo e cobrem-no com pequenas peças bélicas em plástico. Deixam depois rolar os dados da sorte e as cartas ditar o destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os frágeis passos da senhora, de óculos de leitura a balouçar na cana do nariz, prenunciam o fim da fantasia. Quando entra na sala e vê os netos estendidos no chão à conquista do mundo, estremece. “Isto não se joga aqui em casa”, diz, de voz rouca e tremida, enquanto junta as peças, dobra o mapa e faz a caixa de cartolina voltar a desaparecer nas profundezas do armário.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114296490754682216?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114296490754682216'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114296490754682216'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/dsseldorf-1992.html' title='Düsseldorf, 1992'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114285799447851457</id><published>2006-03-20T13:12:00.000+01:00</published><updated>2006-03-20T13:33:14.930+01:00</updated><title type='text'>Depois</title><content type='html'>O som do avião fica muito tempo por debaixo das nuvens, entre os prédios, incapaz de sair. Chove, é noite, tenho frio. A tua casa está à espera, à espera que regresses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abri o pacote de leite e despejei-o inteiro na jarra, e só depois o coloquei no frigorífico. Era assim que fazias. Punhas a jarra do leite na mesa das refeições. Querias os alimentos todos fora das embalagens, dos plásticos, das cores fortes dos rótulos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, eles ficam a olhar para mim com aqueles olhos do Biafra, a remoer os bolos na boca, as pernas a abanar nas cadeiras, longe do chão - já todos vestidos e equipados para sair. Eu fico encostado ao balcão da cozinha a olhar para eles. Empurro uma torrada e os comprimidos com leite. Não digo nada: eu sou o estranho, o passageiro. Eu sou o que ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Telefonemas de noite deslizam para conversas breves deslizam para combinações vagas para jantar, sair, "tomar café". Eles brincam na sala e nas suas brincadeiras matam e morrem, e quando eu entro eles ficam a olhar para mim com aqueles olhos de outra raça. Todos estamos à espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há informação. Não há relatórios oficiais. Alguém terá o meu contacto? Terão sido "despoletados os mecanismos habituais"? E se ligarem quando eu não estou em casa? O som dos carros a amaciar as ruas à chuva, e o som da chuva nos carros estacionados em frente à janela. As árvores bebem, a água entra pelas pequenas superfícies de terra da cidade (os canteiros sujos, as fendas nos pavimentos), e penetra mais fundo, é atraída para baixo, até a gota deixar de ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixaste umas coisas no frigorífico de que mais ninguém gosta. Deixaste uma toalha com o teu cheiro atirada para um canto da casa de banho. E o teu cheiro desvanece-se lentamente, partícula a partícula, e a toalha ainda lá está. Fizeste umas encomendas que chegarão em breve, deixaste um casaco na lavandaria que terei de ir buscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som metálico da cidade e as pessoas como pequenos invólucros a saltitar na rua. É estranho que o mundo não acabe, agora que já cá não estás. Tudo demora muito tempo a passar, e as coisas ficam presas entre as nuvens e os prédios, incapazes de sair. Faltas tu. Estamos à espera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114285799447851457?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114285799447851457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114285799447851457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/depois.html' title='Depois'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114242204950589232</id><published>2006-03-15T12:22:00.000+01:00</published><updated>2006-03-15T12:31:18.976+01:00</updated><title type='text'>Lisboa, 1993</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffff99;"&gt;À saída da sala de aulas, no intervalo, aglomeram-se ao alto das escadas, apontam-lhe os dedos em riste, e gritam, em coro, às dezenas: “monhé, monhé, monhé”. Desce os últimos degraus, sai do edifício com a bola por debaixo do braço, e vai treinar contra uma parede.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114242204950589232?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114242204950589232'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114242204950589232'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/lisboa-1993.html' title='Lisboa, 1993'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114238597881173590</id><published>2006-03-15T02:25:00.000+01:00</published><updated>2006-03-15T02:26:18.810+01:00</updated><title type='text'>carta à igreja de éfeso</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;o flagelo flamipotente avança sobre a estrada de damasco&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114238597881173590?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114238597881173590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114238597881173590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/carta-igreja-de-feso.html' title='carta à igreja de éfeso'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114238591837144254</id><published>2006-03-15T02:20:00.000+01:00</published><updated>2006-03-15T02:31:38.293+01:00</updated><title type='text'>felizmente o joão há-de arremessar este mesmo leitmotiv com outra dignidade</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;no dia seguinte ao enterro a casa estava deserta&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;ao entardecer, pois ele estava morto e circe cravava as unhas na testa, lá fora junto à oliveira irremovível&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114238591837144254?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114238591837144254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114238591837144254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/felizmente-o-joo-h-de-arremessar-este.html' title='felizmente o joão há-de arremessar este mesmo leitmotiv com outra dignidade'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114233786866791266</id><published>2006-03-14T12:28:00.000+01:00</published><updated>2006-03-14T13:04:28.743+01:00</updated><title type='text'>O sol que aquece</title><content type='html'>Na ilha de Sifnos há reentrâncias de costa, pequenas enseadas rochosas onde o mar atinge grandes profundidades - a poucos metros dos sítios onde as casas, e as cabras, brancas, se encavalitam. Os mais audazes e os mais tranquilos mergulham directamente das rochas para a água escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrámo-nos num autocarro que ia para Lisboa, e falámos durante quase três horas sem nunca nos olharmos nos olhos. Sentado à janela, eu via desfilar este país queimado e ouvia a voz dela, e falava pouco. Tínhamos tido um verão de amor criança, numa terra da qual não importa aqui falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela contou-me das oliveiras de Sifnos. E do azeite que era deles os dois, já que o terreno era deles e por conseguinte as oliveiras e por conseguinte as azeitonas, e os vermes da terra grega. A casa branca, de geometria adaptada às arestas das rochas, com dois pequenos terraços sobre o mar. Uma escadinha até lá abaixo, ondas pequeninas a lamber os pés. Ela contou-me das idas matinais ao mercado em Kamares, o caminho de terra em sandálias, o tecido de linho da sua saia, o saco de pano onde trazia, de volta a casa, pão escuro, pimentos, laranjas, peixe que poucas horas antes ainda vivia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os mergulhos do meio dia: o mar profundo, a descer de temperatura à medida que ela, sustendo a respiração, se aventura mais abaixo, em busca do leito. Um som que contrasta com o absoluto silêncio da superfície, como dedos a pressionar os tímpanos, como peixes libertando bolhas, como rochas estalando, barbatanas rápidas que surgem de súbito, vindas de longe, e para longe voltam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela volta à superfície e os seus cabelos negros roçam os ombros, as costas, pingos fazendo trilhos ao longo do corpo, antes de se evaporarem ao sol que aquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ombros morenos dele sabem a sal na casa escura, na cama baixa, à hora da sesta. Beijam-se com lábios secos, de forma simples, e dormem em segurança. Ao anoitecer, depois de uma tarde de trabalho e tarefas, vêem o sol filtrado em copos de vinho. Algures alguém canta, uma bicicleta toca sinos ao longo de um caminho longínquo, o vento arrefece e um leve casaco de malha, as lanternas da costa, um barco ao longe, Poseidon que se espreguiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devíamos ter-nos casado. Deviam ter-nos levado para o altar quando tínhamos quinze anos. Aprenderias a amar-me, porque é preciso aprender a amar-me. Estas coisas não acontecem naturalmente - pelo menos não comigo. Não devias ter desistido tão cedo. Onde apanhar o 78? Era nestas coisas que eu pensava, depois de, já em Lisboa, me ter despedido dela apressadamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114233786866791266?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114233786866791266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114233786866791266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/o-sol-que-aquece.html' title='O sol que aquece'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114198628741575787</id><published>2006-03-10T10:49:00.002+01:00</published><updated>2006-03-10T11:31:34.243+01:00</updated><title type='text'>Os olhos bem fundo no espelho</title><content type='html'>Noite cai sobre Mayfair, faróis de carros em superfícies molhadas e as silhuetas das pessoas não têm cara. Marriott Park Lane, 3º andar: põe de lado o roupão e os chinelos de oferta e abre a mochila, olha para dentro, fecha a mochila. Vai à casa de banho. Põe de lado os sabonetes e os amaciadores e as esponjas e tonificadores e exfoliantes e desmaquilhadores - de oferta - e lava as mãos com água fria. Passa as mãos em frente da cara, duas vezes, como se quisesse lavá-la. Volta ao quarto. Senta-se no chão. Olha pela janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de si, a cama que permanecerá por usar. Lá fora buzinas, faróis de carros na rua molhada e os vultos sem cara, sem coração. Nas entradas sacudindo guarda-chuvas. Saltando para evitar poças de água, ombros batendo em ombros. Alguém é quase atropelado, alguém beija alguém. No cruzamento, um cartaz com pernas, braços e cabeça anuncia, às voltas, uma feira de computadores. Até a publicidade tem sangue. As pessoas precisam de um sítio para ir. As pessoas precisam de comida na boca. Até a comida tem sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarto escuro, passos no corredor que se esvaem num som de porta a bater. Levanta-se e desenrola uma esteira. Senta-se. Fala baixo durante muito tempo. Abana o corpo, olhos fechados. Chora. Depois de terminar, revê mentalmente os planos para o dia seguinte. Sair cedo. Depois Holborn. E pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um dia uma princesa - e um laranjal. Houve um dia um beijo na testa, e alguém que segurou a sua cabeça de criança entre as mãos. Nas montanhas da Caxemira uma serpente esconde-se entre pedras, à beira do caminho. O viajante passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia antes do martírio, o &lt;em&gt;mujahid &lt;/em&gt;rapa cuidadosamente a barba.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114198628741575787?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114198628741575787'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114198628741575787'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/os-olhos-bem-fundo-no-espe_114198628741575787.html' title='Os olhos bem fundo no espelho'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114165955002990767</id><published>2006-03-06T16:21:00.000+01:00</published><updated>2006-03-06T16:39:10.090+01:00</updated><title type='text'>Jonathan</title><content type='html'>Os bebés aparecem primeiro nos sonhos. Na noite de 21 para 22 de Março de 1965, o meu filho estava caído num prado, junto a cavalos com asas que distraidamente comiam. Envolto em panos presos por alfinetes de ama, o meu filho sangrava com abundância, mas não havia feridas no seu corpo adulto - apenas o sangue que brilhava, e os seus olhos e os seus dentes cerrados, rangendo, como numa febre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava a seguir o sonho, a perseguir o céu que acima de mim obscurecia - como no Inverno, só que mais rápido. O sonho dentro do sonho, um pé de fora do cobertor, do sonho. Dizer que não a tudo isso. E o sonho regressava implacável - uma vaga - o meu corpo adormecido suado na cama a remexer-se dizendo não, os gemidos do meu filho moribundo. A lua a levantar-se, os cavalos dispersavam, rápidos, brancos, de súbito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu filho de repente pairava diante de mim, anzóis que finalmente lhe rasgavam a pele e o puxavam para cima, para o céu. Ele suplicou-me numa voz rouca: "Faz-me!".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, na noite seguinte eu saí à rua e entreguei-me, mulher, na minha inocência, a minha inocência - ao rapaz distante e calado, de sorriso amarelo e rosetas na cara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114165955002990767?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114165955002990767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114165955002990767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/03/jonathan.html' title='Jonathan'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114083388522331847</id><published>2006-02-25T03:16:00.000+01:00</published><updated>2006-02-25T03:19:25.703+01:00</updated><title type='text'>michael kohlhaas</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;quando não estás a olhar eu desapareço&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114083388522331847?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114083388522331847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114083388522331847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/michael-kohlhaas.html' title='michael kohlhaas'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114083378246755034</id><published>2006-02-25T03:15:00.000+01:00</published><updated>2006-02-25T03:16:22.480+01:00</updated><title type='text'>soraia chaves</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;não tenho medo de mostrar o teu corpo&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114083378246755034?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114083378246755034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114083378246755034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/soraia-chaves.html' title='soraia chaves'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-114008703843298013</id><published>2006-02-16T10:38:00.000+01:00</published><updated>2006-02-16T11:50:38.493+01:00</updated><title type='text'>Língua de gato</title><content type='html'>Após a morte da minha mãe, herdei a grande casa da Granja, cheia de gatos. A minha mãe vivera aí os últimos quinze anos da sua vida - após as circunstâncias trágicas que rodearam o desaparecimento do seu segundo marido, após o senhorio da casa de Espinho ter decidido vender os prédios "para empreendimentos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me do dia em que entrei pela primeira vez na grande casa herdada. Era um dia igual ao do funeral da minha mãe, um daqueles dias típicos de Outono em Espinho com a chuva fina a ser atirada em todas as direcções pelo vento, com a névoa que ficava presa às arestas das coisas, tornando-as longínquas, indefinidas. Não chorara pela morte da minha mãe - a chuva e o nevoeiro tornavam tudo irreal, e eu não estava preparada para aquilo e lembro-me que senti apenas um sono imenso, um sono de eras, pesado, rochoso. Um desejo de voltar para dentro. Três dias depois, as mesmas gotas de chuva à deriva no ar, entrei na casa, apaguei a luz de um candeeiro num dos quartos do andar de cima (que a minha mãe deixara acesa antes da sua morte) e instalei-me no quarto de hóspedes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário de todas as expectativas eu decidira ir viver para a Granja: sozinha aos quarenta e sem emprego, comecei a fazer e vender brinquedos de trapo pela Internet. Eu própria montei o &lt;em&gt;web-site&lt;/em&gt;, e com a ajuda de uma câmara digital fiz uma galeria &lt;em&gt;on-line&lt;/em&gt;, que permitia aos cibernautas escolher os artigos que queriam colocar no carrinho de compras - e depois podiam fazer o pagamento por cartão de crédito, embora eu também enviasse à cobrança. Instalara o meu ateliê na sala de jantar (que tinha uma grande janela semi-circular sobre um jardim que a minha mãe, nos seus últimos meses, deixara ao abandono) e todas as semanas me dirigia às imediações de uma fábrica de confecções, pois era aí, nos caixotes do lixo, que eu encontrava a matéria prima para as minhas criações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus dias eram portanto tranquilos, e eu dava de comer aos gatos que a minha mãe deixara pela casa (e que pareciam fazer a sua vida como antigamente, sem se darem por achados, como se nada tivesse acontecido), e depois via e respondia ao correio electrónico, aviava as encomendas enquanto bebia chá, ouvia Mozart, comia saladas com queijo feta. Falava por vezes ao telefone com amigos do Porto, e o vento passava pelos quartos do andar de cima, através das janelas que todas as manhãs eu deixava abertas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, nos primeiros momentos da manhã, eu andava de roupão e chinelos pela casa a deixar comida de gato nas tigelas espalhadas pelos cantos e ouvia o apócrifo &lt;em&gt;Libera me&lt;/em&gt;, o discutido final do &lt;em&gt;Requiem &lt;/em&gt;de Mozart que foi encontrado recentemente nos arquivos da antiga catedral do Rio de Janeiro (este &lt;em&gt;Libera me&lt;/em&gt; terá sido adaptado por Sigismund Neukomm, um colaborador de Joseph Haydn, aquando da sua viagem ao Brasil). Todos os dias eu fazia este ritual, e nas últimas semanas a minha forma de acordar era sentir os gatos a despontarem de debaixo dos móveis, saindo de portinholas ocultas, roçando os meus tornozelos nus, debruçando-se sem um som e sem um obrigado pelas tigelas que eu deixava cheias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, o dia do &lt;em&gt;Libera me&lt;/em&gt;, fui dar com um dos gatos num cadeirão da sala - um cadeirão de couro gretado, junto à grande janela, com almofadas que levavam impressas as formas da minha mãe, que nele se sentava para olhar o jardim. O gato parecia pouco interessado na comida, preferindo olhar-me com o corpo imóvel, sereno, altivo. Peguei nele e deixei-o no chão, empurrando-o gentilmente na direcção da tigela onde outros gatos se saciavam lentamente. Mas o gato voltou para cima do cadeirão e, assumindo de novo a postura sacerdotal, olhou-me como numa espécie de desafio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez mais peguei nele e o deixei no chão, e uma vez mais ele subiu para o cadeirão, colocando os seus olhos nos meus. À terceira vez que peguei no gato (estava subitamente decidida a uma luta de vontades), as suas unhas agarraram-se a uma das almofadas, revelando por debaixo os óculos de aro fino da minha mãe. Fiquei parada a olhar para eles, o gato nas minhas mãos, até o seu corpo se debater e ele se soltar, apressando-se para fora da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre ciosa pela arrumação, a minha mãe pedia-me que voltasse a colocar os óculos na sua gaveta dos bordados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu, liberta do choque, já chorava, já escondia a cara nas almofadas, já respirava o cheiro da minha mãe morta - e a manhã avançava por mim enquanto eu finalmente fazia o meu luto, e depois o Verão chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;Diana Matos (Granja)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-114008703843298013?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114008703843298013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/114008703843298013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/lngua-de-gato.html' title='Língua de gato'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113967810018103288</id><published>2006-02-11T17:19:00.000+01:00</published><updated>2006-02-11T18:23:51.933+01:00</updated><title type='text'>Quando eu era jogadora de futebol</title><content type='html'>Durante anos eu fui a municiadora de jogo da equipa feminina do Clube Académico das Gândaras. Digo municiadora porque a minha função era transportar a bola para as minhas colegas do ataque. Desempenhava a função do número 10, embora a minha camisola não fosse a 10 mas sim a nº8 porque quando era miúda gostava de ver o João Pinto no Benfica e ele era o número 8 e assim ficou. Para o meu treinador eu era simplesmente "o armador de jogo". Ele dizia assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem a bola, levanta a cabeça. Mete no armador de jogo e desmarca...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por aí fora. De igual modo, no jogo as minhas colegas eram sempre tratadas como jogadores profissionais HOMENS:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha a banda direita, f***-**! Mete no lateral direito!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lateral direito era a Perlita, uma miúda pequenina e rápida, recrutada aos júniores depois de a Susana deslocar a anca e engravidar pouco depois (algumas pessoas diziam que ela deslocou a anca ao engravidar). A Perlita chamava-se na verdade Ester, mas os seus avós eram de Olivença e chamavam-lhe Perlita e assim ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O treinador era conhecido por Freixo. A mim ele dizia-me para o tratar por Jorge, mas só quando não estava ninguém a ouvir. O Freixo passava a vida no campo do Gândaras e no Polidesportivo. Via os jogos todos do hóquei, era director desportivo dos infantis e dos iniciados no basquetebol, treinava a nossa equipa e ainda organizava os torneios de sueca e de futsal. Era ainda novo (vinte e tal anos acho), era órfão e tinha o cabelo encaracolado, com gel. Houve uma altura em que andava sempre com um boné roxo, que atirava ao chão e amarfanhava quando nós falhávamos uma das suas "jogadas combinadas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho do Freixo era treinar a equipa profissional da Lousã. Ele gritava para dentro do campo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Olha o avançado sozinho! Centra pró avançado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avançado era a Tuxa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Freixo não via as raparigas. Via-me a mim e via os jogadores do Lousã (Tarzan, Sampaio, Luís Moita, Dominique...). E depois via os jogos da Primeira Divisão na televisão, sentado num canto do Snack do Índio, a tomar notas. Os presentes punham-se a mangar com ele, mas ele não se importava. Andava na tele-escola, a aprender com o Manuel Cajuda, o António Oliveira, o Fernando Santos, o Toni, todos esses doutores da bola!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na época 98/99, marquei dez golos (quatro de penalti), fiz mais de quinze assistências, recebi oito cartões amarelos e um vermelho por acumulação, fui capitã de equipa e titular a época inteira. No último jogo da época, quando assegurámos a manutenção, o Freixo abraçou-se a mim a chorar e disse-me que eu era a melhor coisa que lhe tinha acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os espiões descobriram-me já tarde, e tinha 19 anos quando fui para Lisboa com um contrato de duas épocas com a equipa feminina do Belenenses. O primeiro ano correu mal e não me adaptei, e apesar de me desculpar perante a família com umas dores nos gémeos, a verdade é que estava demasiado assustada para me conseguir concentrar. Fui ainda emprestada uns meses ao Oriental, para rodar, mas no final da época voltei às Gândaras. E lá permaneci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos intervalos das partidas, todas suadas nos balneários, ouvíamos a palestra do Freixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não acredito que não saibam levantar a cabeça quando têm a bola. Levanta a cabeça, mete no colega. Os dois laterais estão sempre sozinhos, f***-**! Se tem medo de perder a bola, atrasa. Ou então mete no armador de jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois para mim, com um tom algo acabrunhado na voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Marina, é preciso abrir o livro! Se não abres o livro, não saímos da cepa torta. Força a falta se vires que não tens hipótese.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por aí adiante. Em Lisboa, às segundas-feiras (dia de folga), eu gostava de ir comer gelados e ver os patos ao Jardim da Estrela. Ou então ia às Amoreiras com a minha colega. Ou então passeávamos na Praça de Londres. Quando voltei às Gândaras o prazo de inscrições já tinha passado e não pude entrar na equipa. Deixei de jogar futebol e dois meses depois arranjei um emprego nas confecções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a namorar com o Mário nesse ano, casámo-nos mas ainda não temos filhos. Andamos a tentar. Quando é dia de receber na fábrica do Mário eu vou com as outras mulheres e juntamo-nos à porta, à hora de almoço, e quando eles saem vamos logo depositar os cheques na Caixa. O Mário às vezes exagera um pouco na bebida, mas somos felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;Marina Lopes Rodrigues (Gândaras)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113967810018103288?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113967810018103288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113967810018103288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/quando-eu-era-jogadora-de-futebol.html' title='Quando eu era jogadora de futebol'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113932773530020967</id><published>2006-02-07T16:54:00.000+01:00</published><updated>2006-02-07T16:55:35.313+01:00</updated><title type='text'>john rambo</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;eu tinha o meu amigo todo espalhado em cima de mim&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113932773530020967?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113932773530020967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113932773530020967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/john-rambo.html' title='john rambo'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113925162483409446</id><published>2006-02-06T19:43:00.000+01:00</published><updated>2006-02-06T19:47:04.833+01:00</updated><title type='text'>Guerra</title><content type='html'>Dou por mim às vezes a pensar que&lt;br /&gt;tal como nas brincadeiras de crianças em que de repente alguém fica sem um olho&lt;br /&gt;em algum momento as pessoas vão levantar os braços e dizer: "Paremos com esta guerra, uma pessoa morreu."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113925162483409446?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113925162483409446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113925162483409446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/guerra.html' title='Guerra'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113897166523462124</id><published>2006-02-03T13:52:00.000+01:00</published><updated>2006-02-03T14:09:54.916+01:00</updated><title type='text'>.</title><content type='html'>&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;a sequência matricial era para incluir mais dois haikus [&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(0, 204, 204);"&gt;quinta-feira abba worcester&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic; color: rgb(0, 204, 204);"&gt;moloch&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;], todavia e como briguei com o meu namorado agora parece-me justo fazer-vos pagar a todos.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113897166523462124?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113897166523462124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113897166523462124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/02/blog-post.html' title='.'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113658035241521831</id><published>2006-01-06T21:37:00.000+01:00</published><updated>2006-01-06T21:46:44.990+01:00</updated><title type='text'>sexta-feira sexta-feira</title><content type='html'>&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;pegadas duras,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;- nós somos os romanos&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;cerra-se a névoa&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113658035241521831?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113658035241521831'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113658035241521831'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2006/01/sexta-feira-sexta-feira.html' title='sexta-feira sexta-feira'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113543631755707979</id><published>2005-12-24T15:57:00.000+01:00</published><updated>2005-12-24T15:58:37.570+01:00</updated><title type='text'>sabbath</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a criança vê&lt;br /&gt;um mocho dourado&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;quedo no ramo&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113543631755707979?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113543631755707979'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113543631755707979'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/12/sabbath.html' title='sabbath'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113435156744218954</id><published>2005-12-12T02:37:00.000+01:00</published><updated>2005-12-12T02:39:27.450+01:00</updated><title type='text'>segunda-feira "fight tuberculosis folks"</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;velha doninha,&lt;br /&gt;dói-lhe o olho, a lua&lt;br /&gt;regozija-se&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113435156744218954?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113435156744218954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113435156744218954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/12/segunda-feira-fight-tuberculosis-folks.html' title='segunda-feira &quot;fight tuberculosis folks&quot;'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113392382530343471</id><published>2005-12-07T03:46:00.000+01:00</published><updated>2005-12-07T03:50:25.316+01:00</updated><title type='text'>quarta-feira brazzaville teresa guilherme</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a folha verde&lt;br /&gt;não tem medo de um só&lt;br /&gt;gafanhoto só&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113392382530343471?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113392382530343471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113392382530343471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/12/quarta-feira-brazzaville-teresa.html' title='quarta-feira brazzaville teresa guilherme'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113323763814019479</id><published>2005-11-29T05:11:00.000+01:00</published><updated>2005-11-29T05:13:58.153+01:00</updated><title type='text'>terça-feira a.s.onassis</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;juncos num lago&lt;br /&gt;abrigam o caracol&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;no seu retorno&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113323763814019479?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113323763814019479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113323763814019479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/11/tera-feira-asonassis.html' title='terça-feira a.s.onassis'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113284448190246127</id><published>2005-11-24T15:57:00.000+01:00</published><updated>2005-11-24T16:02:33.670+01:00</updated><title type='text'>king queer</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;"america i`ve given you all and now i`m nothing.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;america two dollars and twentyseven cents january 17, 1956.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;i can`t stand my own mind."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;[allen ginsberg - &lt;em&gt;america&lt;/em&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113284448190246127?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113284448190246127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113284448190246127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/11/king-queer.html' title='king queer'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-113198860217229657</id><published>2005-11-14T18:07:00.000+01:00</published><updated>2005-11-17T02:33:35.046+01:00</updated><title type='text'>"masturbating-welsh-roommate"</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;"and death shall have no dominion.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;dead man naked they shall be one&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;with the man in the wind and the west moon;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;when their bones are picked clean and the clean bones gone,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;they shall have stars at elbow and foot;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;though they go mad they shall be sane,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;though they sink through the sea they shall rise again;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;though lovers be lost love shall not;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;and death shall have no dominion."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;[dylan thomas - &lt;em&gt;and death shall have no dominion&lt;/em&gt;]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-113198860217229657?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113198860217229657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/113198860217229657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/11/masturbating-welsh-roommate.html' title='&quot;masturbating-welsh-roommate&quot;'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112800784480655211</id><published>2005-09-29T16:24:00.000+01:00</published><updated>2005-09-29T16:30:45.376+01:00</updated><title type='text'>Os ombros de gigantes (Tagore)</title><content type='html'>"I have kissed this world with my eyes and my limbs; I have wrapt it within my heart in numberless folds; I have flooded its days and nights with thoughts till the world and my life have grown one, - and I love my life because I love the light of the sky so enwoven with me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;If to leave this world be as real as to love it - then there must be a meaning in the meeting and parting of life.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;If that love were deceived in death, then, the canker of this deceit would eat into all things, and the stars would shrivel and grow black."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;( Rabindranath Tagore&lt;em&gt;, Fruit Gathering&lt;/em&gt;) &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112800784480655211?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112800784480655211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112800784480655211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/09/os-ombros-de-gigantes-tagore.html' title='Os ombros de gigantes (Tagore)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112456144701726097</id><published>2005-08-20T19:04:00.000+01:00</published><updated>2006-08-05T01:16:25.573+01:00</updated><title type='text'>moisés</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;chegou finalmente o dia meus filhos, sei que tivemos que esperar pela estrela, sei que tivemos que esperar pelo anjo, mas façamos as coisas de forma ordeira e digna da graça do senhor todo poderoso, sem rebuliço e sem empurrões&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a criatura pródiga, a mais preciosa das marchas, mulheres e crianças primeiro, bebés de colo e paralíticos aos ombros dos homens capazes, berços e camas entrevadas aos ombros das bestas capazes, atrelem tudo meus filhos, não deixem ficar nada para trás, atrelem o mundo inteiro ao couro purpura dos bois e dos camelos, atrelem-se a vocês mesmos, cordas de linho tensas a quilharem a areia&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;por fim os rebanhos por tosquiar, o fogo sagrado a arder nos lombos e a abri-los para a noite&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;enlacem os vossos braços um no outro, como se pudessem ser uma cesta ou um ninho, e peguem nas fogueiras do deserto, e levem-nas acesas junto ao coração a todos os cantos desta terra lacerada&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112456144701726097?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112456144701726097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112456144701726097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/08/moiss.html' title='moisés'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112444637004576793</id><published>2005-08-19T11:04:00.000+01:00</published><updated>2005-08-19T11:16:45.236+01:00</updated><title type='text'>Os ombros de gigantes (Coupland)</title><content type='html'>"The second story, well, it's a bit more complex, and I've never told anyone before. It's about a young man - &lt;em&gt;oh, get real&lt;/em&gt; - it's about &lt;em&gt;me.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;It's about &lt;em&gt;me &lt;/em&gt;and something else I want desperately to have happen to &lt;em&gt;me&lt;/em&gt;, more than just about anything.&lt;br /&gt;This is what I want: I want to lie on the razory brain-shaped rocks of Baja. I want to lie on these rocks with no plants around me, traces of brine on my fingers and a chemical sun burning up in heaven. There will be no sound, perfect silence, just me and oxygen, not a thought in my mind, with pelicans diving into the ocean beside me for glimmering mercury bullets of fish.&lt;br /&gt;Small cuts from the rocks will extract blood that will dry as quickly as it flows, and my brain will turn into a thin white cord stretched skyward up into the ozone layer and humming like a guitar string. And like Dag on the day of his death, I will hear wings, too, except the wings I hear will be from a pelican, flying in from the ocean - a great big dopey, happy-looking pelican that will land at my side and then, with smooth leathery feet, waddle over to my face, without fear and with an elegant flourish - showing the grace of a thousand wine stewards - offer before me the gift of a small silvery fish.&lt;br /&gt;I would sacrifice &lt;em&gt;any&lt;/em&gt;thing to be given this offering."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(Douglas Coupland, &lt;em&gt;Generation X&lt;/em&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112444637004576793?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112444637004576793'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112444637004576793'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/08/os-ombros-de-gigantes-coupland.html' title='Os ombros de gigantes (Coupland)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112444583392322920</id><published>2005-08-19T10:57:00.000+01:00</published><updated>2005-08-19T11:03:53.930+01:00</updated><title type='text'>Os ombros de gigantes (Salinger)</title><content type='html'>"I keep picturing all these little kids playing some game in this big field of rye and all. Thousands of little kids, and nobody's around - nobody big, I mean - except me. And I'm standing on the edge of some crazy cliff. What I have to do, I have to catch everybody if they start to go over the cliff - I mean if they're running and they don't look where they're going I have to come out from somewhere and &lt;em&gt;catch &lt;/em&gt;them. That's all I'd do all day. I'd just be the catcher in the rye and all. I know it's crazy, but that's the only thing I'd really like to be. I know it's crazy."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(J.D. Salinger, &lt;em&gt;The Catcher in The Rye&lt;/em&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112444583392322920?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112444583392322920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112444583392322920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/08/os-ombros-de-gigantes-salinger.html' title='Os ombros de gigantes (Salinger)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112327484187217448</id><published>2005-08-05T21:22:00.000+01:00</published><updated>2005-08-05T21:49:41.450+01:00</updated><title type='text'>vento agosto, rio baixo (13/33)</title><content type='html'>Numa divisão vazia da minha casa, separada por paredes onde de manhã na cama eu tremo, está deitada esta... coisa. Numa divisão vazia pela manhã, respirando... esta coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durmo de manhã, quando as pessoas acabaram de começar, e enquanto durmo há uma projecção do meu corpo que vai até essa divisão vazia - escura, abafada, borbulhante - e lá está essa espécie de monstro deitado - os olhos espalhados pelo corpo líquido, verde, a ausência de ossos e as membranas que se levantam e espasmam. Eu fico à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um monstro diferente. Eu costumava acordar para as moscas, para as línguas frias dos lagartos na minha face. Eles costumavam acordar-me e falar com vozes graves, quase inaudíveis, ao ouvido - diziam-me coisas sem nexo, do tipo "ela ama-te", "ainda não viste nada", "a forma como seguras essa rosa entre os dentes".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora é diferente. Este é um monstro especialmente estranho. Aparece, de vez em quando, deitado numa das camas da minha casa, e não parece ter um propósito especial, sequer uma mensagem para transmitir. Fica a olhar para mim por entre os silvos da sua respiração - os olhos na pélvis, os olhos nos pés - e apenas o seu corpo parece reconhecer a minha presença, já que se agita com mais insistência. Como se estivesse a pedir a minha ajuda, essa coisa esse... corpo estrangeiro. A escorrer pelo chão, a sua pele uma crosta a rebentar lava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, com um sacão eu regresso à cama: há fumo na minha garganta, um cheiro que não é meu nos lençóis. E quase que consigo cheirar os lençóis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez ou outra, um dia a mais ou a menos - eu vou ter de sair, isto vai arder, o ar vai tornar-se venenoso. Uma vez ou outra, e essa coisa vai subir para cima de mim, vai finalmente regressar ao que é seu, ao que ele é.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112327484187217448?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112327484187217448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112327484187217448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/08/vento-agosto-rio-baixo-1333.html' title='vento agosto, rio baixo (13/33)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112221123127942107</id><published>2005-07-24T14:13:00.000+01:00</published><updated>2005-07-24T14:21:44.646+01:00</updated><title type='text'>Punch and Judy (12/33)</title><content type='html'>Costumava sentar-me nos bancos dos jardins ao sol, a roer a carne dos pêssegos que ia retirando de um saco de papel. Isso foi antes de Munique. Impossível esquecer Munique: eu tinha trinta e três anos! E o cabelo a desaparecer. Que Verão tão longo, aquele Verão de 2005.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Munique e a relva cinzenta, Munique e os clubes nocturnos: no meio da vida estamos em dívida. E era impossível não reparar no piscar de olhos aos Smiths: “no meio da vida estamos em dívida, etc, etc…” – era isso que a multidão gritava, e numa noite eles levariam a piada mais longe ao fazer uma versão de “Sweet and Tender Hooligan”, com o Erik a segurar um ramo de flores na mão… e etc, etc estávamos em Munique, isto estava a tornar-se mórbido, uma rapariga que eu não conhecia estava perdidamente apaixonada por mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu costumava afundar a cara naqueles cabelos loiros, dedilhar os pelinhos rapados da sua púbis – os pêlos alemães que me eram tão estranhos, e os olhos cerrados, vedando-me o acesso ao seu mundo alemão de pão amargo, pele cinza, Verão de chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu emprego era arranjar soluções para frases. Eu recebia fragmentos, destroços e por vezes palavras inacabadas, e tinha de arranjar uma desculpa, uma razão, um corpo para o que as pessoas queriam dizer. Criei assim a imagem de uma humanidade amordaçada, vivendo debaixo de máscaras. Pelo contrário, eu era um articulador, um discursista, um comunicante. A minha cara aberta, nua, colocada em estandartes e sujeita à violação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Verão de 2005 (impossível esquecer!) percorremos aqueles clubes nocturnos todos e conhecemos os editores das &lt;em&gt;fanzines&lt;/em&gt;, cujo conteúdo satânico ia aumentando à medida que nos embrenhávamos mais e mais nas caves, nas horas perdidas da noite, nos becos para onde davam as saídas de emergência e por onde invariavelmente saíamos, eu e a rapariga alemã, aos beijos sôfregos mas angustiados. A Karen, assim se chamava, era na verdade uma triste menina saída do Colégio Alemão de Lisboa – mudara de curso universitário três vezes em três anos e decidira finalmente tirar um ano para pensar, para voltar à Alemanha e aos tios e aos avós, e principalmente aos concertos góticos das caves de Munique.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sorria pouco e falava muito, ao contrário de mim, que era todo sorrisos, sentindo porém alguma dificuldade em comunicar. Ela acabou por gostar do meu silêncio e durante alguns meses dormimos juntos – quando fazíamos amor ela não gostava que eu me mexesse muito, dizia-me frequentemente para estar quieto. Ela fazia todos os esforços e movimentos. Ela não suava. Acho que tinha apenas medo que a magoasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Karen tirava as roupas eu via na sua zona abdominal um pequeno excesso de gordura. Não era nada de especial, apenas a ausência de magreza, mas atraía-me de uma forma quase obscena. Tocava-a muitas vezes aí; ela não reagia, parecia entender a minha obsessão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez que o meu emprego me permitia mobilidade (exigindo apenas um par de horas sentado ao portátil e uma ligação à Internet), eu pude passar largos meses em Munique com a Karen. Na altura, eu estava a recuperar do fim de uma relação à distância com a rapariga com quem mais tarde casaria (o casamento durou apenas três meses, mas isso é outra história). Nos seus momentos mais carinhosos, Karen gostava de me olhar nos olhos com o meio sorriso de quem brinca, repetindo-me em sotaque francês a célebre frase do &lt;em&gt;Apocalypse Now Redux&lt;/em&gt;: “Há dois de ti, não vês? Um que ama e outro que mata”. Lembro-me bem dos seus olhos sempre debruados a negro – uma maquilhagem simples, de pequenas lágrimas sombrias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso era Munique. Serei eu uma rocha? Karen acompanhou-me, de madrugada, à estação de comboios. Ela não sabia nada sobre a minha vida, e nunca fizera perguntas – parecia entendê-la o suficiente para não necessitar de saber mais nada. Tínhamos a boca azeda, os lábios secos, os peitos sujos, quando nos beijámos pela última vez. Serei eu uma rocha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso era Munique, ainda os ecos dos acordes e dos gritos extasiados e dos sons cavos que os corpos fazem quando amam quando choram – no meio da vida estamos em dívida. Munique em 2005, um longo caminho até lado nenhum. Isso foi depois da carne dos pêssegos que eu roía nos miradouros de Lisboa no fim do Verão, antes de ter arranjado uma &lt;em&gt;Vespa&lt;/em&gt;, antes de ter acordado com homens na minha cama. Isso foi antes de eu ter lido o pequeno livro vermelho de Mao Tse-Tung, antes de ter levado uma vida burguesa nos arredores de Florença: cozinhar em Montesepolcro para o meu amigo que morria de SIDA.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112221123127942107?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112221123127942107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112221123127942107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/07/punch-and-judy-1233.html' title='Punch and Judy (12/33)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112118599744408742</id><published>2005-07-12T17:16:00.000+01:00</published><updated>2005-07-12T17:33:17.453+01:00</updated><title type='text'>são joão arrieiro/o corvo</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;"and the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;Edgar A. Poe&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a taverna do chico bemposto é o umbigo do mundo&lt;br /&gt;a taverna do chico bemposto é o umbigo da aldeia de são joão arrieiro bem como dos seus habitantes individualmente considerados, por isso nem sempre é fácil lá chegar embora todos sem excepção a frequentem com assiduidade, no fim de contas dependerá do corpo de cada um, para os gordos e altos a coisa acarreta maiores aborrecimentos mas vai eventualmente ao sítio, já quem por infortúnio tiver o umbigo mal-formado pode ter que remexer e empurrar, se é que alguma vez chegará onde quer que seja com isso, raramente os caminhos do corpo se cavam com insistência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a taverna do chico bemposto é o umbigo do mundo e é tal e qual um pub irlandês. um pub irlandês é um lugar alegre até mais não e triste até mais não, a frase contradiz-se mas é mesmo assim, não há outra forma de o dizer e ninguém tem culpa, são as palavras que estão proibidas de se desdobrar de modo a taparem todos os buracos&lt;br /&gt;às vezes o chico bemposto esquece-se onde está e sente um tremendo orgulho em ser irlandês de gema, foda-se, cum caralho&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a taverna do chico bemposto é o umbigo do mundo e é tal e qual um pub irlandês. um pub irlandês é um lugar onde o pó e a luz são cruéis com os solitários e a madeira range só pelo gozo, onde as raparigas se tornam mulheres e os rapazes se assemelham a cachopos, e uma pessoa parece que se inflama e assoberba, aquilo desliza por ali acima, uma pequena nódoa, um furo e uma esfera oca, à passagem deixa-nos as entranhas num nó e não se consegue deixar de dizê-lo, afagar-lhe a face e o cabelo e dizer-lhe&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;na taverna do chico bemposto todas as mesas são mesas do fundo, numa delas está a morte recostada numa cadeira com dezenas de copos vazios à sua frente, mais à frente, do lado oposto da mesa, um pobre diabo baba-se tombado sobre o tampo, há um limiar a partir do qual o ser humano desaprende ou se esquece de respirar, traga mais um faz favor, mas só para mim que o meu colega já teve a conta dele. curioso que a viúva e o irmão do morto finado ainda agora estiveram por aqui, desencontraram-se os três uns dos outros por pouco, coisa de minutos, o mundo é pequeno mas não o suficiente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ora esta, que privilégio, hoje até estaline apareceu para beber uma pinga, sim o ditador, mas é homem de poucas conversas, só fala para pedir aguardente, não, de vodka não parece gostar, e sim exprime-se num português impecável. tem um papagaio pousado no ombro direito que é bastante mais falador e extrovertido, pena é que pontue o monólogo com uma tosse horrível, quase sinistra&lt;br /&gt;engels quer uma bolacha, engels quer uma bolacha&lt;br /&gt;como é óbvio o homem não é estaline, apenas se parece com ele, e o papagaio não se chama engels nem quer bolachas, aliás o papagaio é um pouco avariado do miolo, cabrão torcidinho, odeia toda a gente, rosna e insulta, se pudesse esganava o mundo inteiro&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a taverna do chico bemposto também acolhe algumas pessoas reais, com vidas, problemas, etc&lt;br /&gt;faz isto ainda parte do espectáculo, fingimento e, não fingimento não, mentira e aparência e&lt;br /&gt;quando é que chega de&lt;br /&gt;quando é que se consegue&lt;br /&gt;nunca suficientemente genuíno, nunca suficientemente feroz&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;frente à taverna do chico bemposto há um pequeno jardim onde as crianças fermentam em cima da relva e da areia, brincam ao berlinde, à macaca, ao bate pé, deitam a língua de fora aos idosos, organizam corridas com besouros e escaravelhos, degolam os derrotados para que sirvam de exemplo, arranjam alcunhas para os vencedores e até concedem liberdade aos campeões lendários, o inesquecível speedy gonzalez, mic mic, besouro-ninja, flash gordo, os manos bota-bota, os super siameses, super turbo, turbossauro, o inigualável rambo que vencia as suas corridas esfrangalhando os oponentes, o caranguejo que ganhava a qualquer adversário desde que o pudesse fazer em marcha à ré, um outro que não chegou a receber nome mas que ficou na memória de todos, não te lembras, o ladino, foi-se deixando ficar para trás e enquanto o rapazio incitava lá à frente os líderes da matilha deu meia volta e desatou a fugir, e alguém se apercebe e todos os rapazes a correrem atrás do foragido tentando esborrachá-lo com os bicos das botas, mas o bicho consegue esgueirar-se por baixo duma soleira, rápido como o concorde, como o jacto, avião, sacadura cabral, vasco da gama, camões, fernam mendez pinto, preste joam, corcel, del rey, eusébio, chalana, figo, simão, mantorras, obikwelu, o promissor cardoso cuja carreira terminou cedo demais, obra e graça dum carteiro distraído ao volante duma lambreta, dum escudeiro a conduzir pela mão dois poldros malhados, dum jovem arrieiro a puxar pelo freio uma mula teimosa e relinchona com o sangue de cristo na bexiga&lt;br /&gt;um insecto são dois bolbos negros, feito boneco de neve negro, o mais pequeno rola ladeira abaixo, o maior é um estertor com as perninhas hirsutas fechadas no chão&lt;br /&gt;quantos bolbos são precisos para soterrar um corpo humano&lt;br /&gt;quantos bolbos são precisos para fazer um corpo humano&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112118599744408742?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112118599744408742'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112118599744408742'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/07/so-joo-arrieiroo-corvo.html' title='são joão arrieiro/o corvo'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112081809824687610</id><published>2005-07-08T11:01:00.000+01:00</published><updated>2005-07-08T11:21:38.250+01:00</updated><title type='text'>Oito de trinta e três (John Denver, James Taylor, Morrissey, fim)</title><content type='html'>Gosto de árvores. E gosto do hálito da manhã, do cheiro do calor no restolho das estradas e das árvores calcinadas no Verão – as ruas apodrecidas, ao entardecer, da minha terra natal. Gosto das ruas onde nasci à noite, cheias de recantos onde costumava esconder-me - as notas tristonhas de alguém que corre. Gosto de Setembro, e do vento frio sobre corpos morenos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Das ruínas dos castelos e dos vestígios dos templos da Índia da minha infância. E das areias dos desertos, que estão mais perto dos meus lábios do que tu. Escorracei-me a mim próprio de tantos lados, e não precisava. É por isso que gosto das carruagens que correm pela planície em direcção ao mar, e dos céus azuis em dias mornos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As senhoras do luar. Os pastores que vivem à chuva. A canção que os marinheiros cantam quando deixam de ver a costa. O meu Volvo a deslizar pelos Berkshires, no primeiro dia de Dezembro. Em mim, não tenho nada mais alegre para dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoas: preparem-se. Ando sem mágoa, mas sem facilidade, pelas ruas onde fui criado. E posso possuir estas coisas todas, posso ter as suas peles junto à minha, as vozes arfantes ao meu ouvido. No entanto, jamais poderei alcançar a matriz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112081809824687610?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112081809824687610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112081809824687610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/07/oito-de-trinta-e-trs-john-denver-james.html' title='Oito de trinta e três (John Denver, James Taylor, Morrissey, fim)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112061570073160180</id><published>2005-07-06T03:02:00.000+01:00</published><updated>2005-07-06T03:12:44.200+01:00</updated><title type='text'>emílio peixe</title><content type='html'>&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;(originalmente publicado com o título "auto-retrato")&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ontem vi-te numa fotografia nossa e achei-te bonita&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;ontem acordei e tu não estavas lá&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;&lt;br /&gt;não tens estado lá há já algum tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;hoje vi-te numa fotografia que não é nossa e achei-te bonita&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;hoje acordei e vomitei torradas&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tenho-te achado bonita a cada golpe&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;tenho-te achado bonita tempo demais&lt;/span&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: rgb(0, 204, 204);"&gt;emílio peixe, sevilha, 1996&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112061570073160180?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112061570073160180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112061570073160180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/07/emlio-peixe.html' title='emílio peixe'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-112025310733656311</id><published>2005-07-01T22:22:00.000+01:00</published><updated>2005-07-01T22:25:07.343+01:00</updated><title type='text'>Onze de trinta e três</title><content type='html'>Para alguém, em algum lado, estas coisas vão importar – à medida que as casas arrefecem ao luar e eu regresso lentamente às minhas paisagens habituais. Estávamos em meados dos anos 80 e éramos punks rafeiros em Madrid. Adorávamos sarilhos, e os sarilhos adoravam-nos: éramos bissexuais, animais, doentes – andávamos às voltas pelo Instituto, desperdiçados nas companhias erradas, beijando os lábios fedorentos das raparigas de Pitis, de Peñagrande, do Barrio del Pilar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora tenho casacos de malha, sessões de terapia, certezas e um número fiscal – a mãe dos meus filhos descasa-se e descose-se, e eu deslizo lentamente para as minhas pastagens habituais. Um Quaalude comprado na Internet e depositado docemente debaixo da língua, como um limão se eu tivesse mandíbulas de hipopótamo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E descubro então a coisa mais espantosa: descubro que o meu coração é espanhol, que o meu coração é punk rafeiro, é Ramones vertidos para castelhano, é esperar à saída do Colegio Montfort e corrê-los todos a hóstias. Posso aparentar a placidez e a hesitação de um puro sangue da minha terra, mas a verdade é que o meu coração é espanhol, e o ar que respiro tem vogais fortes, e os meus sonhos são de Badajoz, de Pinar de Antequera, ajoelham-se na terra, chegam a Teruel tornados delírio – rápidos, de mil mães choradeiras, amargamente. Eles que bordam com paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o meu corpo que fez esta escolha: onde estão as lágrimas, onde está o sangue, onde estão os campanários perdidos, os crucificados de Castilla-La Mancha, as vozes entrecortadas das raparigas espanholas e as tardes cálidas nos entroncamentos? Onde estão os ateliês, os bares sem pena, as virgens emancipadas? Onde está a falta de descanso, os olhos com o coração às costas, o querer inevitável, impetuoso, a suave organização e a despedida efusiva? Aconteça o que acontecer, é aí que eu andarei sempre à procura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amor secreto: eu quero apenas dizer que nunca me fui embora. Estou aqui, no mesmo sítio, e as histórias da minha avó ainda hoje me arrancam tiras inteiras de pele das costas. E foi contigo que me fiz homem, contigo que saí de casa pela primeira vez. Tornei-me um poeta medíocre, daqueles que não cantam e não choram. Tornei-me numa daquelas pessoas que pensam que já viram tudo, e que por isso não vislumbram um palmo à frente do nariz. Vivo numa casa debaixo da ponte, e acordo muitas vezes a meio da noite com o calor da Andaluzia na fronte, aqueles dedos morenos na nuca – os lábios ciganos no peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querida mãe, mãe da meseta, mãe do sol, eu devia morrer a tentar perceber-te, a morder os teus passeios. Eu devia ter chegado aí ontem – o sítio onde pertenço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-112025310733656311?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112025310733656311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/112025310733656311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/07/onze-de-trinta-e-trs.html' title='Onze de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111891634107969798</id><published>2005-06-16T10:30:00.000+01:00</published><updated>2005-06-16T11:05:41.096+01:00</updated><title type='text'>Oito de trinta e três (Neil Young)</title><content type='html'>Lá onde te chegas um pouco mais perto de mim, lá onde as crianças dormem - é aí que eu estou ainda apaixonado por ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá onde ouves o que tenho para te dizer, lá onde continuamos estrangeiros - é aí que os frutos são colhidos, as celebrações feitas, as preces, os perdões. As cantigas. É lá que a Natureza cumpre as profecias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa a minha sombra espraiar-se ao longo da terra lunar - é mais forte do que eu, és mais forte, e Deus proíba que fiquemos de mãos vazias porque após uma noite vem outra noite - e é tudo uma grande noite, uma imensa noite mãe onde dançamos. Uma manta escura sangrando diamantes, um profundo vácuo de monstros, uma hibernação de eras e eras - separada por milhares de dias que nos enchem a alma de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero, pois, que dances pela noite fora nesta longa noite de colheitas: eu não te direi mais nada, e vou guardar este nada nos meus anos sem amor, em segredo, até que ele me encha com um substituto da tua companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos ser presos, vou esperar pelo Inverno. Já não tarda. E tenho a certeza de que vamos ver-nos outra vez, num destes dias estranhos que acontecem. Tangentes, coisas que resvalam e se apartam. A vida é assim tão generosa, tão cruel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111891634107969798?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111891634107969798'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111891634107969798'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/06/oito-de-trinta-e-trs-neil-young.html' title='Oito de trinta e três (Neil Young)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111827411171869115</id><published>2005-06-09T00:37:00.000+01:00</published><updated>2005-06-09T00:41:51.726+01:00</updated><title type='text'>são joão arrieiro</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;são joão arrieiro, aldeia abençoada ao que se diz e fértil em milagres e maravilhas, não tivesse sido assim baptizada em honra dum santo milagreiro que há muitos anos assentou arraiais neste mesmo solo rochoso e inclemente. é dona ermelinda a única pessoa da aldeia que aqui está desde os tempos de são joão, e por isso é ela quem conta a quem a quiser ouvir as desventuras do santinho da nossa gente, que eu vi com estes dois olhos gastos mas bem lembrados, e que a mim própria me curou de vários males, não passava eu duma pequena catraia&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;conte como fazia ele, conte lá tia ermelinda, são as crianças da aldeia que desta forma interpelam mais uma vez a velha mulher à narrativa, talvez a história de tanto contada e ouvida possa ganhar novidade ou alterar-se pela simples magia da repetição. dona ermelinda sempre acedeu e sempre o fará, vocês já o deviam saber, são joão colhia o mijo das suas bestas de carga em potes, benzia-os com uma benção que deus nosso senhor lhe ensinou, e dava-os depois a quem lhos pedia, aos pobres, doentes, sofredores, aos sedentos do espírito santo, aos necessitados de misericórdia&lt;br /&gt;santo, santinho joão&lt;br /&gt;livre-nos desta nossa maldição&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e o que lhe aconteceu, para onde foi, perguntam as crianças, cientes de que o final do que quer que seja muda sempre a cada vez, e dona ermelinda, que conta mais o que sabe do que aquilo que recorda, poderia até responder que são joão está ali encostado àquela esquina, não o vêem, e as crianças tornariam as cabeças e o santo lá estaria agarrado aos seus potes, com as mulas seguras pelo arreio, a distribuir curas e mezinhas, mas não, são joão simplesmente deu sumiço num dia de inverno, saiu com os animais à conta do seu ofício e nunca mais ninguém soube nada dele. com certeza o menino jesus chamou-o e ele foi, e subiu subiu subiu, até ocupar o seu lugar entre os anjos, o menino e os santinhos, e se também vocês querem ir para o céu quando morrerem então vão andando para casa antes que as vossas mães se metam arreliadas à vossa procura, vá, vá andor&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;o rapazio vai dispersando e dentro de alguns instantes dona ermelinda levantar-se-á levando o banquinho de vime na mão, e recolherá ao seu casebre com os passos duros e côr-de-cinza de quem já enterrou três maridos e onze filhos, mas não ainda, por agora deixa-se tragar pelos últimos raios de sol que o dia dispende, com todos os seus filhotes à sua volta sujos em correrias e brincadeiras, com todos os seus maridos e pretendentes à sua volta lavados em lágrimas e juras de amor eterno, as mãos deles metidas dentro da sua blusa e as mãos deles metidas entre as suas pernas, como se ainda pudesse ficar um pouco mais estéril, um pouco mais ressequida, não fosse este solinho que deus põe no céu todos os dias e já não me restava nenhuma alegria, tenho os meus periquitos é claro, o josé e a lúcia, mas até eles conseguem desgostar-lhe o coração, teimosamente recusando-se a devolver ninhadas perdidas, e onde é que já se viu bichos assim, macho e fêmea encafuados numa gaiola do tamanho dum mindinho e nunca os apanhei sequer a olharem um para outro, talvez sejam acanhados e só se metam no bem bom quando não há maneira de alguém ver, a não ser o espírito santo que esse está em todo o lado para todo o sempre, a cantarem que nem uns desalmados numa berraria que até mete medo&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;além do sol e dos periquitos tem igualmente dona ermelinda a companhia de david, encargo que lhe foi deixado pela irmã mais nova, uma moça que sempre foi a modos que destrambelhada, nunca fez as coisas direitas, deixou fugir o homem quando ficou com o filho e deixou ficar o filho quando fugiu com o homem, e agora a escrava velha que se amanhe com o rapaz, ainda por cima meio atrasado como comenta toda a aldeia e por isso é verdade, que anda com o andar desengonçado e se consegue até perder no caminho para a escola, e mal abre a boca para que dela apenas saiam rodilhos, perdigotos e os pouca-terras dos comboios abandonados na linha férrea, onde o malfadado cachopo passa todo o tempo que tem. há quem diga que é sinal que vai fazer carreira como maquinista quando crescer, só é pena que já não se dê uso aos carris faz agora meia dúzia de anos, vieram à aldeia uns senhores engravatados e disseram que a linha não servia os interesses da pátria e pior ainda feria de morte o plano ferroviário nacional portanto era preciso desactivá-la, dito e feito, tomou outro caminho o progresso do país e deixou de apear-se em são joão arrieiro, onde o david aguarda em vão, tivesse ele chegado aí uns vinte anos mais cedo ou o interesse nacional uns vinte anos mais tarde, assim como foi ficou o pobre rapaz sem vocação para a vida, já para depois dela quem sabe, mesmo os comboios-fantasma hão de precisar de maquinistas feitos da mesma fibra&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;viu o meu david, vi sim, junto à linha dos comboios, ai valha-me deus que o catraio não me dá descanso, diga-me só se ele ao menos estava sossegado, acho que sim, também não parei para ver o que o rapaz aprontava, pareceu-me que estava simplesmente a passar para cá e para lá dos carris, mesmo em frente duma daquelas enormes locomotivas que lá ficaram esquecidas, a olhá-la fixamente, como se à conta do desafio e da provocação a velha e pesada carcaça pardacenta pudesse voltar à vida&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;piu-piu-piu-piu, josé olha ali a lúcia tão bonita, ela gosta de ti porque não vais lá ter com ela, vai lá, tão velha dona ermelinda e ainda esperançada, seria de imaginar que chegada a esta idade já soubesse que os bichos agem tal e qual os seus donos, imitam-lhes os gestos, os gostos, os caprichos e tudo o mais, não é nenhum mistério da natureza, estes periquitos limitam-se a estar tão sem cio como ela, já o david não tem idade para perceber destas coisas e como gosta da sua tia há de querer eventualmente resolver-lhe o problema dos pássaros, com a melhor das intenções, garantir um lugar no inferno&lt;br /&gt;acorda, por favor acorda passarinho, eu não te queria acertar&lt;br /&gt;não te queria fazer mal&lt;br /&gt;juro&lt;br /&gt;não contes a ninguém&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111827411171869115?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111827411171869115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111827411171869115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/06/so-joo-arrieiro.html' title='são joão arrieiro'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111753977402293669</id><published>2005-05-31T11:51:00.000+01:00</published><updated>2005-05-31T12:42:54.073+01:00</updated><title type='text'>Dez de trinta e três</title><content type='html'>A minha irmã cresceu para se tornar uma bonita mulher, e os jogos de chaves que costumávamos fazer - gémeos de aventuras, de taças de cereais partilhadas nas tardes de verão, quando a casa escurecida pelos reposteiros corridos até metade - e aos vinte e três anos ela começou a passar o seu tempo livre a fazer uma colcha para a cama, bordando em ponto cruz as «Teses sobre Feuerbach», itálicos incluídos e mesmo um ou outro termo em alemão para elucidar ambiguidades da tradução a que recorrera (o sempre problemático "Gemüt", por exemplo).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rapariga de Wallasey, a rapariga do Lumiar não era, porém, a minha irmã - já que vivíamos num sítio ambíguo entre a Calçada de Carriche e Telheiras, no meio de baldios e tampas de esgoto a borbulhar - mas sim a Lúcia (Lucie, Lucy), a amiga da minha irmã que só queria que a deixassem em paz com Marx e Engels - e por mais que eu tentasse meter conversa ela sempre deixou claro que não havia intelecto que pudesse algum dia respeitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava a treinar-se para rapariga de motim, e lia fotocópias de panegíricos e opúsculos de chilenos ressabiados enquanto caminhava pela rua - pobre eu que não conseguia deixar de olhar para as linhas doces que demasiados quilómetros de fel tipografado haviam tornado em rugas de sabedoria, de preocupação, de ódio por aquelas coisas que eu gostava como leitores de cd portáteis e filmes com o Eddie Murphy.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há ainda espaço na minha vida para mais um intento, para mais uma emoção - há espaço na minha vida, no meu cavalinho de madeira, para as tuas carnes femininas revolucionárias cor de leite, frias ao toque, reagindo aos meus dedos quando te toco - as partes descuidadas e em sítios negligenciadas do teu corpo de que te esqueceste, os sítios onde Lukács é uma comichão, Gramsci uma irritação pela qual eu passarei Fenistil, seguido de um beijo santo, cheio de práxis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há miséria por todo o lado que vejo, nos cães que vomitam nos baldios e nas pessoas que aos domingos passeiam por entre os cães que vomitam nos baldios, e após a hora do lanche pensamos todos que de certo modo não tem necessariamente de ser assim, mas esta gente tem trabalhado tanto toda a sua vida percebes, tem feito coisas tão repetidas e tão degradantes e tão redutoras que seria um milagre que todos estivessem preparados para se levantar em chamas, em fúrias, o sangue pulsando nos pulsos e nos peitos como o teu - como as veias azuladas que eu vejo nas tuas mãos quando escreves na escrivaninha da nossa marquise, fazendo cópias diligentes, em caligrafia tão burguesa (tão «Kitty»), de receitas macrobióticas e citações de Oscar Wilde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oitava tese sobre Feuerbach: «A vida social é essencialmente &lt;em&gt;prática&lt;/em&gt;. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis». Arrebatado a ponto cruz pela minha irmã num tecido cru, daqueles que deixam fugir o calor do corpo durante a noite. Estás a ver a solidão do corredor de longa distância? - quando acaba a corrida e olha à sua volta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...eu adorava ir contigo para os sítios onde vais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sai, portanto, da tua carapaça de degredados e torturados e clandestinos, traz-me o nariz arrebitado e os lábios finos da classe média instalada - que eu sei que tens. Entra no quarto onde eu comparo as cilindradas das motas de corrida e as minhas possibilidades de sobreviver no &lt;em&gt;Dungeons and Dragons -&lt;/em&gt; esqueçamos a colcha que a minha irmã retira das suas fadigas e dos olhos com miopia galopante - e deixa-me fazer contigo aquele amor sôfrego, trôpego, cheio de roupas e corrigir de posições, aquele amor de despedida dos mexicanos e dos trotskistas, aquele sexo desajeitado dos jovens comunistas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111753977402293669?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111753977402293669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111753977402293669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/05/dez-de-trinta-e-trs.html' title='Dez de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111633374907599780</id><published>2005-05-17T13:24:00.000+01:00</published><updated>2005-05-17T13:42:29.083+01:00</updated><title type='text'>Juan Rulfo</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;não me recordo ao certo se o meu irmão começou a beber antes ou depois de tudo ter começado. também não me lembro bem em que momento se tornou claro para ambos que ele o fazia por nossa causa. nunca falámos muito acerca dele, e a partir de certa altura devo ter deixado de perguntar ou ela deixado de responder. simplesmente soubemo-lo, soubemos que o estávamos a consumir aos poucos, soubemos que o estávamos a matar e os remorsos&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;se a visse na rua diria imediatamente que ela não era para o meu bico, nem para o meu nem para o do meu irmão. ele era a minha cara chapada mas tinha um feitio impossível, pelo menos sempre foi o que as pessoas disseram. talvez por isso tenha ficado tão surpreendido da primeira vez que ele a levou a casa dos meus pais, já para não falar de quando, passados apenas alguns meses de se terem conhecido, ele me contou que iam morar juntos e pensavam casar e tudo o mais. estavam demasiado perdidos um pelo outro para se aperceberem de que não faziam outra coisa senão discutir, foi o que ele me disse&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;estivemos juntos inúmeras vezes, mas apenas numa ocasião passei a noite com ela. lembro-me bem disso. sei que ela demorou imenso tempo a adormecer, até leu um livro duma ponta à outra antes de apagar o candeeiro e deitar-se de costas viradas para mim. acho que o autor se chamava rulfo ou qualquer coisa do género, um nome bom para um gato pensei eu na altura. não lhe cheguei a perguntar de que falava o livro ou se ela estava a gostar da leitura. mal preguei olho nessa noite, fiquei que tempos a matutar acerca de nós e do meu irmão. imagino que qualquer pessoa considere terrível o que lhe andávamos a fazer, mas naquele momento, por muito que pensasse nas coisas, não as achava assim tão erradas. era mais como se tudo aquilo fosse simplesmente uma peregrinação forçada em que os três tínhamos que participar juntos, algo que servia para expiar os pecados que íamos cometendo ao longo do próprio caminho, algo no fim do qual um e apenas um de nós se pudesse salvar. como se a redenção de um mártir mais que valesse os joelhos esfolados de um par de pecadores&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;acho que jamais lhe dei prazer em todos aqueles encontros, ou pelo menos ela não o demonstrava, nem sequer um suspiro ou um aperto nos lábios. ela nunca queria que o fizéssemos com a luz apagada, aliás chegou a pedir-me que abrisse um pouco o estore ou acendesse um candeeiro qualquer. e ficava sempre a olhar-me fixamente para a cara enquanto o fazíamos, passando delicadamente os seus dedos pelos meus caracóis espigados, à procura de algo em mim sem o qual nada daquilo fazia sentido. lembro-me de uma vez em que ela estava assim e não sei bem porquê fiquei com uns ciúmes danados, e então disse-lhe, por muito que o procures ele não está aqui&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;quando finalmente o médico o avisou, o meu irmão pareceu redobrar o esforço. como se aquilo fosse um incentivo, um elogio por se estar no bom caminho. nunca fez qualquer sentido dizer que o meu irmão era um bêbado, em momento algum houve ali uma ponta de dependência ou degradação. ele limitou-se a beber imenso e a morrer, tudo em silêncio, afogar um gato em silêncio mais golo menos golo&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;é difícil imaginar uma viúva mais destroçada e inconsolável que ela. não voltou a casar e nunca me chegou aos ouvidos que se tivesse envolvido com outro homem. quanto a nós, não voltámos a estar juntos e pouco falámos desde o funeral. não estranhei que as coisas se desenrolassem e terminassem desta forma, e muito menos lhe levei a mal por isso. sei perfeitamente que os mortos se amam de maneira diferente&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111633374907599780?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111633374907599780'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111633374907599780'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/05/juan-rulfo.html' title='Juan Rulfo'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111452206168843342</id><published>2005-04-26T14:26:00.000+01:00</published><updated>2005-04-26T14:27:41.690+01:00</updated><title type='text'>Nove de trinta e três</title><content type='html'>Começara a escrever o meu “Livro Falso”. Todas as noites deitava-me triste, e era a pensar nesse “Livro Falso” que eu adormecia, no “Livro Falso” e nas coisas que algumas pessoas me fizeram e que eu nunca cheguei a compreender. Não tinha dificuldades em adormecer: acho que havia uma ponta de felicidade, uma qualquer espécie de verdade em todas aquelas mentiras – e o meu “Livro Falso” era o monstro daí resultante, um animal de estimação que não dá muito trabalho, que vai pela sua vida e aparece para comer de vez em quando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fundara um blogue chamado “A Minha Vida Amorosa”. Nele identificava-me com uma letra minúscula, a primeira letra do meu primeiro nome, o princípio da palavra por que me conheço. Lembro-me que escolhera essa letra assexuada para poder permanecer num limbo identitário face aos poucos que me liam (e sublinho poucos, porque de acordo com um contador que instalei no blogue tive quinze visitas em sete meses). Por outras palavras, eu poderia ser José, eu poderia ser Joana, eu poderia ser Joaquim – eu poderia ser tudo menos isto. E por isso era. E era tão bom poder ser outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certo modo, “A Minha Vida Amorosa” (aquele blogue que entretanto apaguei num acesso de fúria e impotência) era o irmão luminoso do meu “Livro Falso”, no qual eu escrevia ou pensava nas coisas que não ousaria nunca dizer a ninguém, as coisas que não deveriam sair de dentro de mim porque elas constituíam, por assim dizer, o meu último refúgio, o repositório de tudo o que em mim era sagrado – meu, definitivamente meu, só meu. Por isso, “A Minha Vida Amorosa” era essencialmente escapismo e fingimento, e por isso era uma desilusão para toda a gente: um placebo, um foguete que se espalha em cores pelo céu negro, esfumando-se bruscamente em nada. N’ “A Minha Vida Amorosa” eu fingia como Fernando Pessoa, mas isso não fazia de mim um poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E digo isto porque a minha verdadeira poesia se acumulava nas gavetas, acumulava-se dentro de mim, e aqueles postes eram apenas bolhas de pus que surgiam à tona da pele, espremidas quando se tornavam demasiado evidentes. O que eu trazia cá dentro, o que não tinha forma e que eu podia apenas adivinhar todos os dias à hora de deitar – isso tudo ia constituindo o meu “Livro Falso”: a testemunha da minha mentira, a enseada da minha verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem tu poderias saber, querido amigo. Apenas que eram tempos muito pouco claros para mim. Imagino-te a apodrecer nessa aldeia dos Cárpatos, e fico triste apesar de saber que estás no cenário do teu livro favorito. Sei que à noite ouves os uivos dos lobos e sei que as pessoas seguram candeias para alumiar o caminho. Sei que quando acordas para trabalhar há cheiro de alfazema, e sei dos paralelepípedos de feno que aquecem as manjedouras. Sei do teu filho que cresce nos bosques. Sei da tua esposa que entretanto se tornou mulher. Eu estou há três anos a esta janela, mas sei isso tudo. Um dia, tu e eu seremos velhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tudo uma questão de regras, sabes. As pessoas às vezes querem mudar as regras nas suas vidas, ou então querem mudar as regras em relação a mim. Quando o Verão chega, chega a altura de eu ouvir isto: “Tenho novas regras”. Ela diz que tem novas regras. E eu fico aqui, mergulhado neste tanque de mel. É por isso que o meu “Livro Falso” se tornou natural. Orgânico. Tão desordenado e caótico como “A Minha Vida Amorosa” era metódica, calculada, instrumental. Aquele tão puro, esta tão pornográfica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, estou farto de todas estas fotografias de mim. Está tudo tão errado. Há-de haver um tempo, para além do mundo, para além do seu significado, em que as coisas boas podem sair e fazer com que tudo fique bem. O bem podia sair do fundo da terra, e a terra seríamos nós. E o bem podia curar-nos. Entretanto, sou mais um a viver num estado de guerra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111452206168843342?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111452206168843342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111452206168843342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/nove-de-trinta-e-trs.html' title='Nove de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111409027700826814</id><published>2005-04-21T14:22:00.000+01:00</published><updated>2005-04-21T14:31:17.010+01:00</updated><title type='text'>Oito de trinta e três (Creedence Clearwater Revival)</title><content type='html'>Eu quotidiano andava descalço de jardineiras torrando ao sol, a uma milha apenas de Texarkana.&lt;br /&gt;O som do algodão a restolhar ao vento, o algodão a picar os meus pés – criança desajeitada, as outras crianças brincando na curva da estrada. Eu quero saber isto: para onde vão de manhã as almas penadas que sobem como arrepios pela minha pele acima, à noite, quando o algodão arrefece e os brancos roncam tanto como os negros?&lt;br /&gt;Os passos ao longo da cerca e a enorme planície do Louisiana, e os andarilhos que passam e os cegos que passam sem ver os passos que deixam, e os espantalhos e os espanta-espíritos e o vento soprando ao longo dos campos de algodão, o sangue das mãos dos negros, as costas cortadas de chicote.&lt;br /&gt;Eu quotidiano andava descalço de jardineiras torrando, a cabeça desprotegida e os olhos na linha de água em frente, a uma milha apenas de Texarkana - e agora estou de novo a regressar a casa para ti.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111409027700826814?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111409027700826814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111409027700826814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/oito-de-trinta-e-trs-creedence.html' title='Oito de trinta e três (Creedence Clearwater Revival)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111396221170484061</id><published>2005-04-20T02:53:00.000+01:00</published><updated>2005-04-20T03:08:59.210+01:00</updated><title type='text'>um cliché/pedaço de qualquer coisa descabida com mais de dois milénios e um dia de atraso - outtakes vol. I</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;tudo se passou ontem mas igual teria sido se fosse hoje. tudo se passou ontem como se fosse hoje fosse ontem. não faz sentido, eu sei, perdoem-me...a minha cabeça já não é o que era. mas é que o senhor disse-me, e nesse exacto momento os carros pararam de carburar e os aviões sem ímpeto caíram como folhas calcinadas pelo frio.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e pelo menos durante esse instante não houve rafeiros a lamber as feridas e os testículos, e mesmo os mais tresmalhados de entre eles prostraram-se entoando hossanas em hebraico antigo sem mácula.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e foram lembrados como heróis todos aqueles que decidiram atirar-se de uma ponte ou esquecer-se de si mesmos tornados em papa na calçada de todas as pracetas de aldeia em que houve um bêbado a efervescer a plenos pulmões, pulmões ao alto, viva el rei d. miguel de bragança e para o patíbulo com todas as putas comunistas que se fazem passar por senhoras de bem.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e por um momento toda a gente soube quem foi jesus e porque acabou ele crucificado com um formigueiro no baixo-ventre, mesmo que na realidade a sua pata de cão jamais tenha calcado a poeira e o cascalho ermo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e também foi permitido às crianças que se despissem e praguejassem, que assolassem como uma praga este mundo, finalmente coroadas suas donas e demónios.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e as bocas, olhos, faces dos profetas consumiram-se na verdade e na incandescência e nas fagulhas da verdade, e as multidões agradecidas sangraram a verdade por entre as folgas dos dentes, em espiral até às lâminas com que o arcanjo havia armado os exércitos do seu próprio extermínio adiado.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;e nenhuma gota de sémen foi alguma vez desperdiçada, nenhum sono tornado febre, degenerado em cobre e chumbo, pois choveu muito mais do que água quando o senhor me disse, quando toda a gente cantou como os negros em capelas de madeira rala guardadas por amoreiras e coros de andrajosas cigarras do mississipi.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111396221170484061?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111396221170484061'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111396221170484061'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/um-clichpedao-de-qualquer-coisa.html' title='um cliché/pedaço de qualquer coisa descabida com mais de dois milénios e um dia de atraso - outtakes vol. I'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111368840378283535</id><published>2005-04-16T21:44:00.000+01:00</published><updated>2005-04-16T22:59:22.013+01:00</updated><title type='text'>Sete de trinta e três</title><content type='html'>Deixámo-la, desorientada mas sorridente, em frente a uma loja de pesticidas em Les Halles. Na prática, empurrámo-la para fora e arrancámos com urgência naquele carro malcheiroso onde dormíramos os três tantas noites, e a última imagem que tenho é da multidão de Les Halles a engoli-la e do seu sorriso imaculado, infantil - os olhos a procurarem uma referência enquanto segurava os sacos de plástico com todos os presentes que lhe havíamos dado: chocolates, flores, metade do dinheiro que nos restava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu melhor amigo ia casar-se com uma princesa cigana de catorze anos cujos antepassados haviam pausado as suas transumâncias algures num ribeiro nas faldas dos Cárpatos, e por isso havíamos decidido atravessar a Europa de automóvel até ao altar. Inevitavelmente, acabáramos em Paris, não só devido a um conjunto inacreditável de enganos nas auto-estradas mas também porque fora em Paris que passáramos os melhores momentos da nossa amizade: aquele Inverno de vento e a Place de S.Michel e o meu pobre coração abandonado; o parque André Citroën; os cartazes com a Jane Birkin; a praceta em Ménilmontant onde Brian de Palma filmou a cena do «Bolero», no filme &lt;em&gt;Femme Fatale&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em La Rochelle que a apanhámos. Nós estávamos a pedi-las. Choveu em La Rochelle o tempo todo que lá estivémos, e nós íamos todos os dias para o porto a ver as cargas e descargas, os grandes navios e os contentores metálicos que formavam labirintos no chão cimentado: sentados por detrás de grades na erva suja e encharcados pela chuva miúda que o vento atirava em todas as direcções; bebíamos cerveja, pensávamos com temor naquele Atlântico negro diante de nós, voltávamos para o bairro dormitório onde estacionáramos o carro. Não falávamos muito: eram os nossos últimos dias juntos, e em breve eu entregaria o meu amigo num casamento negociado à lei da bala numa noite de póker.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de a apanharmos (e não vou dizer como) ela passou a andar connosco e a beber da nossa cerveja, que carregávamos na mala do carro junto a um saco de cuecas que íamos deitando fora à medida que usávamos. Os fatos do casamento estavam enrolados em sacos do lixo e colados ao tecto do carro com fita adesiva; algures no carro estava ainda uma lâmina de barbear com a qual nos tornaríamos mais apresentáveis no dia da boda. Não tínhamos vontade de chegar àquela pequena aldeia cigana. Todo o nosso dinheiro ia para gasolina e para pão, que comprávamos invariavelmente em bombas de gasolina e consumíamos seco e simples, fatia a fatia, com pressa de engolir e sem paciência para mastigar. Dávamos-lhe do nosso pão, ela sorria sempre, falava pouco: depois às vezes um de nós fazia amor com ela e o outro esperava fora do carro, dando um passeio pela mata à beira da estrada na qual calhara pararmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que ela nos agradecia. Não pela atenção descuidada que lhe dávamos, mas por todos aqueles quilómetros de boleia, quilómetros e quilómetros de uma distância que a separavam de La Rochelle e que se acumulavam dando-lhe segurança, e quanto mais nos afastávamos mais ela parecia ficar contente. Talvez fugisse de um casamento combinado em cima de uma mesa de póker, talvez precisasse apenas de mudar de direcção - ou de dizer não a uma terra de barcos que passavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que chegámos a Paris e em Paris a nossa bondade esgotou-se, talvez por pressentirmos que Paris era a última paragem e a partir daí o casamento era real, a nossa separação incontornável. Por isso em Paris dissemos-lhe adeus, escolhemos Les Halles e abrimos-lhe a porta para a cidade. Não a voltámos a ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último dia em Paris fui encontrar o meu amigo debaixo de um submarino. Tínhamos ido passear à Cité des Arts no nordeste da cidade, e eu andava encantado com as coisas que inventavam para as crianças se divertirem. Passáramos o dia a falar de Júlio Verne, de queijo. Bebêramos as últimas cervejas da mala do carro. Paris estava cinzenta e morna, já não havia sítio nenhum na cidade que nos pudesse acolher, confortar, surpreender. Não no estado em que estávamos. Lembrei-me de um pequeno apartamento de estudantes junto à Place d'Italie onde aprendi que todos os amores morrem, tudo estava silencioso debaixo do submarino à excepção dos esporádicos sons aquáticos pós-modernos que saiam da gigantesca esfera metálica ao nosso lado. Eu estava quase a sugerir um café ou um chocolate quente para celebrar o fim da cerveja, um regresso aos bulevares - St.Germain uma última vez antes de nos separarmos, antes de morrermos - e foi nessa altura que reparei que os ombros do meu amigo se sacudiam enquanto ele chorava. Ele dizia o que é que me aconteceu, o que é que me aconteceu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111368840378283535?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111368840378283535'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111368840378283535'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/sete-de-trinta-e-trs.html' title='Sete de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111300297406776275</id><published>2005-04-09T00:23:00.000+01:00</published><updated>2005-04-09T00:29:34.073+01:00</updated><title type='text'>dois clichés/pedaços de qualquer coisa descabida com mais de uma década e três dias de atraso; até porque as citações sempre ocupam menos espaço</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt; “runny nose and runny yolk&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;even if you have a cold still&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;you can cough on me again&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;I still havent had my full fill &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the someday, what's that sum?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the sunday, what's that sound?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;broken heart and broken bones&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;finger plaster-cast in horse pills&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;one more quirky cliche'd phrase&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;you're the one I wanna refill &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the someday, what's that sum?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the sunday, what's that sound?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;«most people don't realize that two large pieces of coral, painted brown, and attached to his skull with common wood screws can make a child look like a deer» &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the someday, what's that sum?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;in the sunday, what's that sound?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;(...)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;fuck, man, this is a waste of time&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;(laughs) one more solo? yeahhhhh! yeahhhh! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;you're personally responsible for&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;the entire strip, to be washed away&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;cleansed&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;as if gallons of, umm, rubbing alcohol&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;flowed through the strip and were set on fire &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;it didn't just singe the hair, it made it straight &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;and then perry ellis came along with his broom,&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;and his silk&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;and he, he erected a beautiful city&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;a city of stars”&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111300297406776275?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111300297406776275'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111300297406776275'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/dois-clichspedaos-de-qualquer-coisa.html' title='dois clichés/pedaços de qualquer coisa descabida com mais de uma década e três dias de atraso; até porque as citações sempre ocupam menos espaço'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111260801322375574</id><published>2005-04-04T09:52:00.000+01:00</published><updated>2005-04-04T10:46:53.226+01:00</updated><title type='text'>Vinte e sete de trinta e três</title><content type='html'>É com uma cara de espanto que os condutores morrem nas estradas em Portugal (morrem como tordos mas porque é que tantos tordos morrem?) - eu vejo-os da minha janela alta e registo com ironia amarga as caras que eles e elas fazem quando morrem: a admiração, o «porquê eu?», o súbito medo, e se dizem que nos momentos que antecedem a morte toda a vida nos desfila em frente dos olhos então eu aposto que eles estão outra vez na Praia do Ribatejo numa tarde de Agosto, os mamilos erectos, uma garrafa de cidra mergulhada na ribeira para arrefecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas acorrem às janelas ao mínimo sinal de uma travagem brusca, e também eu levanto os olhos do que estou a fazer para entreabrir as cortinas e ver as pessoas a viajar em pensamento até ao regaço da adolescência, aqueles tecidos de algodão colados à pele pelo suor - o sol rendilhado e ofuscante entre as folhas das árvores - e eu era feliz, eu era feliz. Choca-me em especial o silêncio de poucos segundos que se segue ao embate - aquele silêncio petrificado, incrédulo, exangue, sem oxigénio - e depois os gritos, os alarmes, as lágrimas, os transeuntes que correm, o sangue que cria padrões irregulares, ensopando os tecidos e os estofos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os olhos das pessoas nos momentos antes do embate lembram-me os olhos das raposas assustadas à noite na estrada - e tantas vezes que eu escrevi sobre as raposas assustadas à noite na estrada, tantas vezes que tentei ganhar dinheiro e fama com essas peles arrancadas, com esses olhos esborrachados, esguichantes - suplicando piedade, pudor, moderação, paciência, tudo o que eu não tive. Por isso as pessoas na estrada quando morrem morrem também por minha culpa, e eu morro também com elas. E a praia fluvial da Praia do Ribatejo vai ser só nossa nas tardes de Agosto quando os mosquitos zumbem à tona de água, quando a areia suja brinca entre os nossos pés nus, quando eu desenlaço a fita que segura os seus cabelos, negros, linda, lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o asfalto vai dar a outra face, e os motores vão rugir, e as porcas vão ser apertadas e depois saltar subitamente, e rápidos sibilantes jactos de ar comprimido vão soltar-se aqui e ali e arrotos vão ser dispensados - gargalhadas rebentando - e a minha mãe e o meu pai também vão nesses carros e os carros vão passar aos domingos debaixo das nossas janelas, tantas máquinas assassinas em movimento que é um milagre que as almas não subam ao ritmo da pulsação de um beija-flor - e as crianças embaladas nas encomendas nos berços nos braços vão olhar aqueles carros e vão desejar um dia ser assim. E vão sê-lo, e fumar charutos aos treze - pequenos césares de olhar maldoso, tintins de pólos e chaves ao pescoço, um dia desonrando as nossas irmãs, as nossas filhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há quem feche os olhos: eu por vezes também fecho os olhos. O momento em que os olhos se fecham - inócua protecção, como as crianças que tapam a cara e se julgam invisíveis - esse é o momento em que a coluna da direcção se precipita como um arpão contra a caixa torácica, é o momento em que o airbag se despoleta, em que as rodas traseiras dão um pequeno pulo à medida que, centímetro a centímetro, o motor é esmagado e os parafusos e rebites são projectados a metros de distância, caindo aos pés das avós que vão ao supermercado. Todos estão estarrecidos, satisfeitos - a fita do cinto de segurança deixa uma longa lesão ao longo do peito e essa lesão vai demorar a passar - mas isso é o que menos importa porque o resto, o resto - o resto são bonecos orgânicos a desfazer-se e ecossistemas em colapso, o resto são baços rebentados e maxilares metidos para dentro, o resto são pernas estilhaçadas e articulações à deriva. Pensamentos com areia suja. Aquela rapariga que gostava de ti. Aquele rapaz que te tratou mal. Aquela noite tépida de Verão no castelo. Aquela face encostada ao teu peito, subindo e descendo com a tua respiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também eu passei pela Praia do Ribatejo, um dia destes: estava sentado numa manta de tartã, e nas minhas mãos um livro francês era decantado, escorrido, bocejado, os caroços cuspidos. Tinha um cesto com romãs aos pés. O ribeiro gorgolejava entre as pedras, eu tinha: sítios na minha cabeça, sítios dentro de sítios, bosques e ribeiros onde molhara os pés, mãos dadas com uma rapariga que amava. O sol lambia languidamente a minha testa, os sítios onde antes cabelos pontificavam e onde os meus dedos se demoravam numa comichão que era o tempo a passar, a velhice, Deus, promessas de prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também eu passei pela Praia do Ribatejo: era Agosto como todos os dias, e tinha um cesto de romãs mesmo ali junto aos pés, e as tuas mãos demoraram-se na minha testa, os teus olhos nas rugas da minha face, sem dor, e por momentos deste-me esperança, e o meu livro caiu e depois levantaste-te e mergulhaste no ribeiro, e eu fui buscar-te ao fundo, os limos agarrados ao teu corpo cor de leite. Praia do Ribatejo: índios espreitando por entre as copas dos chorões que bebiam da torrente fresca, o teu corpo nu molhado poisado no tartã, os beijos que eu nunca te dei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois o regresso, num súbito, num baque: o som de uma travagem, o asfalto, o céu carregado de chuva, e o meu carro a despedir-se de mim com os guinchos do metal torcido, da borracha queimada, do plástico sobreaquecido. Um corpo poisado docemente no meu pára-brisas rachado, os caracóis espalhados ao longo das linhas dos estilhaços, o escalpe aqui e ali arrancado e um lento gotejar de sangue explorando trilhos ao longo do ecrã que agora passava o meu filme. Dentes - de leite - cravados no vidro. Uma menina. O meu pé ainda no travão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111260801322375574?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111260801322375574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111260801322375574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/04/vinte-e-sete-de-trinta-e-trs.html' title='Vinte e sete de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111105589903640838</id><published>2005-03-17T11:33:00.000+01:00</published><updated>2005-03-17T11:38:19.043+01:00</updated><title type='text'>Seis de trinta e três</title><content type='html'>Ontem lembrei-me do dia em que entreguei a minha tese. Talvez tenha sido por ter voltado a ouvir a Rosie Thomas: ela trouxe à minha memória aqueles dias de sol morno, sem nuvens, em que eu descia uma colina para chegar a casa, que se encontrava mesmo junto ao mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse Verão, eu vivia num quarto com vista para essa colina. Para ver o mar eu precisava de ir à cozinha, que partilhava com um rapaz chinês que não via a mãe há dois anos, e com um rapaz inglês que tinha a mãe doente algures na Cornualha. O meu quarto era bastante sossegado: tinha um excesso de moscas devido às pombas que se empoleiravam num telhado em frente, mas em compensação, como vivia mesmo ao lado de um pequeno hotel familiar, tinha todos os dias (especialmente quando o vento estava de feição) o cheiro reconfortante do chá com leite acabado de fazer. Alguém tinha deixado uma pequena tábua para manter a janela aberta – nessa tábua tinham escrito que a janela tinha mais de cem anos, o que era um pouco difícil de acreditar. Às vezes sentava-me à janela com os pés de fora, apanhando o sol da tarde e o vento frio que vinha do Penglais Park.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos dias de maior calor, saía de casa e andava uma vintena de passos até os meus pés tocarem o Mar da Irlanda. Deitava-me naquela praia de pedras negras, e deixava que o sol fraco acariciasse a minha pele manchada, irregular, cheia de pêlos. Por vezes, punha uns óculos especiais e dava umas quantas braçadas naquela água gelada e turva: diziam que as fezes do gado e os minerais nocivos das minas eram arrastados pela chuva até ao mar. A minha pele começava a reagir, tingindo-se de vermelho em pequenos aglomerados junto aos meus mamilos, ao meu pescoço. Voltava para casa, os pés abraçados por minúsculas pedras negras que deixavam um rasto até à minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha começado a dormir com um bloco de notas mesmo ao lado da cama. Costumava acordar várias vezes durante a noite para escrever frases e palavras confusas, supostamente ideias indispensáveis para o desenrolar dos meus argumentos. Acho que o meu cérebro estava a expectorar. De manhã acordava desfeito, lavava a cara, comia cereais de chocolate com sabor a plástico, olhava o mar durante alguns minutos, vestia a velha t-shirt e os velhos calções, começava a trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente, conseguia ter as coisas terminadas antes de jantar. Tinha uma vizinha botswanesa que costumava aparecer com alguma frequência: ela lavava as suas roupas duas ou três vezes por semana, e da minha janela eu via-a com o cesto a dirigir-se para a lavandaria. Tomávamos chá na cozinha, falávamos de várias coisas, víamos episódios do Fawlty Towers, ela contava-me do seu flatmate psicopata que chegava à cozinha e lhe dizia “estás com o período, não estás?, consigo cheirar o teu período” - coisas assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras vezes, quando ela não vinha a visitar-me, eu costumava sair de casa ao pôr-do-sol e ia passear e ouvir música. Ouvia Rosie Thomas, Sun Kil Moon, Red House Painters, Nick Drake, The Smiths, Elliott Smith, Josh Rouse. Adorava os beijos do sol na minha cara. Calhava deambular pelas ruas já escuras quando começava a chover; eu trazia uma camisola com capuz e, na minha mente, tornava-me mais um fantasma daquelas terras. Caminhava até à estação, até St. Michael’s, até à Escola de Artes, até aos hipermercados. Percorria a North Parade, descia a Loveden Road, a chuva caía. Gostava de ver os nomes misteriosos que as pessoas davam às casas: Tremor, Glaenwern, Finmoor, tantos que me esqueci mas que na altura me maravilhavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas memórias são como uma pedra que eu levanto, para encontrar um mundo de vida e de terra húmida em baixo. A minha mãe, de quem eu gosto muito embora não o diga, dizia-me que devia levantar as pedras com cuidado. Lacraus, coisas assim. Por isso eu sempre me habituei a levantar as pedras apenas para dar uma espreitadela; no entanto, isso levou-me, por insatisfação e tendência para o abismo, a levantar muito mais pedras do que as outras pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem, quando escutava Rosie Thomas, lembrei-me do dia em que entreguei a tese. Aquilo era já a terceira versão do texto, e eu tinha chegado a uma altura em que sentia que não conseguia fazer melhor. Quase esperava o som de trombetas ou uma orquestra a tocar enquanto entregava, mas tudo foi rápido e impessoal. Recebi um canto de folha com um carimbo. Uma espécie de comprovativo. Guardei-o na minha mala e saí. Estava um daqueles dias de sol esplendoroso, mas soprava uma brisa fria e subitamente senti-me sozinho, muito sozinho. Caminhei até uma pequena clareira orlada de árvores altas, na parte oeste do campus. Sentei-me numa sombra e senti frio. Deixei-me ficar sentado e senti a relva húmida debaixo das minhas nádegas. Fechei os olhos. Tinha um monte de coisas pendentes, assuntos que, imerso no trabalho, tinha adiado mas que agora teria de enfrentar. Não havia desculpas e eu tinha de tomar decisões, lutar pela minha posição e pela minha vantagem competitiva. Em suma, tinha de começar a “fazer por mim”. Teria de começar por apanhar um avião e voltar a Lisboa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111105589903640838?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111105589903640838'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111105589903640838'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/03/seis-de-trinta-e-trs.html' title='Seis de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111079854471733988</id><published>2005-03-14T12:01:00.000+01:00</published><updated>2005-03-14T12:14:10.350+01:00</updated><title type='text'>Cinco de trinta e três</title><content type='html'>&lt;em&gt;Kid A&lt;/em&gt; (EMI: 2000) significou o fim da minha relação com os Radiohead. É necessário que compreendas o que era para mim viver em Lisboa nessa altura. Tenho escrito muito sobre isso, eu sei, mas é preciso que tentes comigo visualizar uma vez mais aquele Inverno em Lisboa, aquelas ruas escorregadias ao fim do dia e aqueles autocarros lotados, e eu a regressar da universidade com o cabelo demasiado comprido – com o sabor da acetona na boca. Preciso que me imagines em Benfica outra vez, sozinho num apartamento cheio de pó e fantasmas e ruídos, preciso que faças isso para que te explique a minha dor ao ouvir pela primeira vez &lt;em&gt;Kid A&lt;/em&gt; (EMI: 2000), compreendendo como uma pancada forte na cabeça que os Radiohead já não me pertenciam: tinham-se tornado complexos, tinham avançado, crescido, tinham ficado fartos daquela relação tranquila que mantínhamos os dois. O que eram aquelas vozes distorcidas, aquelas batidas electrónicas, aquela ausência de lirismo? Porquê tudo assim tão súbito? Porquê exactamente naquele momento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha coberto as paredes do meu quarto com fotografias de crianças a chorar, mulheres mastectomizadas, esqueléticos prisioneiros de Dachau. Programava a minha primitiva máquina fotográfica para me tirar fotos sem roupa. O mundo parecia tão confuso quando visto da minha janela: os carros a subir e a descer a Avenida da República Peruana, as gotas de chuva no vidro, o frio que eu sentia em todo o lado - a camada de poeira no chão do quarto na qual se distinguiam as minhas pegadas. Nesse quarto eu tinha pela primeira vez tocado os seios de uma rapariga. E o sexo era para mim um procedimento ritual, uma formalização de violência, dor, dominação – &lt;em&gt;prima nocte, patria potestas, spinta criminosa&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois às vezes o sol brilhava aos domingos e a minha mãe vinha ver-me e aquele que tinha sido o meu melhor amigo na infância mostrou-me os Belle &amp; Sebastian – converti-me imediatamente. Também ouvia muito Smashing Pumpkins na altura, Smashing Pumpkins que se tornaram grandes e depois incharam e ficaram balofos e pedantes e eventualmente explodiram como sapos. A rapariga por quem estava «apaixonado» na altura gostava de Smashing Pumpkins também, mas depois os Radiohead lançaram o &lt;em&gt;Kid A&lt;/em&gt; (EMI: 2000) e ela adorou e eu compreendi que tudo estava acabado entre nós. Eu arranjei tudo o que havia a arranjar de Belle &amp;amp; Sebastian e preparei-me para um longo Inverno: comecei a escrever poemas, a ir ao cinema sozinho, a passar grandes temporadas fechado em casa a estudar e a consumir pornografia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sempre aquele apartamento tão grande, tão vazio. Tudo tão asquerosamente rudimentar. Os tapetes picavam-me os pés, o cotão acumulava-se em bolas que eu tentava agarrar. Pêlos púbicos no chão da casa de banho, bagos de arroz espalhados na cozinha, infiltrações na marquise, um congelador que simplesmente pifou, eu desenvolvi na altura diversas paranóias que incluíam preocupações com o gás ou as luzes ligadas, com aquecedores deixados no seu livre curso de destruição e queima. Era o melhor aluno da turma, por todos admirado pela minha sensatez e bom humor. Amigo dos meus amigos, membro influente de movimentos associativos, eu sangrava pelo nariz, pela boca, pelos dedos, pelo cu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Kid A&lt;/em&gt; (EMI: 2000), um álbum genial e que consagrou os Radiohead como uma das bandas mais influentes do pop-rock no início do século XXI, significou para mim uma traição. Mas, note-se, a traição não foi dos Radiohead. Foi minha. Eu estava demasiado ocupado com a minha vida pequena e com a movimentação regular das peças no meu tabuleiro pequeno, e não acreditei, ou não tive tempo, ou simplesmente deixei as coisas passar. Sinto-me hoje como aquele amante infiel que compreende que o mais ínfimo momento de dúvida oblitera o amor mais profundo. Comprei o seguinte álbum de Radiohead, &lt;em&gt;Amnesiac&lt;/em&gt; (EMI: 2001), mas ofereci-o algumas semanas depois ao meu irmão, porque compreendi que já não havia entre mim e os Radiohead uma relação de possessão. Eles tinham feito parte de uma etapa da minha vida, mas ambos tínhamos avançado e tomado caminhos diferentes. Ainda hoje oiço Radiohead, mas é com um pouco de mágoa porque eles já não são meus, já não são eu. Aprendi contudo que é preciso deixar as coisas passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em compensação, tenho os Belle &amp;amp; Sebastian. Esses sim, são meus e eu deles. Tenho também aquelas músicas todas que ouvi quando era mais novo e que fizeram o seu ninho nos recônditos da minha memória: “Lady in Red” de Chris de Burgh, “Nikita” de Elton John, “Don’t Dream It’s Over” dos Crowded House – coisas assim, sem demasiada importância. Gosto especialmente dos grupos dos anos 80 que tiveram um sucesso meteórico e dos quais nunca mais ninguém ouviu falar, cantores como John Waite, Al Stewart, Glenn Medeiros, pessoas que como eu subiram e desceram, deixando apenas farrapos, pechisbeques, memórias embaraçosas – pequenas pistas de tudo e de nada, nas quais alguém um dia poderá ou não reparar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111079854471733988?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111079854471733988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111079854471733988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/03/cinco-de-trinta-e-trs.html' title='Cinco de trinta e três'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-111031395641573649</id><published>2005-03-08T21:31:00.000+01:00</published><updated>2005-03-08T21:32:36.420+01:00</updated><title type='text'>Quatro de trinta e três</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;“Ontem pareceu-me ver numa fotografia aquela que seria a tua cara se por ti tivessem passado cinco anos, como passaram – volta para casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Eu estava cheio de sacos e coisas por fazer e tinham passado cinco anos e um dia e eu tinha tido tantas, tantas saudades – volta para casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Os miúdos que tu não conheceste, os miúdos que entretanto cresceram, saltam dos seus cantos quando eu chego a casa e tudo está no seu lugar, menos tu. E os amigos telefonam-me com planos para sair e eu saio e beijo tanta gente. Cozinho para todos eles como quem navega com a costa à vista. A tua cara nas fotografias de há cinco anos. Volta para casa.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Ontem procurei empregos como se me quisesse despedir, como se quisesse começar uma vida nova. Ontem vi anúncios no jornal como se quisesse ganhar dinheiro, como se o meu dinheiro não fosse suficiente, como se as heranças das pessoas que morreram não bastassem para mim e para os miúdos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Olho para as minhas mãos. Às vezes paro de escrever e olho para as minhas mãos, estas mãos que acariciaram e bateram. Tu nunca dizias nada das minhas mãos, mas eu tocava-te, dava-te prazer, e depois dava-te dor. E depois eu molhava as mãos, e elas ainda assim envelheciam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Os miúdos pintam coisas com muitas cores, fazem desenhos do que serias se fosses grafite, cera, feltro, pastel. Os miúdos desenham as tuas saias, as saias que não levaste contigo, as saias que eles não esqueceram. E eu debruço-me e vejo nos desenhos dos miúdos as minhas mãos, com cinco dedos bem contados – as minhas mãos estendendo-se na direcção de uma casa que é mais pequena, uma casa com chaminé, entre os montes, debaixo de um sol com olhos. As minhas mãos nos desenhos dos miúdos como se por mim tivessem passado muitos anos – e tu estás vestida com saias, perto do sol.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Ontem pareceu-me ver numa fotografia a tua cara se por ti tivessem passado cinco anos, se não tivesses morrido. Volta para casa.”&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-111031395641573649?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111031395641573649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/111031395641573649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/03/quatro-de-trinta-e-trs.html' title='Quatro de trinta e três'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-110995738620776413</id><published>2005-03-04T18:28:00.000+01:00</published><updated>2005-03-04T18:30:28.403+01:00</updated><title type='text'>Três de trinta e três</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;"Vi o João, no domingo passado. Eu tinha ido a Sintra com o Diogo e foi em frente ao Palácio da Vila que eu vi o João, e trocámos um breve olhar de reconhecimento antes que ele desviasse a cara. Eu fiquei subitamente séria e também o João ficou; não nos falámos. Ele ia com uma rapariga; antes de me ter visto, eu já tinha reparado naquele casal e eles pareciam felizes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que o João esteja feliz. Lembro-me de algumas frases que lhe disse: “Quando nós fizermos amor vai ser como quando tu cantas e tocas guitarra para mim”; “Por minha culpa dois bebés morreram”; “Eu preciso que vocês se dêem bem”; “Um dia vais olhar para ela e dizer-lhe que amas cada milímetro do seu corpo”. Lembro-me também de dizer ao Diogo, uma noite, chorando na cama depois de mais uma discussão: “Eu gostava tanto do João, e agora começo a odiá-lo”. Lembro-me do João a arder em febre na cama, no dia em que abandonámos a casa – todas aquelas coisas que ele andava a tomar na altura. Nunca chegámos a dizer adeus. E lembro-me de como me apaixonei pelo Diogo numa daquelas manhãs de sol em Alcântara – ele a treinar remo com a equipa e eu sentada em frente a uma grande janela sobre o rio, a falar ao telefone. Eu estava sempre a falar ao telefone, mas não tinha telefone próprio. O João fazia os meus telefonemas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me também da Rute, a cabra de Campo de Ourique, e da sua chapeleira e das suas mamas e da forma como tentei juntá-la ao João. Nada correu como eu planeara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos tão extraordinariamente lúcidos nessa altura, eu e o Diogo. Estávamos apaixonados, desesperados. Queríamos ter sucesso, queríamos estar juntos. Não tínhamos pais, não tínhamos muito dinheiro. O Diogo ainda nem estava na universidade. Pensávamos que íamos ter um filho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o João era uma pessoa tão boa – ou pelo menos assim me pareceu. Estava sozinho em Lisboa e tinha aquele ar perdido dos poetas, dos melancólicos, dos homossexuais. Precisava tanto de carinho, de uma namorada. Tentei ser amiga dele. Passeávamos nos jardins da Gulbenkian e ele falava-me de “sexo pago em sacos-cama”. Compreendi logo que ele era diferente dos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive tantas saudades do João. Agora sei que, pelo menos, ele não está sozinho. Pergunto-me se ainda escreve, pergunto-me o que foi dele. Pergunto-me se ainda pensa em mim, como eu penso nele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos dias antes de deixarmos de viver juntos, planeei muitas vezes uma carta de despedida em que lhe contaria todas as coisas, para que ao ler essa carta ele me fosse tentando compreender – dado que era improvável que voltássemos a ver-nos. Pensei até em ir falar-lhe - sentar-me junto à cabeceira da cama onde ele suava e delirava, talvez afagar-lhe a testa, a mão adormecida. Tantas coisas ficaram por explicar. Talvez as coisas tivessem resultado com um pouco mais de tempo e calma. Perdemo-nos um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto sou eu, quase quatro anos depois. Porque na altura eu sei que estava entusiasmada. Um pouco magoada com o desenlace, e com a imagem do João na cama, incapaz de fazer fosse o que fosse – todas aquelas coisas más que ele consumia na altura. Mas foi com alívio que me vi fora de Benfica, e nem vacilei ao abrir a porta daquele sótão na Praça da Alegria onde eu e o Diogo viveríamos nos anos seguintes.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Sim: tropecei umas quantas vezes e deixei cair algumas coisas durante a mudança. Mas estava feliz, eu sei que estava feliz: íamos começar uma vida nova numa casa velha."&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-110995738620776413?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110995738620776413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110995738620776413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/03/trs-de-trinta-e-trs.html' title='Três de trinta e três'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-110968675355653299</id><published>2005-03-01T15:13:00.000+01:00</published><updated>2005-03-01T18:39:16.260+01:00</updated><title type='text'>Dois de trinta e três</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;"Olha e vê a porta que se entreabre lentamente – e saberás o que tenho andado a fazer. Olha, e ainda que não vejas nada de imediato, espera e deixa a porta entreabrir-se o suficiente para a luz entrar. Tem paciência. É que o que eu tenho andado a fazer não sou eu, não é meu. Vê, no entanto, como um sorriso se forma arduamente na minha cara: o sorriso cresce por entre a presença dos anos que por mim já passaram. Olha outra vez – agora: vê a forma pequena que se arrasta na nossa direcção. Como ela está compenetrada na tarefa de rastejar até nós! Como toda a sua vida se resume a atravessar a ombreira da porta, os olhos focados no chão em frente, e como não há mais nada no seu jovem pensamento do que a procura do sítio onde os seus membros se poderão apoiar para avançar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apresento-te a Inês. Não te deixes enganar pela sua tez miscigenada e pelos seus curtos cabelos encarapinhados: ela é minha filha, ainda que tanto eu como a sua mãe sejamos loiros. Não sei como aconteceu: um dia ela estava grávida, e noutro dia a Inês estava viva. A mãe da Inês diz que eu sou o pai da Inês, e quem sou eu para discordar? Tenho a certeza que vais compreender que não é preciso compreender de todo. Coisas destas não têm explicação. São um pouco como o amor que eu nunca senti por nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes dias eu acordo cedo e o dia é todo meu e da Inês. Procuro empregos enquanto preparo papas. Provo papas, dou papas, não há empregos, lavo as tigelas das papas, pego ao colo da Inês – faço as coisas que os pais fazem. Nada disto é meu, nem esta casa, mas tenho-me lentamente instalado no meio de estranhos e até já a Inês me reconhece. Ela diz-me (pede-me?) “papa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto quando a sua mãozita se agarra a um dos meus dedos que entretanto se tornaram anafados. Gosto quando ela bamboleia as suas pernas fracas quando a seguro, e quando ela ri ao ouvir música. Limpo a baba que escorre da sua boca, dou-lhe um beijo antes de dormir, encomendo-a ao Anjo da Guarda porque ela ainda não sabe e eu tenho medo da morte súbita dos bebés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Inês nasceu já há algum tempo. Depois disso, casei-me e divorciei-me. Depois juntei-me. Depois separei-me. Depois apaixonei-me, e depois descobri que me tinha enganado. Neste momento não sei bem qual é o meu estatuto. Estou desempregado e sou dono de casa, embora a casa não seja minha. A mãe da Inês namora com homens e às vezes ela não vem dormir a casa. Eu nunca lhe toco. A mãe da Inês é uma mãe maravilhosa, e não estou a ser irónico. A Inês adora a mãe, e a mãe está sempre presente, exceptuando o tempo para trabalhar e namorar. Eu também estou sempre presente para a Inês, exceptuando o tempo para tomar duche, fazer necessidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho suores frios: engordei. Também tenho suores quentes, em especial quando aspiro a casa ou mudo os lençóis ou lavo o chão da casa de banho. Nunca mais escrevi e nunca mais li. Fico mais careca a cada dia que passa. Às vezes fico muito ansioso, mas depois a Inês começa a fazer barulho e isso acalma-me. Tenho medo que ela um dia cresça e comece a odiar-me. Sei que isso irá acontecer inevitavelmente, mas gostava de arranjar uma vida própria (e uma casa própria), de forma a poder estar triste em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrevia-te aquelas cartas enquanto a mãe da Inês via filmes do David Lynch com a Inês adormecida ao colo. Ontem a mãe da Inês cozinhou um gratinado de espargos maravilhoso e eu pedi-lhe a receita, que arquivei imediatamente no meu livro de receitas que já vai com duzentas e cinco. Depois, juntei-me a elas na penumbra da sala, embora não goste de David Lynch. A mãe da Inês diz que eu sou o pai da Inês e a Inês precisa de um pai à altura das circunstâncias. Entretanto, cortaram-me o subsídio de desemprego e fui relegado para a categoria de ”indiferente para a sociedade”. Engordo e rio, e engasgo-me quando como e rio ao mesmo tempo. Às vezes oiço Mahler, e é então que me sinto arrependido. Mas mesmo isso não é suficiente, nem de perto nem de longe, para eu deixar de fazer o que tem de ser feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto saudades tuas, amigo. Tenho sentido a falta das nossas conversas e da nossa juventude. Soube que ganhaste um lugar importante na estrutura governamental. Mas sossega! Não venho pedir-te favores nem empregos. Apenas cinco minutos do teu tempo para continuares a ler as minhas cartas que, prometo, vão recomeçar agora com mais frequência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto, portanto, que tenho andado a fazer. Desculpa o meu silêncio dos últimos tempos, mas a Inês tem andado especialmente rabugenta. Posso agora, enfim, voltar à rotina desta vida que, repito, não é a minha. Eu não me sinto eu – e pergunto-te: não é irónico? Não é isso mesmo que mereço?"&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-110968675355653299?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110968675355653299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110968675355653299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/03/dois-de-trinta-e-trs.html' title='Dois de trinta e três'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-110942139196048654</id><published>2005-02-26T13:34:00.000+01:00</published><updated>2005-02-26T13:39:05.840+01:00</updated><title type='text'>Um de trinta e três</title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;"Não, meu amigo, não é dela, é mesmo dos comboios das cercanias de Madrid, e da forma como eles se aproximavam das cidades sem que déssemos por isso. Adormecia embalado tantas vezes nesses comboios, e tinha calor, e tinha frio, e sentia medo, e estava sempre a chegar e a ir-me embora – e acordava em Atocha, onde um dia homens fizeram explodir bombas em mochilas, matando todos os meus amigos. Guadalajara, Alcalá, Azuqueca de Henares – eram as terras de La Mancha, as terras da pedra negra, e eu entrava nas casas de quem me abria a porta e comia bolos cobertos de pasta de açúcar, via aqueles quadros tristes com as crianças de olhos grandes, os cães de olhos grandes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Por isso sei que vais compreender que é daqueles comboios que sinto falta, e não dela. É claro que sinto por vezes a falta da sua cabeça abandonada no meu ombro, ou mesmo da sua mão a procurar a minha enquanto o comboio passava por aquelas aldeias castelhanas com torres, cada uma delas perdida na imensidão da meseta lembrando uma cruz exposta ao sol dormente – o que Miguel Torga descreveu como “um cadáver alumiado por uma tocha”. Mas dou por mim a desejar poder viajar outra vez nesses comboios sem a conhecer – olhando à distância enquanto ela carrega as suas coisas pesadas sem a ajuda de ninguém. Assim, Chamartín seria só meu, e se não conhecesse ninguém não teria medo de reencontros. Quero ter os sítios sem dor, conhecê-los apenas pelo que são, pelas pessoas anónimas que os povoam, e não pelas lembranças que os contaminam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;E é por viver agora numa cidade sem cheiro (sem tristeza, sem alegria) que me lembro com especial carinho da Gran Via e dos donuts pela manhã na Gran Via, e das prostitutas da Gran Via a irem para casa e dos funcionários municipais a lavarem com grandes mangueiras o esperma seco que cobria a Gran Via. Em Madrid só conheci as fachadas, os cafés que mais ninguém escolheu, as “bocatas calamares” que alguém já mastigou – e por isso Madrid para mim são os comboios, as estações, os comboios armadilhados e eu dentro deles com aquele que foi um dia o meu amor, e as estações a explodirem todas e as minhas costas cravejadas de vidros.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Nunca no centro, amigo, nunca no centro: em escolas dos subúrbios, nas casas de banho dos pavilhões desportivos, nas faldas das faldas mas nunca no centro. Cibeles, Castellana, Moncloa, Sol – tudo o que guardo desses sítios é as placas que indicavam para eles, são as pessoas que adoeceram e se espalharam pela península, as pessoas que me pediram tempo, espaço, paz.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;Aventurar-me-ei um dia para fora das estações, mas não agora. Chegarei ao pôr do sol a uma dessas aldeias junto à linha de comboio e procurarei um sítio para dormir. Quando acordar, sairei do caminho e irei à desfilada pelos montes. Eu sei que há milhões de planos a serem feitos, milhões de ideias a germinar em mentes que querem atenção, milhões de crianças a crescer e a pedir amor. Eu sei isso melhor do que ninguém. E também sei que tudo isso vai continuar depois de eu morrer.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;E depois um dia o sol vai engolir a terra e eu estive a falar-te dos comboios das cercanias de Madrid. Tanto que eu perdi, amigo – tanto que vamos perder. E o pior de tudo é perder em casa, e continuar em casa."&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-110942139196048654?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110942139196048654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110942139196048654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/02/um-de-trinta-e-trs.html' title='Um de trinta e três'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-110659658159061919</id><published>2005-01-24T20:54:00.000+01:00</published><updated>2005-01-24T21:02:01.976+01:00</updated><title type='text'>Renascimento</title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc33;"&gt;"A minha vida, pelo contrário, é uma página incoerente e suja onde há muito tempo rabisquei coisas sem sentido, à espera que um dia lhes pegue."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-110659658159061919?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110659658159061919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/110659658159061919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2005/01/renascimento.html' title='Renascimento'/><author><name>Constantino Xavier</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109491664521008446</id><published>2004-09-11T16:29:00.000+01:00</published><updated>2004-09-11T16:30:45.210+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;my-love-life morreu. obrigado.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109491664521008446?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109491664521008446'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109491664521008446'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/09/my-love-life-morreu.html' title=''/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109205470357613261</id><published>2004-08-09T13:30:00.000+01:00</published><updated>2004-08-09T13:31:43.576+01:00</updated><title type='text'>Algarve/ “Le Fly Pan Am” / “Deliverance”</title><content type='html'>&lt;span style="color:#00cccc;"&gt;Este blog está sozinho agarrado aos joelhos a chorar baixinho a um canto. Este blog está a masturbar-se frente a um espelho. Este blog talvez tire férias durante algumas semanas. Este blog talvez seja devorado por um dragão de Komodo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109205470357613261?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109205470357613261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109205470357613261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/algarve-le-fly-pan-am-deliverance.html' title='Algarve/ “Le Fly Pan Am” / “Deliverance”'/><author><name>Miguel</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109199652903803858</id><published>2004-08-08T21:18:00.000+01:00</published><updated>2004-08-08T21:22:09.040+01:00</updated><title type='text'>(VII)</title><content type='html'>A minha participação no My Love Life acaba aqui. Obrigado pela atenção e pela companhia.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109199652903803858?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109199652903803858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109199652903803858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/vii.html' title='(VII)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109191582405014266</id><published>2004-08-07T22:48:00.000+01:00</published><updated>2004-08-07T23:14:07.966+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (VI)</title><content type='html'>Quando me vou deitar as crianças começam a chegar. São muitas, e eu não sei de onde elas vêm. Eu fico sentado na cama, agora verdadeiramente apanhado de surpresa, e as crianças vão-se juntando à minha volta. Estão sempre a olhar para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cabelos delas são cinzentos, velhos. Os seus olhos não estão exactamente aqui. São os olhos de quem não está vivo. As crianças estão vestidas com as roupas com que foram enterradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas perguntam-me como é ser adulto, como é crescer. Eu respondo-lhes e elas ouvem-me com atenção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Isto aqui também não é fácil’, dizem elas em uníssono. Elas falam-me, sempre a uma só voz, das coisas que não podem fazer, de como a sua vida se tornou um ciclo, um eterno retorno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E às vezes eu falo e depois elas falam, mas a maior parte do tempo estamos em silêncio e elas continuam de pé, à volta da minha cama, pálidas e olhando-me sem pestanejar. As horas passam e finalmente eu decido-me a tentar adormecer. Elas não mostram vontade de se ir embora, mas também não me impedem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fecho os olhos eu oiço-as pela última vez, e todo eu me contorço num imenso arrepio:&lt;br /&gt;‘Podes dormir, mas nunca mais irás sonhar’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(inspirado em 'Suffer Little Children', The Smiths)&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109191582405014266?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109191582405014266'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109191582405014266'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-vi.html' title='Sete maneiras de ir dormir (VI)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109175311444628865</id><published>2004-08-06T01:43:00.000+01:00</published><updated>2004-08-06T01:46:55.906+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (V)</title><content type='html'>Quando me vou deitar a mosca está sentada na minha cadeira, pernas peludas cruzadas, as asas pegajosas em descanso. Ela está a olhar-me, e pequenas patinhas junto à sua cabeça esfregam ocasionalmente o sítio onde está a sua boca. Ela está a excretar algo verde, ácido, nauseabundo, que pinga no chão do meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu dirijo-me para a cama, tentando aparentar normalidade. Programo o despertador e arrumo com cuidado as pantufas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Espero que estejas consciente de como é escuro o sítio para onde vais’, diz ela, e eu estou a dizer que sim com a cabeça, estou a deitar-me, e depois ela levanta-se e aproxima-se de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Estarei à tua espera quando acordares’, diz ela, e ajeita os meus cobertores, e dá-me um beijo com a sua boca horrível, e pingos verdes caem na minha almofada, na minha cara.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109175311444628865?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109175311444628865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109175311444628865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-v.html' title='Sete maneiras de ir dormir (V)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109165681524696084</id><published>2004-08-04T22:43:00.000+01:00</published><updated>2004-08-04T23:00:15.246+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (IV)</title><content type='html'>Quando vou dormir abro os olhos e tudo à minha volta é a grande noite da América. Eu devia ser James Taylor, ou John Denver, ou Jack Kerouac, ou Henry David Thoreau - em vez de ser isto. Estas estradas deviam, um dia, poder levar-me até uma casa na pradaria. Eu devia arder em febre debaixo desta cúpula de estrelas. Eu devia ter nascido em todos estes sítios, devia poder deitar-me e dormir em todos os metros quadrados desta terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estacionámos a carrinha em pleno deserto e dormimos na caixa aberta, enrolados em mantas. Em redor da carrinha vamos ardendo arbustos para afugentar as cascavéis. Eu sei que Dean está nu por debaixo da sua manta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa altura acendo a lanterna e começo mais uma vez a ler a carta: &lt;em&gt;'Na primeira vez que falámos&lt;/em&gt; &lt;em&gt;surpreendeu-me a tua inacreditável fragilidade. Era como se estivesses prestes a desfazer-te, e os teus olhos eram os olhos das raposas assustadas à noite na estrada. Tinhas um quarto em Paris, estudavas pragmática, latim e outras coisas que eu não entendia. Em ti eu só via solidão, supermercados baratos, noites a chorar. Surpreendeu-me também que apesar de tudo continuasses a...'&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Dean é um animal. Vamos all the way até ao México. Talvez fiquemos por lá por uns tempos, quem sabe. Eu gostava de ir viver no bayou durante umas semanas, oferecer o corpo aos mosquitos, molhar os pés nos grandes rios, ter medo dos crocodilos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou comer serpentes ao luar. Ou cheirar as flores todas, ser cilindrado pelo sol. Deus, vou ter saudades disto. Mas preciso tanto de continuar o meu caminho.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109165681524696084?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109165681524696084'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109165681524696084'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-iv.html' title='Sete maneiras de ir dormir (IV)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109157272713516761</id><published>2004-08-03T23:25:00.000+01:00</published><updated>2004-08-03T23:38:47.136+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (III)</title><content type='html'>Quando me vou deitar ela sai de uma sombra, e depois sorri.&lt;br /&gt;'Vieste'.&lt;br /&gt;'Pois vim'.&lt;br /&gt;'Não me lembro de te ter convidado', digo eu, sorrindo.&lt;br /&gt;'Também não me disseste que não viesse', responde ela, e passa a mão nos meus cabelos curtos, escassos, e olha-me profundamente, e eu abandono-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos a noite deitados, entre os lençóis, a conversar. As nossas pernas nuas tocam-se. Não fazemos amor porque o amor já está feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há algo que nos une. Eu soube-o logo na primeira vez. Eu renegaria tudo o que disse, tudo o que escrevi. Eu queimaria tudo, deixaria tudo para trás. Por apenas ela aqui perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este é diferente porque é nosso. Este é diferente porque é meu, porque sou eu, porque me calhou a mim. Porque afinal estou vivo. Quando ela caminha pelo quarto, por entre os poemas que eu deixei espalhados, eu vejo que ela desenha um padrão, eu vejo que ela sabe onde quer ir. E eu não tenho medo, eu não tenho palavras, eu só quero que isto resulte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boas ideias, grandes ideias, finais felizes. Adormeço e ela diz que me ama. Diz-me assim: 'Amo-te', e sorri, e dá-me um beijo pequeno. E quando acordo a nota na minha cama vazia diz 'Obrigado pela melhor noite da minha vida', e eu sei a minha sorte demasiado bem por isso adivinho o que vem a seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém, ao contrário da flor da minha vida, não deixarei que este texto se corrompa.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109157272713516761?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109157272713516761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109157272713516761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-iii.html' title='Sete maneiras de ir dormir (III)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109148354355279055</id><published>2004-08-02T22:51:00.000+01:00</published><updated>2004-08-02T22:59:35.580+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (II)</title><content type='html'>Quando entro no quarto para me ir deitar todo o mundo que está lá dentro salta e grita, e imediatamente o 'The Sidewinder Sleeps Tonite' dos REM começa a tocar na banda-sonora. A festa começa comigo, acabará quando eu quiser. A festa é minha, embora eu esteja surpreendido enquanto ando à volta pelo quarto a cumprimentar todas as pessoas (incluindo pessoas que não via há anos, pessoas que entretanto morreram, pessoas que entretanto mudaram de sexo). Confettis começam a cair em cima das nossas cabeças e o 'Automatic for the People' parece estar a tocar vezes e vezes sem conta (e eu sem me importar), e para esta cena o realizador opta por um plano-sequência, aos zigue-zagues, demorando-se alguns segundos junto de cada grupo de duas ou três pessoas que falam, apanhando pequenos segmentos de conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como vieram parar aqui, eu não sei. Mas são todos tão amigáveis que eu não faço muitas perguntas sobre os detalhes da festa, e tento entrar no espírito enquanto seguro uma garrafa de cerveja junto às faces, não para me refrescar (porque o quarto está tão frio que o gelo forma placas nas paredes e no chão) mas para sentir que estou aqui, que ainda estou acordado. E o 'The Sidewinder Sleeps Tonite' dos REM começa a tocar outra vez e é apenas mais uma noite e depois, numa conversa em que não sei porquê me encontro, Proust é introduzido, insultado, louvado (não necessariamente por esta ordem), e depois alguém diz que desaprova relações inter-raciais, alguém engole uma azeitona, alguém cospe uma azeitona para o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as raparigas beijam-me na boca quando me vêem, e eu conheço-as há tanto tempo e elas têm o hálito da morte, os dentes que me mordem os lábios são os dentes de alguém que ri, de alguém que devora cadáveres. E eu estou contente por se terem lembrado de mim de modo que bebo um pouco mais, conversas e música e confettis por todo o lado, e as pessoas atendem os telemóveis e ficam muito tempo a falar e depois choram ao telefone e nunca mais são as mesmas. O mundo fora deste quarto continua a ser algo que me ameaça e cujos pormenores eu prefiro desconhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que às vezes a música pára e fazemos minutos de silêncio e depois as pessoas vão-se chegando a mim para me contar os seus segredos, e quanto mais as conversas se aprofundam mais eu vejo que vedações são instaladas, numa rede de complexidade que só confunde, só serve para distrair. E quando as pessoas se confessam elas às vezes olham por cima do meu ombro para o realizador, em busca de encorajamento, e ele apenas diz 'keep rolling' (palavras que posteriormente serão apagadas na edição) e todos estamos a ir longe de mais, ou talvez não longe o suficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De qualquer modo, o meu dia acaba hoje. Hoje começa a minha longa noite, portanto não terei oportunidade de tirar consequências sobre tudo o que está a ser aqui dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois começa o 'Find the River' dos REM e eu estou à janela a conversar com alguém que costumava significar tanto para mim, e a lua lá fora é atravessada por corvos, morcegos, vacas, e vai ser mesmo uma longa noite e até já fiz as minhas malas, mas eu digo a essa pessoa que costumava significar tanto para mim que julgo que estou preparado para esta longa noite. Alguém arrasta pelo quarto o corpo moribundo de um anão vestido de pirata, o corpo é atirado para um canto, algumas pessoas vão buscar garfos, a tortura é levada a cabo, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois começa o 'Find the River' dos REM outra vez e as pessoas vão saindo e eu estou a pensar nessa longa escura noite e adoro os meus amigos e tudo isso, adoro mesmo, e depois quando todos saíram eu vou apenas lavar os dentes, considerar-me ao espelho durante alguns minutos, decidir que não me odeio menos do que me odiava ontem. Tenho a impressão que há demasiadas pessoas com uma chave para a minha vida, e julgo que as devia poupar ao que os Joy Division e J.G. Ballard chamariam 'a exibição de atrocidades'.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109148354355279055?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109148354355279055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109148354355279055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-ii.html' title='Sete maneiras de ir dormir (II)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109139763278585849</id><published>2004-08-01T22:34:00.000+01:00</published><updated>2004-08-01T23:47:25.453+01:00</updated><title type='text'>Sete maneiras de ir dormir (I)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;Quando me vou deitar ela já está no chão do meu quarto, impossibilitada de ficar em pé, e horríveis sons saem de dentro do seu corpo. Tudo no organismo dela se está a romper: eu não vejo nenhuma ferida mas ela está a esvair-se com grande rapidez, sangue saindo em quantidades incríveis de todos os seus orifícios. O chão do meu quarto é o mapa de sangue dos sítios por onde ela se arrastou.&lt;br /&gt;Eu ajoelho-me no chão e abraço-a e começo a chorar baixinho. Ela diz por favor faz com que isto pare por favor faz com que isto pare, e eu seguro-a com força e choro e digo-lhe desculpa, desculpa querida, e pedaços de carne começam a deslizar de dentro da vagina dela e a dor vem em ondas. E eu sei quando as ondas chegam, porque oiço os ruídos que os seus órgãos em auto-destruição produzem.&lt;br /&gt;Pouco depois ela está incapaz de produzir palavras e eu continuo a segurá-la, ajoelhado no chão do quarto, no meio de um imenso caudal de sangue. Estou a fazer-lhe festas no cabelo e as minhas mãos estão manchadas e ela está a olhar-me e a tentar sorrir: os seus dentes violeta, a sua boca um buraco gorgolejante por onde ela tenta respirar.&lt;br /&gt;Quando a última onda a atinge o mundo já se retirou de mim e continuo a abraçá-la. A sua mão, que batia espasmodicamente no chão, pára subitamente. E os helicópteros chegam e iluminam-nos com holofotes fortíssimos, e o vento faz com que os confettis se agitem em turbilhão à nossa volta, alguém diz ‘Corta!’, eu desisto de tudo, as Forças Especiais irrompem pelo quarto a gritar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(inspirado em ‘&lt;em&gt;Glamorama&lt;/em&gt;’, de Bret Easton Ellis)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109139763278585849?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109139763278585849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109139763278585849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/sete-maneiras-de-ir-dormir-i.html' title='Sete maneiras de ir dormir (I)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109131431767206941</id><published>2004-08-01T12:01:00.000+01:00</published><updated>2004-07-31T23:51:57.673+01:00</updated><title type='text'>Madrugada 4/3</title><content type='html'>Quando acordo ela está pendurada pelo pescoço numa das traves do tecto do meu quarto, e a sua língua azul está descaída, morta, e há leves rastos de sangue seco a partir dos seus olhos vazios. Eu sento-me na cama e vejo a sua camisa de dormir rasgada, o peito e o pescoço furiosamente arranhados numa tentativa de apressar a morte.&lt;br /&gt;Uma cadeira está caída ao lado de uma mancha escura no chão, o sítio onde o sangue dos seus pulsos abertos coagula, congela, e eu estou a pensar que não é possível ela ter-se enforcado com os pulsos naquele estado – cortados de uma forma tão profunda, tão metódica, tão bárbara.&lt;br /&gt;Terei sido eu? A noite passada é apenas uma mancha na minha memória. Levanto-me e reparo que os pés dela estão a escassos centímetros do chão. Os dedos azulados apontam para baixo, como se estivessem a tentar apoiar-se em algum lado. Talvez ela não quisesse morrer.&lt;br /&gt;Quando lhe toco, um enorme vibrador sai com um som obsceno de entre as suas pernas e cai no chão, rolando até tocar nos meus pés.&lt;br /&gt;Precipito-me para a janela e abro as cortinas e a luz inunda o quarto, e quando me volto para trás, com uma ligeira esperança, ela ainda lá está.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109131431767206941?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109131431767206941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109131431767206941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/08/madrugada-43.html' title='Madrugada 4/3'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109131146242099350</id><published>2004-07-31T22:26:00.000+01:00</published><updated>2004-07-31T23:04:22.420+01:00</updated><title type='text'>My Last Dream</title><content type='html'>Sonho que estou a ser devorado, nu, inteiro, vivo, por um dragão do Komodo. Eu devo ter mergulhado de cabeça na boca dele porque os seus dentes estão em redor da minha cintura, a boca esticando-se de uma forma impossível, e porque tudo é tão apertado dentro do seu tubo digestivo eu não posso ver nada. Sinto apenas o fedor asfixiante, os sons obscenos que as contracções dos seus órgãos produzem, as mucosas de encontro ao meu corpo - colando-se a mim, chupando, apertando e sufocando-me num abraço pastoso. Elas segregam líquidos ácidos que me vão queimando a pele; depois, as bactérias começam o seu trabalho, e entram pela minha circulação sanguínea. Eu estou a ser lentamente digerido e não estou a aceitar, mas também não estou a resistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dragão do Komodo está a sentir dificuldades em engolir-me. As minhas pernas continuam de fora e os seus olhos estão vazios, ausentes. O dragão do Komodo não pensa em nada, apenas contrai os músculos do pescoço, empurrando-me milímetro a milímetro para dentro dos seus canais. As suas garras agarram o chão poeirento, a sua cauda dá sacões ocasionais. Os ácidos queimaram os meus cabelos, sobrancelhas, pestanas, atacam agora o meu escalpe, tornam lentamente a minha cara numa máscara líquida, monstruosa, irreconhecível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sei que as minhas células estão a ser processadas e estão a entrar na corrente sanguínea do dragão do Komodo. Ele está a alimentar-se de mim. Minuto a minuto, ele está a incorporar-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Horas depois ainda lá estamos, no mesmo lugar. Os meus joelhos estão apenas agora a sentir a textura dos dentes de tubarão do dragão do Komodo. Eu estou a pensar nas seguintes coisas, sem nenhuma ordem em particular: a minha tese; a rapariga que trabalha na caixa do supermercado onde costumo fazer compras; a versão que a Ani Di Franco fez do 'Used Cars' do Bruce Springsteen; uma salada que um dia fiz para os meus amigos; o amor que senti, o amor que não partilhei; uma salada que tinha na cabeça mas que nunca cheguei a fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha dor é lenta, difusa, leve. A partir da sexta hora no tubo digestivo do dragão do Komodo eu já deixei de chorar, estou a apoiar o que resta da minha cabeça nas suas paredes pegajosas  - como se descansasse. Os meus ombros estão praticamente dissolvidos e perdi a sensibilidade dos braços. Sinto que a minha coluna está partida em demasiados sítios. Ninguém poderia, neste momento, distinguir os meus olhos, boca e muito menos nariz da confusa massa esbranquiçada em que a minha cara se tornou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, não me perguntem como, eu oiço a voz do dragão do Komodo. Eu sei que a noite caiu e que o dragão se abateu sobre a barriga, as patas incapazes de suster o seu peso. Eu sei que o dragão está a olhar o mar da ilha de Rinca, e sei que o céu está louco de estrelas, e que milhares de criaturas dormem em buracos no chão. Sei que o dragão do Komodo está a olhar para um satélite que se move no espaço, e sei que dentro desse satélite alguém come bananas em pó. Eu sei isto tudo, e eu aceito isto tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'Julgo que atingi o ponto de não-retorno', diz-me o dragão do Komodo. 'Serás a minha última presa - a minha última conquista'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vocês poderiam imaginar-me a sorrir dentro da barriga do dragão, com o buraco disforme onde antes era a minha boca.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109131146242099350?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109131146242099350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109131146242099350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/my-last-dream.html' title='My Last Dream'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109122851207514906</id><published>2004-07-31T12:01:00.000+01:00</published><updated>2004-07-31T11:30:31.453+01:00</updated><title type='text'>Termidor</title><content type='html'>Chupo o dedo dela às cinco da manhã no comboio para Madrid. Chupo o dedo dela e não a conheço às cinco da manhã e os meus olhos são os olhos de um vampiro. Antes tínhamos estado a comparar notas em diários, fotos, a trocar guloseimas. Chupo o dedo dela e quando o marroquino no banco em frente olha para nós eu faço os meus olhos de vampiro brilhar, ameaço-o com os meus pensamentos, a ameaça resulta, ele volta a fechar os olhos. Chupo o dedo dela como se o dedo dela fosse um pénis e nalgumas fotos ela está num castelo iluminado à noite, vestida como uma fantasma. Cinco da manhã, o comboio causa vertigens, eu não a conheço, ela é maluca, ela não me aceita mas também não me recusa.&lt;br /&gt;Nunca a beijo, apenas chupo e mordo o dedo dela e penso, uma vez mais, no que se vai passar nos próximos dias.&lt;br /&gt;Próximos dias: perdido em Malasaña no meio dos punks, perdido na Plaza Tribunal a embebedar-me com licor de pêssego, na madrugada andar pela Gran Via e as prostitutas que vão para casa e eu a comer donuts na Gran Via. Em Sigüenza, dormir enregelado na casa de banho de um pavilhão desportivo, ver as pessoas todas a ficarem doentes à minha volta. De regresso a Madrid, comer sandes de calamares na Plaza del Sol, mendigar pastilhas, olhar para as raparigas, hiper-ventilar, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conta-se que, quando ainda vivia em Munique, Hitler costumava acordar todos os dias às cinco da manhã. Costumava atirar pequenos pedaços de pão e côdeas ressequidas aos ratos que habitavam o seu quarto, e era a ver os ratos a lutar até a morte pelos pequenos pedaços e pão e côdeas ressequidas que Hitler se divertia às cinco da manhã em Munique. Ele devia estar a pensar na luta de espécies, em Darwinismo social, nessas coisas todas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estou às cinco da manhã no quarto do jovem Hitler e vejo-o sentado na cama, olhos a brilhar, aqueles cabelos negros desalinhados, e eu estou em pé num canto do seu quarto, tripas de rato espalhadas pelo chão. Eu sou o visitante de Hitler. Eu estou a pensar em todas as coisas que vão acontecer, todas estas coisas que eu sei. Estou a pensar também em todas estas coisas que eu não suspeito, coisas que não precisam de mim para ocorrer. Eu estou a caminhar pelo quarto miserável de Hitler e ele não me vê porque continua a atirar pão aos ratos, dizendo das ist fantastich e rindo-se batendo palmas. Hitler em Munique coça os tomates frequentemente, não se lava muito. Chego à janela e afasto as cortinas e é isto que vejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo uma praia na costa do Mar da Irlanda. Vejo uma praia negra banhada pelo Mar da Irlanda e no centro dessa praia está uma criança magra, pálida, a tiritar de frio. À sua volta voam gaivotas em fúria. Esta criança não sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às cinco da manhã no comboio para Madrid todas as revoluções acabaram. A poeira assentou. Homens da luz, substituam as lâmpadas em todos os candeeiros! Para sempre ou até amanhã é exactamente a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109122851207514906?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109122851207514906'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109122851207514906'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/termidor.html' title='Termidor'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109118048350360342</id><published>2004-07-30T10:32:00.000+01:00</published><updated>2004-07-30T17:06:48.680+01:00</updated><title type='text'>My Love Life (2/2) (revisto)</title><content type='html'>(continuação) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos&amp;nbsp;alienados, portanto. Perdidos, impedidos de encontrar um sentido&amp;nbsp;às nossas vidas. E o que fazem aqueles que não são pais, nem pedagogos, aqueles que não têm contacto directo, diário, sustentado, com crianças?&amp;nbsp; Para onde devemos orientar os nossos esforços? Morrissey&amp;nbsp;decidiu, por volta dos seus 30 anos, que ia ser 'The End of the Family Line' (álbum ‘Kill Uncle’, EMI, 1991): &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'No baby pulled screaming&amp;nbsp; [NB sugere insatisfação por parte do bébé em nascer] /&amp;nbsp;Out into this&amp;nbsp;seething whirl&amp;nbsp;/ By chance or whim&amp;nbsp;/ (Or even love?)' &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, o percurso de Morrissey é marcado por referências bastante amargas em relação às crianças, e principalmente em relação à violência a que as crianças são sujeitas no mundo confuso dos adultos. Nesse capítulo, veja-se o perturbante 'This Night Has Opened My Eyes', em que um recém-nascido é enrolado num &lt;em&gt;News of the World&lt;/em&gt; e atirado ao rio (compilação dos The Smiths, ‘Louder than Bombs’, Warner, 1993). Veja-se 'November Spawned a Monster', sobre crianças indesejadas – uma música em que o título diz tudo (compilação ‘Bona Drag’, EMI, 1990). Veja-se 'The Lazy Sunbathers', em que, enquanto as crianças levam com obuzes, adultos apanham banhos de sol (álbum 'Vauxhall and I', EMI, 1994). Veja-se, também, 'Suffer Little Children', com o exército de crianças fantasma (esta música irá inspirar&amp;nbsp;o meu post do dia sete de Agosto) (álbum homónimo dos The Smiths, Warner, 1984). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual é a resposta que Morrissey dá àqueles que, pelas mais variadas razões, não se sentem em condições de trazer crianças ao mundo e/ou educá-las? A atenção deve claramente virar-se para o outro pólo do eixo identificado por Whitney Houston: o amor-próprio. As referências de Morrissey ao amor-próprio são incontáveis e a sua posição demasiado complexa para ser analisada em detalhe aqui. No entanto, é importante dizer que, para Morrissey, o amor-próprio não é o impulso de ‘gostar de si’, é antes o resultado da constatação da finitude, fragilidade e insignificância da vida. Isto não deve levar ao desespero (embora Morrissey seja ambíguo neste ponto), mas antes a um impulso criativo, desapegado, que tenta manter uma réstia de encanto na vida: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Make no mistake my friend / Your pointless life will end / But before you go / Can you look at the truth? / You have a lovely singing voice / (...) / &lt;em&gt;So sing your life&lt;/em&gt;’ (‘Sing Your Life’, álbum ‘Kill Uncle’, EMI, 1991) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;‘Cantar a vida’ não é exibicionismo, não é mostrar aos outros como isto é fixe/doloroso (riscar o que não interessa). Cantar a vida é o resultado de uma postura crítica, de dúvida, é o resultado de uma insatisfação, mas é também um sinal de esperança - porque se baseia nas inúmeras potencialidades do que é humano. A nossa vida, actualmente&amp;nbsp;sem valor,&amp;nbsp;actualmente vítima de um sistema que nos alienou, pode encontrar na escrita e na música uma réstia de liberdade (os autores da Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno e Herbert Marcuse, encontravam exactamente na arte o último repositório de perspectivas emancipatórias). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a génese incoerente, desconexa,&amp;nbsp;trágico-cómica de ‘My Love Life’. É que, não sei se estão a ver, a minha vida amorosa não é bem minha. É mais de todos aqueles que sofreram, e de todos aqueles que vão sofrer. O meu amor&amp;nbsp;está misturado com o amor de todas as outras pessoas&amp;nbsp;no enorme caudal de sofrimento em que a humanidade se encontra. Vou mostrar estas ‘canções’ sobre a minha vida até que se me torne insuportável a ideia de que estou a contaminar as pessoas com o que escrevo. Afinal, e ainda que não me esteja a dirigir a crianças, não quero acabar no fundo do mar com uma mó atada ao pescoço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes quando estou num pub com amigos bebo cervejas e tenho de ir à casa de banho. Quando estou a lavar as mãos no final, e especialmente quando estou ligeiramente embriagado, atinge-me em cheio na cara um enorme pavor de morrer. Tenho de me agarrar para não cair no chão com esta vertigem fria. Quando recupero, volto para a mesa e minutos depois já estou a rir-me&amp;nbsp;de novo,&amp;nbsp;com outra cerveja na mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julgo que seria uma pena se a nossa caminhada pelo mundo terminasse sem que falássemos destas coisas todas que se passam na vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109118048350360342?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109118048350360342'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109118048350360342'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/my-love-life-22-revisto.html' title='My Love Life (2/2) (revisto)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109117996644556610</id><published>2004-07-30T10:27:00.000+01:00</published><updated>2004-07-30T13:54:20.580+01:00</updated><title type='text'>My Love Life (1/2) (revisto)</title><content type='html'>Imaginem uma cena no fundo do mar: imaginem que estão parados no fundo do mar e que presenciam esta cena: imaginem um homem de cabelos compridos no fundo do mar, debatendo-se, olhos abertos de terror, um pedaço de tecido atado à cintura, e este homem está agarrado a uma corda que tem ao pescoço, e na outra ponta da corda está uma pesadíssima mó de pedra que irá sepultar este homem numa morte horrenda. Agora, se puderem, imaginem uma vez mais o pavor deste homem, a sua lenta asfixia, a forma como os seus pulmões vão encolhendo até ficarem do tamanho de laranjas (devido à pressão no fundo do mar), a forma como uma espuma branca começa a sair da sua boca (sinal de que os pulmões estão a receber água e a entrar em colapso), e depois o sangue, e os seus pulmões explodem, e ele ainda se debate durante longos segundos até a vida desistir dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, no final, imaginem que toda esta cena foi ordenada por Jesus Cristo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Multipliquem o que estão a sentir pelo infinito e ainda estão a anos-luz do que sente uma criança quando lê&amp;nbsp;a Bíblia pela primeira vez, ou (como eu) quando vê uma daquelas edições ilustradas em que as gravuras são ainda mais explícitas do que esta pobre aproximação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mateus (18:1-6) conta-nos como os discípulos um dia perguntaram a Jesus qual era 'o maior no reino dos céus'. Jesus pôs diante deles uma criança e avisou: 'qualquer que&amp;nbsp;escandalize um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fôra que se lhe pendurasse ao pescoço uma pedra de moinho, e se o fizesse afogar nas profundezas do mar'.&amp;nbsp;Esta passagem é, segundo o meu conhecimento, a única em que Jesus advoga directamente a morte como punição para um determinado pecado (se tiverem conhecimento de outras, por favor digam). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A interpretação&amp;nbsp;de uma passagem do famoso&amp;nbsp;Sermão do&amp;nbsp;Monte&amp;nbsp;(Mateus 5:38-42) mostra-nos como, com a chegada de Jesus, a&amp;nbsp;doutrina&amp;nbsp;do 'olho por olho, dente por dente', bem presente no Velho Testamento (Êxodo 21:24, Levítico 24:20, Deuterónimo 19:21), é substituída pelo bem conhecido 'oferece a outra face'. No Velho Testamento, Deus era claramente uma entidade disciplinadora e vingadora que fulminava as pessoas por tudo e mais alguma coisa: veja-se o caso do pobre Onan (Genesis 38:8-10), de onde vem a palavra 'onanismo' (identificada, não com muita exactidão, com o acto de masturbação) - Onan terá sido um dos percursores da prática nefasta do coito interrompido.&amp;nbsp;A chegada de Jesus e sua morte na cruz&amp;nbsp;significam em termos teológicos a&amp;nbsp;expiação dos pecados do Homem, e sua subsequente possibilidade de salvação.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha interpretação deste episódio é a seguinte. Jesus parece dar a entender que a vida humana perde o seu valor a partir do momento em que é quebrada uma espécie de regra de ouro: a de não escandalizar as crianças, ou seja, a de não as levar ao pecado (algumas traduções, brasileiras por sinal, falam em 'fazer tropeçar' as crianças, como se estas estivessem num caminho que não deve ser perturbado). O que significará isto? Para mim, parece-me clara esta conclusão:&amp;nbsp;para Jesus, a vida humana apenas tem valor em si enquanto não se perturbar a natural evolução das crianças, contaminando-as com as nossas ideias feitas e com o nosso pecado; em suma, enquanto a vida for dedicada&amp;nbsp;a ajudar as crianças a seguir o seu caminho.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que isso, Jesus diz que 'aquele que não receber o reino de Deus como uma pequena criança nunca nele entrará' (Marcos 10:15). Julgo que&amp;nbsp;Ele quer dizer com isto que, nas condições em que nos encontramos neste momento, estamos perdidos. A nossa vida só tem sentido para ajudar aqueles que ainda não se corromperam, possibilitar a sua salvação. O Calvinismo vai recuperar esta ideia com a teoria da predestinação (acompanhada da&amp;nbsp;assumpção, comum ao luteranismo, de que o ser humano&amp;nbsp;é inerentemente mau): quando nasce, o&amp;nbsp;ser humano&amp;nbsp;já está destinado para a salvação ou danação. A vida deve ser vivida com uma&amp;nbsp;ética virtuosa baseada na fé, e na vontade de fazer o melhor possível com o que nos foi dado. Max Weber vai ligar esta ideia de predestinação ao conformismo presente nas&amp;nbsp;sociedades capitalistas, etc.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Whitney Houston (NB não estou a estabelecer comparação entre o pensamento de Whitney Houston e Jesus, apenas a seguir um raciocínio), para Whitney Houston, dizia,&amp;nbsp;a ideia gasta de que o&amp;nbsp;'futuro é das crianças' é, de uma forma bastante interessante, ligada ao amor-próprio. Na música 'The Greatest Love of All'&amp;nbsp; (do álbum ‘Whitney Houston’, Arista, 1985, escrita por Michael Masser e Linda Creed)&amp;nbsp;os versos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'I believe the children are our are future / Teach them well and let them lead the way / Show them all the beauty they possess inside / Give them a sense of pride to make it easier' &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...encontram&amp;nbsp;a sua sequência no mítico refrão: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'The greatest love of all / Is easy to achieve / &lt;em&gt;Learning to love yourself&lt;/em&gt; / It is the greatest love of all'&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Whitney Houston, a vida virtuosa&amp;nbsp; (isto é, com amor próprio) é a vida em que o ser se consciencializou de que a única coisa&amp;nbsp;que vale a&amp;nbsp;pena são as crianças. Mais: devemos ajudar as crianças a encontrarem o seu caminho e a&amp;nbsp;orientarem-nos ('teach them well and let them lead the way') - porque nós, por nós próprios, estamos desamparados e perdidos. Amar o potencial inerente nas crianças é amar-se a si mesmo; é reconhecer, com humildade, que o sentido da nossa vida não somos nós, mas sim um esforço (que deve ser universal) para&amp;nbsp;evitar que as crianças acabem da mesma maneira que nós. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;(continua)&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109117996644556610?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109117996644556610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109117996644556610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/my-love-life-12-revisto.html' title='My Love Life (1/2) (revisto)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109104094902979541</id><published>2004-07-28T18:59:00.000+01:00</published><updated>2004-07-28T19:55:49.030+01:00</updated><title type='text'>Faltas tu</title><content type='html'>A primeira vez que vieste a Lisboa visitar-me eras apenas uma menina. Lembro-me de ti em Entrecampos à minha espera, no meio dos pardais. Estavas sentada num banco a olhar a estátua da Praça de Entrecampos. Perguntaste-me o que aquilo significava e eu não te soube explicar. Era Primavera, ou algo assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos autocarros as crianças cantavam, nessa altura em Lisboa. Tu achavas muita graça porque de onde vinhas as crianças não cantavam nos autocarros. Lembro-me do primeiro dia da tua primeira estadia em Lisboa e da forma como parecias maravilhada com tudo. Ao mesmo tempo olhavas-me, tímida. Sorrias. Uma menina. Eu queria tanto mostrar-te a minha cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ter sido por essas alturas que caímos no amor. No Rossio, uma noite, disseste que te tinhas apaixonado por mim "como uma tonta". Estava a chover e o autocarro da madrugada nunca mais chegava. Estávamos sentados à entrada de um restaurante de comida rápida e eu abracei-te. Não havia ninguém por perto, parecia que estávamos a viver num recreio só nosso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, numa discoteca chamada Luanda, muitas pessoas morreram já não me lembro bem como. Ou foram incineradas ou gaseadas. Os meus pais tentaram ligar-me porque os pais preocupam-se, sabes, e o meu telefone estava desconectado. Sempre fui perito em pôr os meus pais doentes. Mas a culpa não é tua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois andámos por Lisboa até nos fartarmos. Ou então ficávamos em casa. Nunca fizemos amor. Mas dávamos tantos beijos que os meus lábios ficavam vermelhos, inchados. Não sei se era amor o que sentia. Talvez não fosse. Comíamos muito pouco. Ficávamos deitados na cama a escutar os sons que vinham dos nossos estômagos vazios. Voltávamos aos beijos, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizias-me que o vidro da janela do meu quarto tinha um furo microscópico, e era por isso que podíamos ver as luzes do trânsito a passar no tecto. Tu deixavas-me tocar os teus seios. Talvez fôssemos apenas dois jovens estranhos a crescer. Mas isso é o mais próximo que alguma vez estaremos do amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje não sei porque vieste, o que te passou pela cabeça para me surpreenderes assim, vinda do nada. Para abanares o meu mundo e deixares a marca dos teus pés em tudo o que era meu. Sinto que tenho de agradecer-te, mas é uma ironia amarga. E também não é preciso dizer adeus, agora que nunca mais nos voltaremos a ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto porque tu nunca me deixaste. Simplesmente, estes anos de chuva intensa foram-te arrastando para longe. Nada escapa à erosão, e a areia é apenas ínfimas&amp;nbsp;rochas indestrutíveis, solitárias&amp;nbsp;e tristes e com vontade de se desfazer. Memória prega partidas, as minhas memórias estão cheias de arrependimentos. As rochas levadas pelo vento questionam-se qual é a razão de tudo, perguntam-se quando chegará a nova Idade do Gelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os miúdos estão a perguntar se vai ficar tudo bem. Tenho demasiados telefonemas em lista de espera. A poeira da casa está em suspenso, iluminada&amp;nbsp;do sol que entra pelas frinchas da persiana. A tua casa está à espera, está à espera que entres. Tudo é tudo, e vice-versa - as palavras começam a escassear. Em breve acabarão subitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu sei que na ilha de Rinca, na Indonésia, a cabeça de um dragão do Komodo emergirá lentamente da selva esparsa, e eu sei que o dia estará quente, quente, e vice-versa. Este dragão, cuja língua é um poderoso órgão olfactivo, etc., terá os olhos postos nos lugares vazios onde antes estavam os turistas. Ele vai deslizar por entre os esqueletos dos turistas que foi comendo ao longo destes anos todos. Ele vai perguntar-se: isto sou eu? Este ser de língua bífida, comprida,&amp;nbsp;os olhos de réptil perverso? Eu sou este glutão? Este &lt;em&gt;assassino&lt;/em&gt;? Sangue a escorrer das minhas mandíbulas? O dragão do Komodo vai ficar parado junto às carcaças pequeninas das crianças que devorou sem apelo nem agravo, vai considerá-las por algum tempo. Uma lágrima vai formar-se no canto do seu olho de réptil perverso e com a sua língua bífida ele vai lamber essa lágrima, o que imediatamente provocará uma irritação no olho de réptil perverso devido aos milhares de bactérias que colonizam a sua boca (e que normalmente provocam a morte por infecção às presas por ele mordidas, etc.). Este dragão do Komodo vai lamentar-se pela infantilidade das suas reacções. Ao longe vai ver os outros dragões do Komodo caçando os poucos turistas que ainda se arrastam pela praia: uma imensa arena ensanguentada, povoada por gemidos e braços esticados em pedidos de misericórdia. &lt;br /&gt;Ilha de Rinca: terra sem rei nem roque. Lugar fodido para viver. Este dragão do Komodo vai sentir-se só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os miúdos estão a puxar as minhas mangas, vês? Organizaram esta festa e convidaram todos os amigos de toda a gente. Até os meus, até as pessoas que eu magoei e abandonei e violentei e desiludi. Durante a noite toda vamos beber daiquiris à volta da piscina. Mas faltas tu. E eu nem sequer lhes disse, eu nem sequer te disse ainda que tu já não estás viva, que tu nunca estiveste viva, que&amp;nbsp;tu estás tão viva como a boneca insuflável Lola2000 com a qual partilho a cama, e que me beija apaixonadamente todas as noites antes&amp;nbsp;de adormecer.&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109104094902979541?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109104094902979541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109104094902979541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/faltas-tu.html' title='Faltas tu'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109095594056568984</id><published>2004-07-27T19:00:00.000+01:00</published><updated>2004-07-27T20:27:39.440+01:00</updated><title type='text'>beleza</title><content type='html'>Como explicar isto? Como explicar este misto de atracção e repulsa&amp;nbsp;que sinto por tudo o que é belo? Como explicar&amp;nbsp;este equilíbrio que eu procuro em substituição da beleza,&amp;nbsp;esta tranquilidade que sucede ao clímax, à tempestade, e cuja aspiração última é exactamente&amp;nbsp;a ultrapassagem da necessidade de tempestades e de bonanças - numa espécie de fusão impossível com o que é Uno, belo e feio ao mesmo tempo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amo a tranquilidade e toda a minha vida é uma procura da ordem - a única beleza que está ao meu alcance. Isto porque em mim&amp;nbsp;a&amp;nbsp;contemplação estética é inseparável do terror: o que eu contemplo em algo que é belo não é&amp;nbsp;um simples ordenamento feliz de um conjunto de características - é acima de tudo uma visão momentânea sobre um outro mundo. Ainda hoje sou gozado pelos meus amigos por um dia ter dito que uma certa rapariga tinha 'uma beleza assustadora'. &lt;br /&gt;Este mundo do belo-em-si está irremediavelmente para além do existente e do concreto, para além do que me é dado e do que alguma vez poderei alcançar. Quando eu vejo algo belo eu tenho uma visão da beleza-em-si, do mundo do qual eu nunca farei parte. Por isso, a experiência estética é em última instância experiência de humilhação, é experiência de solidão extrema - é experiência de medo, não só devido à minha irredutível ausência, mas também devido&amp;nbsp;a uma&amp;nbsp;irredutível incapacidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostava de não pensar assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A&amp;nbsp;beleza só se manifesta por revelação, por transcendência; ao mesmo tempo, as oportunidades de transcendência estão presentes nas coisas mais díspares, mais inesperadas. Por isso, é natural que me encontre por vezes siderado como uma criança diante das coisas mais simples, e é natural que passe horas em contemplação - coisa que não fazia há alguns anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terror e o desconforto da experiência estética fazem com que procure alternativas. É para mim uma extrema violência ser confrontado, desprotegido, com um conjunto de imagens, portas para dentro desse mundo imensamente distante do meu. Por isso, é-me muito mais fácil mergulhar no submundo do que é feio e grotesco. Sinto-me muito mais à vontade. Mais do que isso, sinto que estou em casa, sinto-me no meu verdadeiro elemento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, eu não sou este festim nu. (De facto, eu não sou nada do que tenho escrito, e ao mesmo tempo sou tudo). A minha incapacidade para lidar com a beleza não me impede de procurar a ordem, a tranquilidade - aqueles breves momentos em que tudo, tudo está no seu devido lugar, em que o belo e o feio se dissolvem e deixam de ter significado. Estes momentos são para mim o paraíso na terra. Constituem o 'as good as it gets' da minha vida. Sinto-me afortunado por ter tido bastantes desses momentos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autocarro em que viajávamos até La Guaira&amp;nbsp;está avariado numa berma&amp;nbsp;da auto-estrada.&amp;nbsp; Esperamos horas naquele autocarro, sem nada para fazer a não ser conversar. E o sol do fim de tarde torna tudo diferente, e os olhares e cumplicidades que se formam naquele autocarro estão para além do que posso explicar. Anoitece lentamente, vamos conversando, vamos fazendo companhia uns aos outros. Parece que havia uma rapariga espanhola que gostava de mim. Tudo é inocente, não há segundas intenções em nada. Eu estou em casa, tudo está em ordem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo no deserto indiano muito cedo pela manhã, e centenas de insectos voam silenciosamente por cima de mim, pontos fugidios no céu azulado, fresco. Apesar da enorme quantidade, nenhum dos insectos tenta poisar em mim, nenhum perturba o meu lento despertar. Parecem estrelas negras, e o céu está louco de tantas estrelas negras. Alguém na fogueira prepara o pequeno almoço e ao meu lado as mantas dos meus companheiros de viagem. Os camelos circulam livres, se fechar os olhos consigo visualizá-los pelos sons brandos que fazem. Quando me levanto, o meu tamanho é desmultiplicado em um milhão à medida que subo as dunas virgens e descubro toda aquela imensidão, o dia que se aproxima. Tudo está em ordem. Na minha cabeça, o Michael Stipe canta "I've been high". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Carupano, naquela noite, e Carupano era amor, deitado no chão a ver as estrelas do Sul e alguém ao meu lado a explicar-me aquelas estrelas todas, uma noite doce. Quando finalmente regresso à minha tenda naquela praia ela chama por mim e vejo a sua cara obscurecida por detrás do mosquiteiro. Aproximo-me e ficamos a falar por&amp;nbsp;alguns segundos. Nessa altura as coisas ainda não se complicaram - ainda não estamos próximos o suficiente. Carupano era amor de manhã também, com a névoa no campo de palmeiras, com a simplicidade e o encanto insubstituível de algo que ainda não se concretizou, algo que não se chega a concretizar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos naquela cave em S. Bento e imediatamente os Smiths começam a tocar "This Charming Man", e eu estou com o João e a Raquel e o Tino e quero que eles saibam quem eu sou. E nessa noite Lisboa é nossa, e somos amigos, e não é preciso mais nada porque estamos juntos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Ou aquele fim de tarde simples, sem solavancos, no Parque Eduardo VII e eu a despedir-me dela e ela a apanhar o autocarro para casa e eu a pensar onde é que já senti isto, eu a pensar isto sou eu antes de ter sido corrompido, eu a pensar&amp;nbsp;julgava que estas coisas já não eram possíveis na minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou aquela frase final do Jack Kerouac, a frase mais bonita que alguém escreveu: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"So in America when the sun goes down and I sit on the old broken-down river pier watching the long, long skies over New Jersey and sense all that raw land that rolls in one unbelievable huge bulge over to the West Coast, and all that road going, all the people dreaming in the immensity of it, and in Iowa I know by now the children must be crying in the land where they let the children cry, and tonight the stars'll be out, and don't you know that God is Pooh Bear? the evening star must be drooping and shedding her sparkler dims on the prairie, which is just before the coming of complete night that blesses the earth, darkens all rivers, cups the peaks and folds the final shore in, and nobody, nobody knows what's going to happen to anybody else besides the forlorn rags of growing old, I think of Dean Moriarty, I even think of Old Dean Moriarty the father we never found, I think of Dean Moriarty."&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109095594056568984?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109095594056568984'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109095594056568984'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/beleza.html' title='beleza'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109086773842595499</id><published>2004-07-26T18:23:00.000+01:00</published><updated>2004-07-26T19:57:06.433+01:00</updated><title type='text'>I see dead people</title><content type='html'>Nas ruas desertas da Bica à noite, quando todos dormem e ainda ninguém se levantou, está um rapaz parado numa esquina a ouvir o silêncio e a água que escorre pelas ruas abaixo, e as suas roupas estão rasgadas em alguns sítios porque eram demasiado apertadas e ele mexeu-se muito rápido para fugir - e o seu eyeliner está incerto em alguns sítios e talvez desbotado pelo suor, pelas lágrimas, e nas ruas escorregadias da Bica à noite ele escuta com atenção, agarra-se às paredes, os seus caracóis manchados de cal - não vão os namorados voltar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E naquelas ruas escuras que bordejam S. Bento, onde à noite ninguém se dá ao trabalho de&amp;nbsp;ir a não ser para vomitar, um rapaz corre e olha por cima dos ombros,&amp;nbsp;tropeçando, e tudo o que ouve é a sua respiração, o seu terror, e as suas calças de licra apertam de forma intensa o saco escrotal à medida que este rapaz perde as energias, perde a calma - e ele esconde-se junto a uns andaimes que impedem casas de cair e chora baixinho, e olha para todos os lados (não vão os namorados voltar), e pensa na sua mãe, e pergunta-se onde é que tudo correu mal, e na sua mala preservativos bâton e metade de um telemóvel, uma pistola de água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no Bairro Alto, também à noite, quando alguns adolescentes crescem e outros se embebedam e tantos tantos descobrem o amor e o que o amor custa, um rapaz rodeado de&amp;nbsp;homens é empurrado de um lado para o outro, é abraçado e beijado e manuseado e ninguém se importa com o que lhe acontece, e depois este rapaz vai para apartamentos e sai desses apartamentos de manhã e o dinheiro continua a aparecer não se sabe de onde, e se apenas Lisboa soubesse isto tudo, e se apenas os amigos deste rapaz soubessem - e no Príncipe Real este rapaz gira, embriagado, sorridente, acompanhado das namoradas dos namorados, e ele é uma mascote e elas esbofeteiam-no nos pátios e todos se riem, e todos são o máximo, e todos têm sonhos que os fazem cair da cama, e nas malas preservativos bâtons destroços de telemóvel, confettis, pistolas de água, instruções para fazer bombas caseiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as namoradas dos namorados são as mais cruéis de todas, elas dizem fode-o fode-o, e riem-se nuas, pedradas na cama, e os namorados excitados agarram no pénis e perguntam ao rapaz queres que te foda com isto? e ele diz sim fode-me, e põe-se de gatas na cama e fecha os olhos e espera e as namoradas&amp;nbsp;gritam fode-o fode-o, e vêm-se antes de toda a gente, e puxam os cabelos do rapaz, dos namorados, e depois fumam, suadas, exaustas, loiras -&amp;nbsp;e no dia seguinte vão trabalhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nas casas de banho dos bares do Bairro Alto, da Bica, desses sítios todos, os namorados debatem nas paredes sobre este rapaz, e desenham pénis horríveis, grandes,&amp;nbsp;que despejam esperma na boca de um rapaz com eyeliner, e os sacos escrotais que eles desenham são imensamente peludos, feios, e suor forma gotas nas pontas. Alguns namorados são brasileiros, outros não, alguns são actores, e cocaína é cheirada nessas casas de banho e há sempre cocaína naqueles apartamentos e o rapaz está pedrado também, no fim, a sua roupa interior manchada de sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os namorados: gente que só se vê à noite. Um ou outro mais bonito, um ou outro da televisão, das revistas. Eles bebem cocktails no Bairro Alto e depois excitados no chuveiro eles masturbam-se em frente ao rapaz e dizem-lhe olha só para essa pila meu olha-me só para essa pila, e os pénis dos namorados tocam o pénis do rapaz e todos gemem e tudo é fantástico e as namoradas tiram fotografias, riem-se. Elas também aparecem nas revistas, nas festas, nos concertos, na televisão. E nas caves dessas casas, ou num quarto fechado nos apartamentos,&amp;nbsp;alguém está amarrado a uma cadeira há demasiado tempo, cego pela escuridão, os seus pés nus mastigados por ratazanas, e esse alguém agita-se, desperta do torpor sempre que alguém passa em frente à porta - mas a porta não é aberta por muito tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os namorados: uma trupe amigável, carnavalesca. Uma segunda identidade. Todos gostam uns dos outros - até certo ponto.&amp;nbsp;O rapaz fica&amp;nbsp;sempre no lugar do meio, nos bancos de trás dos carros, das carrinhas. Toca,&amp;nbsp;é tocado. É levado para matas, pinhais, solares, para casas em Galamares, para o Cristo-Rei, para os cemitérios de autocarros. É passado de mão em mão. É tratado como pede, tratado como foi aprendendo a querer. Ninguém fica a perder. Até certo ponto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os namorados já mostraram mais do que uma&amp;nbsp;manifestação de crueldade. E se Lisboa soubesse, se os&amp;nbsp;amigos soubessem... mas não importa porque o rapaz já recuperou de ontem à noite, já encontrou o caminho para casa e a Bica e S. Bento são apenas os fumos de sonhos maus. Não importa porque ninguém se importa. Por muitas palavras supostamente amigas que este rapaz oiça, ele sabe que não há ninguém a não ser os namorados. E já veste outra vez as meias, as ligas, já rapa cuidadosamente o peito, a púbis. Este rapaz sabe que não é mais do que um corpo colonizado por nódoas negras, um pescoço mordido, um pénis trilhado. Este rapaz está contente porque até agora nunca o prenderam para ser comido por ratazanas em quartos escuros. Este rapaz já viu mundo, já esteve alto, já está apaixonado outra vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109086773842595499?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109086773842595499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109086773842595499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/i-see-dead-people.html' title='I see dead people'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109068093212075584</id><published>2004-07-24T14:21:00.000+01:00</published><updated>2004-07-24T16:00:04.133+01:00</updated><title type='text'>Almoço de Sábado</title><content type='html'>Hoje o acordar foi diferente. Quer dizer, todos os dias o acordar é diferente e as minhas madrugadas têm normalmente sangue, visitantes, profecias, julgamentos.&amp;nbsp;Porém, hoje foi fisicamente diferente: três segundos antes de acordar eu já não estava a dormir. Explico: eu hoje ouvi-me a ressonar. Agora não sei se foi uma descoordenação por parte do meu organismo, ou se foi o meu ressonar&amp;nbsp;que me despertou.&amp;nbsp;Também não sei se isto é&amp;nbsp;normal, mas senti-me estranhamente privilegiado por ter assistido, sobre um limbo normalmente fugidio, ao desenrolar da minha inconsciência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava a sonhar com a minha família, com a minha pobre família, sempre a correr de desgraça em desgraça. Uma família que só se junta, só se define pelas desgraças. Estava a sonhar com telemóveis que se ligavam a aparelhagens e transmitiam mensagens em festas de aniversário. Eu era o responsável por que tudo corresse bem. Quando acordei o sol de ontem tinha desaparecido, e as nuvens frias da Grã-Bretanha estavam de volta. Fiquei aliviado. Para além disso, a&amp;nbsp;pressão sobre as minhas têmporas tinha-se dissipado ligeiramente. Fui tomar duche e, devido a algo que puseram no ralo para evitar o mau cheiro, agora a água não passa - tive de me apoiar nas bordas do poliban para que a água não transbordasse. Senti-me como um homem-aranha, como um ladrão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a toalha enrolada à volta da cintura, em tronco nu, andando lentamente pelos corredores escuros do apartamento: apercebi-me que tudo estava estranhamente silencioso há pelo menos dois dias.&amp;nbsp;Há pelo menos dois dias que não tenho uma conversa com uma pessoa de carne e osso. Estarão todos mortos? Ou terei eu morrido? Será que alguém ainda lê o meu blog? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu almoço: um tomate, metade de um pimento amarelo (guardei a outra metade no frigorífico), alface, queijo feta cortado aos cubos, massa (espirais tricolores a cozerem durante exactamente 11 minutos). Depois de escorrida, a massa é arrefecida com água fria, depois junta-se aos vegetais e ao queijo e é temperada com um fio de azeite e uma (ou duas) pitadas de orégãos. &lt;br /&gt;Junto ao mar, pai e filho atiram pedras às gaivotas bébés que perto da zona de rebentação aprendem a nadar. Eu como com apetite q.b.: à minha frente a garrafa de azeite, just in case. A cozinha está silenciosa à excepção das ondas e das crianças que se agitam na rua, tentando destruir um gigantesco castelo insuflável. Penso se esta dieta de vegetais terá algum efeito em mim. Ficarei mais musculado? As vitaminas vão tornar os meus abdominais mais firmes e atraentes? Os pêlos nas minhas costas vão desaparecer? E as manchas no meu peito? E haverá algum efeito ao nível dos meus fluidos -&amp;nbsp;na viscosidade do meu sangue, na composição das minhas fezes, no cheiro do meu esperma? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como em silêncio. Penso em tornar-me vegetariano. Penso na minha imensa solidão de vegetariano num país&amp;nbsp;latino, em que os pratos vegetarianos são basicamente os pratos normais de churrasqueira a que se retirou a carne. Vegetarianos:&amp;nbsp;condenados a omeletes,&amp;nbsp;arroz,&amp;nbsp;anéis de cebola e uma azeitona. Penso se poderei partilhar os jantares de família, se o facto de me tornar vegetariano não será mais um argumento para os meus primos me chamarem de 'panasca'. Penso nisto tudo, e vou&amp;nbsp;picando a minha salada com um garfo. Devia começar a comer com pauzinhos. Mais: devia andar sempre com os meus pauzinhos, e retirá-los ritualmente de uma&amp;nbsp;bolsa de pano no meio do restaurante,&amp;nbsp;quando estou com&amp;nbsp;os meus amigos (a&amp;nbsp;bolsa de pano teria motivos incas). Devia dar graças antes de comer. Devia descalçar-me e sentar-me na cadeira como um monge budista em meditação. Devia andar sempre de cabeça rapada. Devia falar por aforismos. Devia castrar-me quimicamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois penso num post chamado 'Almoço de Sábado'. A minha salada está quase a acabar e vou comer uma maçã verde, fresca. Vou descascá-la habilmente com uma faca. Imagino-me a escrever um post chamado 'Almoço de Sábado'. De faca na mão, imagino-me nesta cadeira, nesta posição, a escrever exactamente... estas... palavras. Depois, de faca na mão, imagino-me de faca na mão a descascar a maçã e a levá-la à boca. Penso se alguém&amp;nbsp;iria gostar&amp;nbsp;de mim se me visse assim. Junto ao mar, o pai (ou o filho) finalmente acertou com uma pedra numa das gaivotas bébés. Enquanto os dois festejam dando saltos, ela afoga-se, e à sua volta a água torna-se rosa, depois vermelha, depois quase negra. Pai e filho estão finalmente juntos, e por momentos o divórcio é esquecido.&amp;nbsp;Eu penso numa variação de uma frase famosa do Morrissey: 'Por favor alguém me impeça. De pensar. A todo o tempo. Tão profundamente. De uma forma tão pessimista. Sobre tudo.'&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109068093212075584?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109068093212075584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109068093212075584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/almoo-de-sbado.html' title='Almoço de Sábado'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109059114406291097</id><published>2004-07-23T14:02:00.000+01:00</published><updated>2004-07-23T15:00:49.380+01:00</updated><title type='text'>Em Londres com o Miguel</title><content type='html'>'Não me importo de mentir para dizer algo que é verdade' - e foi assim que nos despedimos. Que não me importava de mentir, que o mais importante era a verdade que surgia no final, a verdade que emergia - a verdade dos sentimentos. O que somos, parecia-me, não se resume ao que fazemos, aos sinais exteriores e aos efeitos dos nossos actos. O que somos é um mistério, um mistério dentro de um mistério que só um mistério pode, talvez,&amp;nbsp;revelar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu andava a brincar com as pessoas, andava a brincar com o Miguel também, andava a manipular-me, a fazer malabarismos comigo. Mas precisava disso, fazia-me sentir que tinha alguma espécie de controlo, alguma palavra a dizer, do fundo da minha confusão e da minha distância. Onde eu estava, onde eu vivia, o Verão era indeciso e a chuva nunca parava - eu estava na verdade em Avalon, estava a viver um sonho dentro de um sonho. E nada me era revelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava apenas a ser sincero: a contradição do que dizia era o labirinto em que eu estava, o quebra-cabeças que me tinha tornado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oxford Street: dentro de uma HMV Miguel percorre as prateleiras de LP's, enquanto eu o observo. Miguel pára, faz os dedos percorrer uma fila de discos, com os dedos separa os discos e retira um. Olha em volta da sala, em busca de mim, e eu não faço qualquer esforço para que ele me encontre - apenas continuo no meu canto na secção de posters, a olhar para ele. &lt;br /&gt;Isto é Miguel em Londres, isto sou eu com o Miguel em Londres e ele está a mostrar-me músicas de que gosta, títulos de canções, capas, fotos - ele está a desfilar estas coisas em frente dos meus olhos e eu penso no fedor de todas as minhas mentiras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é&amp;nbsp;apenas no Miguel que eu penso: eu penso na maré de merda que flui de mim, nas ondas e ondas de matéria impura com que infectei todos à minha volta. Penso nas pessoas que abandonei, as pessoas que enganei - penso nestes demónios, e estes corpos e mentes torturados lançam um grito intraduzível, um lamento de raiva. Eu olho para aquilo e sinto medo, apesar de estar longe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kensington: a tarde em Londres está quente e eu deito-me num relvado à sombra. O Morrissey poderia passar à minha frente e eu não me mexeria. O Miguel lê um dos seus livros nihilistas e eu tento adormecer: ando à dois dias a comer apenas bananas. Penso se isto que tenho cá dentro se pode de algum modo assemelhar a amor, um amor oprimido, preso por correntes, um desejo assassino de amor. Resolvo que o amor nunca pensaria estas coisas, o amor não teria estas dúvidas, e à medida que a minha frustração se avoluma eu penso se será a minha sina acabar por macular tudo com este ressentimento. Como se a vida me devesse qualquer coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, para não mentir mais, eu fico calado em Kensington. Mas não será o silêncio uma espécie de mentira? Quando a alma está desejosa de produzir som, de expulsar, de transmitir em&amp;nbsp;queixumes ruidosos alguma coisa que correu horrivelmente mal. Alguma coisa que não se sabe o que é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kensington: penso em fetos calcificados, na Princesa Diana, em fetos calcificados que dançam, com um chapéu alto. Penso em lojas, quilómetros e quilómetros de uma única loja: figurinhas pequenas e adoráveis no fim de um dos corredores, brinquedos, prendas que o meu irmão me daria. O dia em que conseguir chorar isto tudo vai ser o dia em que vou enfim perceber - vou andar para trás e para trás e vou-me deparar, no fim do túnel, com uma figura que personifica os meus fantasmas todos. E depois nós vamos lutar, e eu vou ganhar ou vou perder. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel: demasiado amor, demasiado egoísmo. Há algo que me impele a abraçá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paddington, à espera de um comboio. Gostava de servir para alguma coisa na vida do Miguel. Compreendo que&amp;nbsp;sempre tentei moldar as pessoas à minha imagem. Tentei mudá-las para as integrar na minha perspectiva de ordem. A maior violência. Porque&amp;nbsp;o Miguel vai ter de sangrar, mas eu espero que não sangre demasiado. Neste momento, não há nada que possa fazer pelo Miguel, e a minha impotência só me&amp;nbsp;entristece porque desde o início pensei que poderia fazer alguma diferença. Espero que o Miguel possa voltar a sentir-se feliz - ainda que haja fantasmas e pensamentos que&amp;nbsp;regressem sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comboio, Seven Sisters, para longe daqui. Miguel ficou em Paddington, eu vou fazer fogueiras para Deus sabe onde. No meu saco, cachos de bananas apodrecem. O meu sono no comboio é interrompido pelas coisas e&amp;nbsp;barulhos que me pisam as têmporas. Eu não vou para lado nenhum em especial. Mas não há nenhuma razão para que isso seja pior do que um destino definido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos vai acontecer, Miguel? O que é que a vida nos tem reservado? Consegues perceber porque é que nunca serei verdadeiro? 1) porque o que está em mim é demasiado feio; 2) porque quero que o que está em mim se torne, um dia, bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma coisa que ficou por dizer: 'Eu compreendo o que sentes. Eu estou aterrorizado. Mas eu tenho de tentar. E espero que tu também o faças'. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109059114406291097?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109059114406291097'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109059114406291097'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/em-londres-com-o-miguel.html' title='Em Londres com o Miguel'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109043705311960657</id><published>2004-07-21T20:09:00.000+01:00</published><updated>2004-07-21T20:12:41.760+01:00</updated><title type='text'>Querido amigo,</title><content type='html'>&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Boa viagem de volta a Delhi. Vai correr tudo bem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um abraço, &lt;br /&gt;j.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109043705311960657?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043705311960657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043705311960657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/querido-amigo.html' title='Querido amigo,'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109043686422248333</id><published>2004-07-21T20:06:00.000+01:00</published><updated>2004-07-21T20:11:51.333+01:00</updated><title type='text'>Padanyaasa (coda)</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;Meu querido a flor &lt;br /&gt;(que me dói de ser humana) &lt;br /&gt;está orgulhosa de morrer &lt;br /&gt;debaixo dos pés dos dançarinos.&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;(para a Ana T.)&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109043686422248333?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043686422248333'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043686422248333'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/padanyaasa-coda.html' title='Padanyaasa (coda)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109043677584171652</id><published>2004-07-21T19:18:00.000+01:00</published><updated>2004-07-21T20:06:15.840+01:00</updated><title type='text'>Padanyaasa</title><content type='html'>Mais de dois anos passaram desde que regressámos da Índia e já tantas pessoas morreram nos comboios a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, tantas pessoas mortas que não chegaram a entrar nos comboios e caíram em charcos de lama estagnada nos bairros junto aos caminhos de ferro. Os porcos, as crianças vão remexer aqueles túmulos rasos e vão encontrar os ossos de todas essas pessoas que morreram, vão desenterrá-los e brincar com eles, vão fazer como o macaco do 2001 e bater os ossos uns contra os outros, vão utilizá-los como armas, vão ferir e afugentar as outras crianças. &lt;br /&gt;E mesmo assim as imensas prisões vão constituir armadilhas em movimento a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, e as pessoas vão entrar nelas e olhar com olhos tristes pelas grades das janelas, vão desenrolar as folhas de jornal vão comer. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;É noite cerrada em Delhi e o meu amigo chama o meu nome. Quando acordo ele está sentado na cama, aterrorizado, à beira das lágrimas. E depois eu estou no seu sonho, e do nosso quarto sem janelas nós não vemos o imenso grito, o sofrimento uníssono das crianças carregadas por crianças, das crianças carregadas por cães, das crianças a remexer no esgoto e das crianças a serem mordidas por ratos. Eu estou no sonho do meu amigo, meio a dormir, e estou numa enorme colina sobre Lisboa e depois as explosões, depois o apocalipse, e o apocalipse a aproximar-se. &lt;br /&gt;Os meus sonhos eram bastante mais simples: eu era um jogador do Benfica, as pessoas gostavam de mim, havia confusas querelas por minha causa, eu era tido em conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nas manhãs&amp;nbsp;tudo&amp;nbsp;continuava estranho, um sonho dentro do sonho, eu dentro do meu amigo e aquela cidade imensa de milhas e milhas - e os milhões e milhões de pessoas, todas iguais, à nossa volta. E apesar disso cada uma daquelas pessoas era uma história, um drama, um grito diferente -&amp;nbsp;e eu era também um grito. Tinha a sensação de que me queriam arrancar a pele. No velho bairro muçulmano nós entrávamos para nos perder e percorríamos um longo caminho no meio da multidão que se encaminhava para a gigantesca mesquita ao pôr do sol – deixávamos de ser nós, passávamos a fazer parte daquele sofrimento todo, aquela dor descalça, atravessada de moscas.&lt;br /&gt;Depois diziam-nos para sair. Era suficiente, diziam eles. Iam rezar, diziam eles. Nós não devíamos lá estar enquanto eles rezavam. Nós íamos procurar sítios para comer, sítios para telefonar para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por isso no velho bairro muçulmano, mesmo junto ao imponente forte de Delhi, as labirínticas ruelas cavalgadas por ratos e as caras adoráveis das crianças a tornarem-se lentamente em máscaras de olhos brilhantes e dentes aguçados, e travestis tocavam-me e eu deixava e as lágrimas daquela gente&amp;nbsp;deixavam marcas na poeira das suas faces e eu recusava-me a olhar para elas. Facas luziam na escuridão, músicas contraditórias em lugares que eu não identificava, sorrisos e farsas e tantos corações cheios de fatalidade, tantas pessoas que dançavam. Para além da alegria e da tristeza, para além do bem e do mal. Nos templos Jain, nos templos Sikh, éramos recebidos de braços abertos e comíamos a comida dos deuses. Ficávamos sentados nos tapetes dos templos a ouvir os instrumentos dos deuses e eu fechava os olhos e esperava um alívio, alguém que viesse ocupar o meu corpo por algum tempo. Uma substituição, para poder descansar.&lt;br /&gt;E telefonava à minha mãe de ruelas sem fim nem destino, e os vampiros da noite de Delhi aproximavam-se de mim. O meu amigo, ao longe, falava tranquilamente com crianças, no meio dos ratos mortos. As ruas eram tão apertadas que eu não via o céu. Dizia à minha mãe para não se preocupar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, cada vez que penso naqueles comboios a caminho de Bangalore, a caminho de Varanasi, eu&amp;nbsp;penso nas escadarias que vão dar aos rios e&amp;nbsp;nos banhos purificadores, penso em pessoas calcinadas impedidas de sair de carruagens, algures nos desertos do Gujarat. Penso nas linhas ordenadas de camelos, ao longe, debaixo do sol que ardia, e penso na minha cara tapada por um lenço, os meus olhos vermelhos da poeira do deserto.&amp;nbsp; Penso nas aldeias perdidas onde nunca nenhum comboio parou, e do modo como abrandávamos e de como as crianças vinham a correr acompanhando as carruagens, o modo como as crianças estendiam as mãos para me tocar. Penso em mim a pensar nestas histórias todas que guardo em mim, estas histórias que mais ninguém sabe, e algum dia terei tempo de as contar? Penso em mim sentado na porta do comboio e nas lágrimas de uma&amp;nbsp;menina a caírem nos meus joelhos, e ela encostava a cabeça no meu ombro e rezava, falava, suplicava, e aquelas palavras eram as palavras de tanta gente e mesmo assim eu não entendia nada.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109043677584171652?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043677584171652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109043677584171652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/padanyaasa.html' title='Padanyaasa'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109035157927759909</id><published>2004-07-20T19:30:00.000+01:00</published><updated>2004-07-20T20:26:19.276+01:00</updated><title type='text'>Mario Terán</title><content type='html'>No dia nove de Outubro Mario Terán vai emergir de uma cubata junto à pista de aterragem de Vallegrande. Tudo vai estar queimado, amarelo, quente, nada em Vallegrande vai parecer hospitaleiro. Mario Terán vai emergir da cubata e vai estar bêbado porque é o seu aniversário e ninguém se lembrou - porque ninguém soube.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán terá nessa altura sabido dos acontecimentos da Quebrada del Yuro: o bando de insurgentes esfaimados, acossados, cercados por todo o lado, forçados a correr de rocha em rocha, naquele leito ressequido, até à rocha final: a ponta da espingarda de um soldado. Mario Terán não terá estado nesse dia na Quebrada del Yuro, mas ao emergir da cubata ele vai tentar imaginar a cara dos prisioneiros - o preciso momento em que terão pensado que&amp;nbsp;aquilo&amp;nbsp;era&amp;nbsp;o fim da linha.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai arrastar a espingarda e sentir-se mal no seu uniforme, e vai estar bêbado debaixo daquele sol&amp;nbsp;sem misericórdia&amp;nbsp;e vai encaminhar-se para a escola abandonada de La Higuera, junto às ruínas da pista de aterragem de Vallegrande. Mario Terán vai pensar na sua terra natal, pensar basicamente na ausência de mulheres na sua vida, no triste que é&amp;nbsp;um aniversário embriagado ali naquela terra esquecida de todos.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;O&amp;nbsp;líder dos prisioneiros terá dito ao capitão Prado Salmón: 'No se preocupe, capitán, no se preocupe. Esto es el final. Todo esta terminado', e por isso Mario Terán vai deslocar-se com vagar até à sala de aula abandonada onde o&amp;nbsp;líder dos prisioneiros está, ainda vivo, amontoado junto aos cadáveres dos seus companheiros.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;E&amp;nbsp;na ilha de Rinca, na Indonésia, a cabeça de um dragão do Komodo emergirá lentamente da selva esparsa, e o dia estará quente, quente. Este dragão, cuja língua é um poderoso órgão olfactivo que pode detectar presas feridas a milhas de distância, terá, no dia nove de&amp;nbsp;Outubro,&amp;nbsp;os seus olhos postos num pequeno turista alemão com óculos.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai percorrer a terra batida, calcinada, até à sala de aula. Mario Terán terá ordens. A luminosidade em&amp;nbsp;La Higuera&amp;nbsp;vai ser tão intensa que ao entrar naquele pequeno edifício&amp;nbsp;destroçado Mario Terán não conseguirá distinguir nada das sombras. A silhueta de Mario Terán vai aparecer&amp;nbsp;à entrada&amp;nbsp;e um pequeno movimento num dos cantos da sala vai chamar a atenção de Mario Terán. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai sentir o cheiro fétido dos cadáveres apodrecidos debaixo do&amp;nbsp;calor de La Higuera. Os olhos de Mario Terán vão chorar, mas sem qualquer ponta de sentimento. Nesse momento os pensamentos de Mario Terán vão estar no preço das suas botas, na ausência de mulheres na sua vida, numa canção que a mãe lhe cantava quando era pequeno. Mario Terán vai ver os olhos brilhantes do&amp;nbsp;líder dos prisioneiros, os olhos tresloucados, alterados pelo medo, pelo desejo de glória. O&amp;nbsp;líder dos prisioneiros vai falar: 'Sé que&amp;nbsp;has venido&amp;nbsp;a matarme. Dispara, cobarde, sólo vas a matar un hombre'. O chefe dos prisioneiros vai rosnar estas palavras e Mario Terán não vai pensar em nada. Mario Terán vai olhar apenas para os olhos de cão encurralado do líder dos prisioneiros. Mario Terán vai disparar uma, duas, três, quatro&amp;nbsp;vezes.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Isto é o que Mario Terán vai ver no momento em que dispara: ele é pequeno outra vez e corre com o seu irmão mais velho pelos campos devassados de calor, perseguindo cobras. Ele é pequeno e a sua mãe espera pelos dois numa pequena casa fora de tudo, e ele e o irmão trazem duas cobras mortas e a mãe ri-se, fica ligeiramente chateada. O pai vai chegar a casa e a pele das cobras vai-lhe ser oferecida. Marito vai adormecer sem dificuldade, e vai sonhar que um dia há uma cobra que ele não pode matar. &lt;br /&gt;Isto é o que Mario Terán vai ver no momento em que dispara: é 2004 e ele emerge de uma caravana em Miami, onde vive desde aquele nove de Outubro. É 2004 e tem uma filha com o síndroma de Down. As raparigas de Miami andam nas ruas em biquini, acelerando em patins. Mario Terán vai olhar para a&amp;nbsp;esposa deformada ao seu lado na cama, vai ter pena da sua filha, vai perguntar-se pelo filho mais velho que nunca mais voltou para casa.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Isto é o que acontece ao corpo do&amp;nbsp;líder dos prisioneiros no momento em que Mario Terán dispara: a primeira bala perfura-lhe o baixo ventre, não causando imediatamente a morte mas provocando uma dor aguda, penetrante,&amp;nbsp;na zona do apêndice. A segunda bala é fatal: entra pelo tórax e fura o pulmão direito - o organismo entra em colapso e o sangue dos pulmões inunda a caixa toráxica. O&amp;nbsp;líder dos prisioneiros já não viverá para sentir a terceira e quarta balas, que entram respectivamente junto à jugular e em cheio no diafragma.&lt;br /&gt;Isto é o que o líder dos prisioneiros vai pensar no momento em que Mario Terán dispara: então é isto. Então a morte é isto.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai lembrar-se outra vez que está bêbado. Vai olhar sem pena para o corpo de Ernesto "Che" Guevara, um corpo igual aos cadáveres dos companheiros que ao seu lado apodrecem. Mario Terán vai achar que não é justo que Guevara o tenha chamado de cobarde.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai emergir da sala de aula onde o cheiro dos corpos atrai legiões de insectos. Mario Terán vai olhar ao longe as nuvens de abutres que se aproximam: milhares e milhares de abutres, abutres sem fim que escurecem o céu. Mario Terán vai encolher os ombros e virar as costas aos abutres. Afinal: haverá ainda tanto por fazer! Cortar as mãos ao cadáver de&amp;nbsp;Guevara, enviar as mãos para a Argentina, entregar o cadáver de Guevara às freiras, lavá-lo, pentear os cabelos e aquela barba que tantas mulheres atraiu. Enfim, expôr o corpo de Guevara aos fotógrafos, imprimir umas T-shirts, torná-lo no novo Jesus Cristo.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;Mario Terán vai achar que não é justo que Guevara o tenha chamado de cobarde. Mas ele vai encolher os ombros, poisar a espingarda no chão, coçar o ânus, levar os dedos ao nariz, cheirar levemente.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109035157927759909?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109035157927759909'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109035157927759909'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/mario-tern.html' title='Mario Terán'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109026126410021134</id><published>2004-07-19T19:15:00.000+01:00</published><updated>2004-07-19T19:21:59.993+01:00</updated><title type='text'>Minha família (coda)</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;OEDIPUS:&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Stop! Who were they? Who &lt;em&gt;were &lt;/em&gt;my parents? Tell me! &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;TEIRESIAS:&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; This day will show your birth and your destruction.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;(Sófocles, &lt;em&gt;Oedipus Rex, &lt;/em&gt;vv.437-438)&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109026126410021134?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109026126410021134'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109026126410021134'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/minha-famlia-coda.html' title='Minha família (coda)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109026084569445932</id><published>2004-07-19T18:21:00.000+01:00</published><updated>2004-07-19T19:28:54.240+01:00</updated><title type='text'>Minha família</title><content type='html'>Eu sento-me à janela com os pés à chuva, eu sento-me na poltrona em frente à televisão e vejo aqueles programas velhos até tão tarde. Eu sento-me num sítio onde o sol não bate - tal como o meu pai quando ele estava em casa. &lt;br /&gt;Levámos mais golpes do que podíamos suportar, e por isso é de longe que vos escrevo. Passo grande parte do dia a ver a chuva e penso em vocês, na rapidez disto tudo, no desconforto. Algumas pessoas fizeram mais do que eu, alguns filhos foram mais amigos, mais saudáveis, estiveram mais perto. Algumas pessoas levaram menos golpes do que nós mas nestes dias a chuva lava os meus pés, os sítios por onde andei&amp;nbsp;-&amp;nbsp;e por momentos tudo se desculpa. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Mãe: eu não compreendo esse amor. Lembro-me de desejar, na minha fúria, que retirasses esse amor ou que simplesmente mo fizesses compreender. Desejava também que gostasses mais de ti do que de mim, porque o teu amor me sufocava e me deixava sem desculpas para falhar. Eu queria poder culpar alguém. O teu amor deixava-me sozinho. &lt;br /&gt;E era difícil conciliar esse amor imenso com tudo aquilo que eu via, com tudo aquilo que tinhas de fazer. E as pessoas batem tanto umas nas outras e eu vi tantas coisas que estes olhos se tornaram mais meus do que tudo o resto, e tenho pesadelos em que fico cego, em que me esqueço do que vi, em que tenho de aprender tudo outra vez.&amp;nbsp;E é injusto dizer que aprendi tudo sozinho (tu mostraste-me tantas coisas, Mãe!), mas às vezes parece que foi mesmo assim. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;div&gt;E&amp;nbsp;o que mais quero dizer é que lamento não poder amar-vos dessa maneira. Lamento nunca ter dito nada que vos trouxesse alegria. Mas eu tenho saudades de ser pequeno e de vos surpreender, saudades de escutar as vossas palavras como se fosse a primeira vez. Sinto&amp;nbsp;a falta&amp;nbsp;de correr para acompanhar os vossos passos seguros, saudades de estender a minha mão para agarrar na vossa. Saudades de jantar com o pijama vestido nos domingos cinzentos -&amp;nbsp;e as minhas pernas baloiçavam, nem sequer chegavam ao chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso foi, claro, antes destas coisas todas que correram terrivelmente mal.&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Eu venho de uma família onde não se fala. Venho de uma terra queimada, uma terra má. Nesta terra fazem-te crescer para fazeres as coisas que o teu pai fez. Nesta terra abandonam-te sem escolhas, e se hesitas nunca mais serás perdoado. (Mas, claro, isto não explica nada, e as coisas más nunca serão explicadas.) Eu vim de uma família cheia de amor, como todas as outras. E na minha família, como em muitas outras,&amp;nbsp;o que é&amp;nbsp;mais importante nunca&amp;nbsp;é dito. Porque nunca escolhemos a nossa família, e o sangue é o factor de união mais aleatório que existe. &lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;E eu não sei se é o animal em mim que gosta de vocês - o animal agradecido, o animal inseguro, o animal que cospe na mão que o alimenta. Não sei se é o menino, o menino para o qual era inconcebível que vocês alguma vez falhassem. Ou chorassem. Ou se portassem mal como as outras pessoas. Também não sei se é o homem - o homem que quer e não quer voltar, o homem sem espaço, o homem cuja vida lhe aparece subitamente&amp;nbsp;à frente, o homem que não se reconhece. &lt;br /&gt;Eu não percebo nada. Eu não sei como é que uma pessoa escolhe o que é melhor para a sua vida. Esta coisa que sinto é um mistério, mas vocês nem isso chegarão a saber.&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;Por isso, Pai, não chores - eu gosto de ti. Tu esforçaste-te mais do que ninguém para seres o que eu esperava. Eu vejo um campo verde sem fim e uma bola de futebol salta entre nós os dois - nós damos grandes chutos, agora que as tuas pernas estão boas outra vez. A chuva vai lavar tudo, Pai, e eu queria ajoelhar-me diante de ti e chorar estas coisas todas cá para fora.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109026084569445932?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109026084569445932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109026084569445932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/minha-famlia.html' title='Minha família'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109008729054640320</id><published>2004-07-17T18:44:00.000+01:00</published><updated>2004-07-17T19:01:30.546+01:00</updated><title type='text'>Madrugada (3/3)</title><content type='html'>Quando acordo está uma mulher velha, nua, de cabelos muito longos, num dos cantos do meu quarto. Ela balança ininterruptamente o seu corpo&amp;nbsp;deformado como se estivesse a embalar uma criança que não lhe pertence - uma criança que cresceu e se foi embora.&lt;br /&gt;Passam-se vários minutos de silêncio, durante os quais eu&amp;nbsp;evito olhar para os buracos sangrentos&amp;nbsp;na sua cara, os sítios onde&amp;nbsp;um dia foram os seus olhos.&lt;br /&gt;Depois ela fala.&lt;br /&gt;'O que essa rapariga te fez...', diz ela, '...não é assim tão mau'.&lt;br /&gt;E eu estou a agarrar a minha cabeça e a chorar baixinho, porque a voz dela é demasiado horrível:&lt;br /&gt;'Sabes? Há&amp;nbsp;muita coisa a passar-se enquanto dormes'.&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109008729054640320?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109008729054640320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109008729054640320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/madrugada-33.html' title='Madrugada (3/3)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-109000266954527026</id><published>2004-07-16T19:21:00.000+01:00</published><updated>2004-07-17T19:03:56.066+01:00</updated><title type='text'>Madrugada (2/3)</title><content type='html'>Quando acordo está uma gaivota parada no centro do quarto. Depois de eu abrir os olhos ela começa a mover-se lentamente. Penso: velociraptores. &lt;br /&gt;Sento-me na cama sem dizer nada e espero. &lt;br /&gt;"Demoraste. Demoraste", diz ela. "Tens demorado". &lt;br /&gt;E então ela explode,&amp;nbsp;e eu sou projectado para trás, e tudo no meu quarto é o seu sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-109000266954527026?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109000266954527026'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/109000266954527026'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/madrugada-23.html' title='Madrugada (2/3)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108991689060352898</id><published>2004-07-15T19:38:00.000+01:00</published><updated>2004-07-15T23:09:36.810+01:00</updated><title type='text'>Madrugada (1/3)</title><content type='html'>Quando acordo está uma mosca do tamanho de um homem, em pé, junto a um canto do meu quarto. &lt;br /&gt;As suas asas batem levemente, por momentos, depois de eu abrir os olhos. &lt;br /&gt;"Estava à espera que acordasses", diz ela. &lt;br /&gt;E com um silvo lança-se sobre mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108991689060352898?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108991689060352898'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108991689060352898'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/madrugada-13.html' title='Madrugada (1/3)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108988287646668560</id><published>2004-07-15T10:14:00.000+01:00</published><updated>2004-07-15T10:21:22.256+01:00</updated><title type='text'>Fotografias de mim</title><content type='html'>Na rua em frente de mim dezenas de crianças tentam chamar a atenção dos pais que olham para o mar, para o mar que cresce, e as crianças puxam as mangas dos pais e só querem ser felizes, a sua vida está mesmo agora a começar, e a banda filarmónica começa a tocar de novo 'A Whiter Shade of Pale' mas desta vez alguém acompanha a música assobiando muito perto de mim - e depressa o assobio deixa de acompanhar e muda gradualmente para algo que se parece o 'Imagine' e eu estou a olhar para raparigas demasiado bêbadas, demasiado novas, estou a pensar que aquela história da separação entre o Ben Affleck e a Jennifer Lopez nunca chegou a ser bem explicada. Esta fotografia é tirada de fora, junto à zona de rebentação na praia negra, coberta de pedras, e a lente faz zoom até à minha cara e eu estou a morder levemente a língua. Barulho de crianças lentamente desliza para choro desapontado de crianças. Crianças sentem pontadas de solidão e eu mordo a minha língua, fazendo-a deslizar entre as linhas dos dentes, e atrás de mim arroz branco cozinha-se sozinho, e eu vou comê-lo numa malga com pauzinhos, sentado no chão do meu quarto. Estou em pé, encostado junto à enorme janela que dá para o mar. Estou a tomar uma decisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'Colony' de Joy Division nos meus auscultadores e eu estou sentado no meio de um relvado, e o sol cai em cima de mim e eu fecho os olhos e viro a minha cara para o sol, e do meu cotovelo escorre sangue e eu não gosto lá muito de Joy Division. Não penso em nada de especial, penso no jogo de futebol que acabei de jogar, penso no cotovelo que sangra, penso em deixar o sol entrar dentro de mim, esse tipo de coisas. À minha frente Panticelyn, o sítio onde te dão pontapés na porta todas as noites se não falares galês. Alguém com uma pressão de ar passa e eu dou por mim a pensar em esquilos, depois em ratazanas do tamanho de vacas deslizando lentamente em relvados como este em que estou sentado. O fotógrafo, indeciso sobre o plano, vai dando círculos em redor de mim mas eu não o vejo porque tenho a cabeça inclinada para trás e o sol entra pelos meus poros e no final a fotografia é tirada de longe, apanhando uma parte da fachada de Panticelyn e alguém com uma pressão de ar atrás de uma árvore a fazer de conta que vai disparar sobre mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cemitério de crianças eu sento-me num banco num dia cinzento e como batatas fritas de um saco de papel, e já estou farto de ler inscrições em tumbas e penso nos Smiths. As gaivotas decidiram subitamente que algo está errado e estão a voar todas em direcção a um sítio qualquer, alguém passeia um cão, alguém procura algo no cemitério, e algumas tumbas foram danificadas na construção de um parque de estacionamento da paróquia e eu estou a pensar que isso não está certo. De onde eu estou vejo o memorial aos mortos da Grande Guerra, depois um galgo triste a arrastar a coleira, depois a namorada de um amigo que passeia junto ao mar talvez farta de viver com ele, e passa-me pela cabeça que o Brad Pitt deve ser uma boa pessoa porque gosta de Nick Drake. Esta foto é simples. O fotógrafo diz-me em surdina 'just act cool' e apanha-me num plano frontal sentado num banco cercado de tumbas, e eu estou a lutar com o saco de batatas fritas, talvez esforçando-me demasiado enquanto um fio de óleo escorre lentamente de um dos cantos da minha boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de uma caminhada de meia hora pelas rochas cobertas de algas que a maré baixa revelou, eu estou parado a ver uma pequena colónia de gaivotas, os meus pés enterrados na areia, o mar à minha frente pulsando sobre as rochas em pequenas ondas que são como afagos. Cercado de falésias e pedras eu oiço Red House Painters, ou então oiço Sun Kil Moon, ou talvez seja Bruce Springsteen ou mesmo Sigur Rós. Algumas gaivotas foram destacadas para me vigiar e proteger a colónia, elas espreitam-me do topo das ravinas nesta praia pequena, escondida, secreta, e há grutas por todo o lado e por momentos esta praia é minha e eu sou desta praia. Penso que se partir a perna por aqui morro, depois um casal de pescadores passa, verificando com pequenas redes as poças que a maré baixa deixou. Estão em busca daquelas coisas que os pescadores buscam. Para esta cena o fotógrafo opta por um grande plano da minha cara: ele aproxima-se e eu estou a sentir o espírito desta praia a entrar em mim, talvez os fantasmas que aqui se afogaram, e eu estou a sorrir porque estou feliz. Para a posteridade fica exactamente este meu sorriso, e os meus olhos fechados, e as paredes de rocha à minha volta, tudo cinzento, tudo pardo. E a fotografia apanha ainda uma gaivota que se precipita para talvez me arrancar o nariz, mas no último momento ela reconsidera e voa para longe e a impressão que dá ao observador desta foto é que a gaivota se está a debruçar sobre mim para me beijar a face.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no meu quarto e acabei de escrever um post sobre os meus tempos do basquetebol no Fundão. Está escuro e este post deixou-me com saudades de todos aqueles amigos que eu abandonei - estou sentado em frente à janela abraçando os meus joelhos, penso neles e no terror que me levou a fugir, penso que 'Jesus to a Child' de George Michael é uma música lindíssima. E uma bola quente, peluda, negra começa a crescer no meu peito e eu não sei dizer se é tristeza ou alegria porque ao ouvir aquela música tão bonita eu estou a sorrir e a sentir saudades. Olho para a minha rua vazia à noite, sinto-me longe. Esta é uma sequência de fotografias e a equipa necessitou de alugar um helicóptero para a efectuar, ele começa a pairar junto à minha janela e vai-se afastando, eu sentado sem me mexer e a casa a ficar mais e mais pequena, o telhado e as gaivotas a voar em volta ficam em algumas das fotografias e é tudo muito intenso e o George Michael encaminha a música para o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E na ilha de Rinca, na Indonésia, a cabeça de um dragão do Komodo emerge lentamente da selva esparsa, e o dia está quente, quente, e os dragões do Komodo chegam a ter um tamanho de três metros e correm com a velocidade de um cão (embora em pequenas distâncias). Os dentes deste dragão assemelham-se aos dos tubarões, e ele tem tantas bactérias na boca que, apesar de a sua saliva não ser venenosa, uma mordedura pode tornar-se fatal. As suas garras são, igualmente, temíveis, e este dragão, cuja língua é um poderoso órgão olfactivo que pode detectar presas feridas a milhas de distância, tem os seus olhos postos num pequeno turista alemão com óculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra fotografia: mais um fim de dia neste verão cinzento e as minhas roupas estão amontoadas descuidadamente sobre as pedras negras da praia. Duas ou três gaivotas voam à minha volta, protegendo as crias que nadam de forma patusca a alguns metros de mim. A praia é só minha, minha, e eu flutuo apenas, os braços abertos, e começa a chover e quando eu me deixo deslizar para debaixo de água vejo as patitas das gaivotas-bébé a dar e dar, vejo as gotas de chuva a bater com alguma força na superfície. Não me perguntem como mas estou a ouvir 'Gentle Moon', da nova banda de Mark Kozelek. Quando volto à superfície a chuva é mais intensa e eu estou nu, e água com sal escorre-me pela cara e eu estou nu, e não me perguntem como mas desta vez sou eu que tenho a máquina fotográfica nas mãos. Gaivotas voando à minha volta parecem compreender o que está prestes a acontecer e afastam-se, e quando eu olho para a margem para além da cortina de chuva vejo algo que nunca vi, vejo algo estranhamente familiar. Uma presença cujos contornos são indefinidos, e essa presença está junto às roupas que deixei na margem. Suspiro, bebo gotas de água com sal: um anjo está junto à água em que estou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108988287646668560?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108988287646668560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108988287646668560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/fotografias-de-mim_108988287646668560.html' title='Fotografias de mim'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108975188015307210</id><published>2004-07-13T20:50:00.000+01:00</published><updated>2004-07-13T21:59:08.453+01:00</updated><title type='text'>Diários do Basquetebol</title><content type='html'>Estou na Covilhã. Catiqui está a tentar convencer-me, a mim e ao JM, que a rapariga na mesa lá ao fundo é uma prostituta. Miguel, a estrela do CDC (Clube Desportivo da Covilhã) fornece-nos um conjunto de provas: Catiqui inclusive já despejou um balde de água em cima dela, quando ela satisfazia um cliente debaixo da sua janela à noite. Eu estou a pensar que a Covilhã deve ser mesmo muito desenvolvida, para ter pessoas pretas como o Catiqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na Guarda. JM recebe a quinta falta e é expulso. Eu estou sentado no banco a assistir àquilo. JM resmunga com o árbitro e chuta uma bola e sai para o balneário a chorar (os cabelos loiros, a cara de menino, eu adorava-o). Nesse dia jogamos tão mal que eu, com nove pontos, me torno o melhor marcador da equipa. A Associação Desportiva da Guarda dá-nos lanche mas eu nessa altura não gosto de sandes de fiambre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou em Castelo Branco. Perdemos escandalosamente um jogo contra uma equipa manifestamente inferior a nós. Não conseguíamos ver bem as linhas porque estavam pintadas numa tinta clara, e por isso estávamos sempre a sair de campo com a bola controlada. No balneário ao lado a equipa da casa festeja. Daniel salta e parte um dos vidros que separam os dois balneários. Os ruídos dos festejos param subitamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no Fundão. Recebo a bola de Maia (aka "Palanca Negra", aka "Pérola do Zêzere") e marco um dos pontos da vitória contra a Covilhã. O pavilhão salta em uníssono e festeja o meu ponto - eu não sabia que estas coisas podiam acontecer na vida real. Durante essa semana, o treinador ("Furra") tinha iniciado um dos treinos com um minuto de silêncio. Não conseguimos controlar o riso. Depois viémos a saber que esse minuto de silêncio se devia à morte do irmão de Dionísio ("Ferrari"), o nosso poste pesado, bruto e concretizador, um cigano com cabelos compridos, um pouco como o Joe o Índio dos desenhos animados do Tom Sawyer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou num parque de estacionamento de um hipermercado à entrada da Covilhã. Joga-se um torneio de streetball. Lesiono-me no primeiro minuto e tenho de jogar o resto do torneio ao pé-coxinho - ainda assim, chegamos às meias-finais. A nossa equipa chama-se "Los Esporritos", depois adulterada para "Sportitos" pelo organizador da prova. Durante essa tarde apanho um escaldão, fico desidratado, marco um ou dois pontos de belo efeito, levo um bloqueio violentíssimo do mítico "Macaco" (jogador do Tortosendo), chateio-me com JM devido a pensos rápidos, ganho uma T-shirt.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na Covilhã outra vez. Sou a arma secreta de Repolho, o seleccionador distrital. Jogar na selecção é interessante porque tens de passar a bola aos mesmos gajos que tentas esmagar no resto do ano. Mais interessante ainda, tens de os abraçar quando marcas pontos, e de os ver nus quando estás a tomar banho. Dão-me o número 10 porque Diogo ("Monguito") ficou com o meu preferido 8. Ainda assim vê-se que Repolho percebe de basquetebol. Decide apostar em mim para marcar o endiabrado base de Santarém. Apenas aguento dez minutos antes de cair de exaustão e pedir susbtituição, mas durante esse tempo o filho da mãe não marca um ponto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na Guarda outra vez. Flores ("Flowers"), o treinador interino, esquece-se que eu estou no banco. Quando lhe vou perguntar se vou jogar ou não diz-me "Ai estás aqui?". Jogo cerca de quarenta segundos. A estrela do desafio é Jorge ("Vitesse"), um pequeno grande jogador que soube remar contra a maré. A viagem de volta ao Fundão é triste. Se levantarmos os tapetes da carrinha podemos ver o asfalto. Se não segurarmos a carrinha com uns quantos paralelos depois de a estacionar, nada nos garante que ela lá continue quando voltarmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no Fundão outra vez. Miranda ("Pauliteiro") é um treinador que não acredita em mim e passo a época quase toda no banco. Pela segunda vez na história desta 'golden generation' do basket fundanense, estamos prestes a ganhar à Covilhã. Ricardo ("Galinha") tenta um triplo, falha, e Miranda profere o maior e mais intenso chorrilho de asneiras que ouvi em toda a minha vida. As raparigas do basket feminino estão todas na bancada a ver-nos, provavelmente a escolher namorados. Eu estou apenas no banco. Nos balneários tenho de lamber a sola da sapatilha de Adriano, devido a uma aposta parva que fiz durante o calor do jogo. Quando me olho no espelho, todos à minha volta a festejar no meio do vapor dos duches, a minha língua está verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na Covilhã, quer dizer, estou na estação do Tortosendo à espera do comboio. Estamos sentados ao sol, a estação deserta. Comemos sandes e bebemos sumos de pacote. Pomos moedas na linha do comboio. JM está por lá, também Maia, também Marco ("Rato"). Marco inventou-me duas alcunhas, e se forem ao Fundão elas ainda devem soar familiares a alguns ouvidos: "Balão" e "Esgalhado". Durante um ano chamavam-me habitualmente Balão, uma alcunha que nunca percebi mas que não discutia porque a anterior era "Coninhas" (graças aos meus primos mais velhos). O nome "Esgalhado" vem do grande jogador dos sub-23 João Esgalhado, um portento do basket que marcava que se fartava e fazia sexo com a namorada nos balneários. Eu não tinha nada a ver com o João Esgalhado, mas ele impressionava-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na Covilhã, agora sim, e Repolho lança-me no jogo para evitar uma derrota por mais de cem pontos contra a selecção da Madeira. Faço uma falta feia, sou avisado pelo árbitro. Mais tarde recebo uma medalha de melhor marcador de lances livres do torneio. Os tempos da selecção foram muito bons. Catiqui acabou por ser afastado, mas foi bom jogar com os covilhanenses Miguel, Eduardo (tinha montes de pelos nas pernas) e Adónis (não é alcunha). No caminho para o Fundão a carrinha mais estafada das Beiras pára para deixar Diogo "Monguito" e Rui "Monga" no Tortosendo ("Mongatótólândia").&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no Fundão, por fim. Quer dizer, estou no início. É o meu primeiro ano no basket e Bento, um jogador carismático e que veste uma camisola oficial dos Lakers, espera por mim no balneário para me dar mais uma sova. A única coisa que me impede de ser obliterado pela sua fúria incompreensível é o facto de ser primo de duas lendas do basket do Fundão: Mokas e Mini-mokas. E eu nem sei como continuava a ir duas, três vezes por semana aos treinos, com todas aquelas coisas menos boas que me lá esperavam. Talvez tenha sido o JM, que eu adorava. Talvez tenha sido Repolho, que na altura já confiava em mim. Ou talvez tenha sido a premonição de que eu e aquele clube um dia acabaríamos por, de uma forma estranha, fazer parte da história um do outro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108975188015307210?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108975188015307210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108975188015307210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/dirios-do-basquetebol.html' title='Diários do Basquetebol'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108955733186947037</id><published>2004-07-11T14:58:00.000+01:00</published><updated>2004-07-11T19:24:10.066+01:00</updated><title type='text'>Lx</title><content type='html'>Ela costumava aparecer em minha casa aos domingos de manhã. Trazia sacos de roupa suja. Isso foi quando eu ainda vivia em Benfica.&lt;br /&gt;Saíamos a passear para as ruas perto do cemitério. Eu não comprava flores, comprava fruta. Sentávamo-nos nos parques de Benfica a ver os miúdos a jogar futebol e as mulheres a estender roupa. Apanhávamos sol. Falávamos alemão. Depois voltávamos para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu cozinhava um almoço, comíamos em silêncio - eu a ver as notícias na televisão, ela a olhar ora para mim ora para o prato. Depois eu lavava a loiça e ela deitava-se no sofá da sala. Descalçava-se, cortava o som à televisão. Quando eu voltava à sala, a limpar as mãos às calças de trazer por casa, ela estava em posição fetal no meu sofá a dormir. Depois eu acordava-a e ela voltava ao emprego, que nessa altura era para os lados do Parque das Nações e consistia em acompanhar turistas holandeses.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu último ano da faculdade: os meus amigos estavam ou em Paris, ou com as namoradas, ou a falar com raparigas que depois se tornavam suas namoradas. As minhas amigas estavam demasiado ocupadas a pensar em namorados (categoria abstracta). Passava dias inteiros no cinema: Cinemateca na Rua Castilho, Palácio Foz nos Restauradores, Cine-222 e Monumental no Saldanha, Biblioteca-Museu República e Resistência, Quarteto, King, Cidade Universitária, eu corria aquela merda toda. Via tudo: Frenzy (de Hitchcock), Johnny Guitar, Alexander Nevskii, Solaris (de Tarkovsky), 2001 Odisseia no Espaço, Apocalypse Now Redux - tudo o que me levasse para sítios diferentes. Via filmes indianos sem tradução, via ciclos do Woody Allen, ciclos do Stanley Kubrick. Numa sessão vi o Camacho Costa semanas antes de ele morrer. Na maior parte das sessões eu era uma das únicas cinco pessoas na sala. Normalmente escolhia os filmes mais longos, deixava-me por lá ficar no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não podia ir à faculdade devido a uns sarilhos em que nos tínhamos lá metido, coisas que metiam dinheiro e influências e das quais não quero falar agora. A Carris tinha substituído os CTT no lugar de "minha empresa pública favorita". Fartava-me de andar, visitava galerias obscuras para apresentar portfolios que não eram meus e nenhuma delas me aceitava; visitava museus e passava mais tempo na casa de banho dos museus do que propriamente a apreciar a colecção. Dava por mim no Campo de Santana, depois na Graça, depois nas ruas à volta do Castelo, depois em Campolide, depois em Campo de Ourique. A certa altura estava em frente da mesquita de S. Sebastião a ler e reler uma mensagem escrita de telemóvel que tinha recebido meses antes. Outras vezes ia parar a Santos e as ruas ainda cheiravam a cerveja, os passeios juncados de copos vazios. Cruzava para a frente e para trás a linha do comboio que separa a 24 de Julho do porto de Lisboa, o dia encaminhava-se para o fim, voltava para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sempre que telefonava os meus amigos estavam ou deprimidos ou inseguros, e eu devo ter parecido uma rocha no meio daquele temporal todo porque, não sei como, distribuía conselhos sábios para aqui e para ali - era a minha forma de dizer que estava vivo. Um dia (acho que foi o dia dos meus anos) entrei na Igreja da Madalena e depois de algum tempo pareceu-me que as luzes tinham piscado e eu pensei que Deus me estava a tentar dizer algo. Nesse dia, à medida que a manhã avançava, eu ia caminhando - Sé, São Vicente, Panteão, Alfama (onde um dia tínhamos encontrado um caixote cheio de fotografias antigas), Sta. Apolónia, e estava farto outra vez e voltava para casa. Estava sempre a voltar para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo que quando ela me aparecia em casa nos domingos de manhã eu não tinha muito para lhe dizer e por isso íamos passear em Benfica - as ruas do Lobo Antunes, as primeiras páginas dos jornais desportivos, as flores junto ao cemitério que eu não comprava, as oliveiras calcinadas nos jardins, destroços de ferro, eucaliptos, casas e famílias, os passeios cobertos de merda. Noutras alturas, eu estava obcecado com fotografias e levava-a aos mercados sujos e a pequenos monumentos suburbanos de segunda, e por vezes à noite eu ia para as ruas vazias de Benfica e a polícia vinha e ameaçava-me a mim e ao modelo, despido, no chão, que eu fotografava com um misto de medo e gula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por isso não admira que Lisboa esteja povoada de fantasmas da minha autoria, pessoas meio mortas meio vivas que ora preservo ora enterro, pessoas que falam muitas línguas e que parece que nunca me ouvem, seres, entidades, ideias apenas que eu sustentava e carregava às costas naquelas manhãs e tardes em que lentamente aprendia a olhar. A Câmara Municipal construia jardins e abria espaços e eu, obediente, ia ocupando, dando uso, gastando e gastando-me. E era incrível a rapidez com que me esquecia dos passos que dava, incrível a tentação de repetir os mesmos caminhos uma e outra vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108955733186947037?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108955733186947037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108955733186947037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/lx.html' title='Lx'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108941390552186965</id><published>2004-07-09T23:56:00.000+01:00</published><updated>2004-07-09T23:58:25.520+01:00</updated><title type='text'>Rio das Pérolas (V)</title><content type='html'>O Milhafre regressa dos Apalaches. Três raparigas passam em frente à porta do hotel e alguém do sexo masculino faz um comentário – uma ri-se, a outra não, a outra não ouviu. No quarto ao lado do meu ela está a tomar um duche nocturno e talvez a pensar em mim. No prédio em frente pelo menos duas mulheres pensam em como seria “giro” se de repente os testículos dos seus maridos caíssem na sanita. Alguém no andar de baixo tenta lamber o seu cotovelo esquerdo, e ao seu lado uma mulher com uma máscara de látex muda de canal cada três segundos. O Milhafre prepara cuidadosamente a cama para dormir. Um empregado do hotel pensa distraidamente se alguém notaria se ele urinasse na sopa de amanhã. Uma empregada de hotel pensa distraidamente se alguém notaria se ela amanhã não aparecesse para trabalhar, e quanto tempo tardariam a encontrar o seu corpo sangrado na banheira. Pelo menos dez pares de namorados, em quartos separados, fazem cócegas uns aos outros e riem-se muito e depois param, ficando silenciosos. A equipa de futebol de alguém ganha, a equipa de futebol de alguém perde. Alguém vasculha febrilmente sacos de compras, soluçando, dizendo asneiras em chinês. Alguém fura preservativos com um alfinete. No meu quarto, o Milhafre empijamado ronca. Eu estou a desfazer febrilmente um saco de chá, numa mesa sobre tudo isto, as luzes da cidade e aquelas casas e pessoas todas constituindo muito mais do que alguma vez poderei compreender. Considero por momentos masturbar-me, reconsidero, olho para o quarto, fecho os olhos. Cruzo os braços, arrepiado, e suspiro. Não vou dormir, mas também não vou fazer mais nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108941390552186965?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941390552186965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941390552186965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/rio-das-prolas-v.html' title='Rio das Pérolas (V)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108941377036194108</id><published>2004-07-09T23:54:00.000+01:00</published><updated>2004-07-10T00:09:58.410+01:00</updated><title type='text'>Rio das Pérolas (IV)</title><content type='html'>E eu estou outra vez deitado na cama e ela está sentada ao meu lado e o Milhafre está no seu ninho nos Apalaches a dar minhocas mastigadas aos milhafres-bébés, e eu andei a tomar demasiadas coisas ao mesmo tempo e ela lê umas coisas que eu escrevi e eu quero adormecer abraçado a ela. Quando ela sai eu fico subitamente desperto e olho pela janela para as luzes da cidade durante quinze minutos-quarenta segundos, depois ponho umas gotas nos olhos, depois troco de cuecas três vezes, depois faço e desfaço as malas. Durante este período, em que basicamente estou a ponderar se vale a pena ter fé na permanência do que é genuinamente humano, uma série de coisas acontece no hotel e à sua volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108941377036194108?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941377036194108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941377036194108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/rio-das-prolas-iv.html' title='Rio das Pérolas (IV)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108941369155313975</id><published>2004-07-09T23:52:00.000+01:00</published><updated>2004-07-09T23:54:51.553+01:00</updated><title type='text'>Rio das Pérolas (III)</title><content type='html'>E eu estava seriamente em jet-lag e só queria fugir do calor e dia sim dia não tomava Halcion e mais umas coisas que agora não vou dizer, o que me fazia sonhar com macacos a dançar e me provocava ejaculações nocturnas. Acordava demasiado cedo com uma robot a falar em chinês mecanicamente, e eu tentava inutilmente falar com ela e a certa altura estava a gritar-lhe para se calar e só depois me apercebia que apenas tinha de poisar o auscultador. Descia ao jardim para ver as raparigas fazer tai-chi e tomava notas mentais dos movimentos do tai-chi, que normalmente se apagavam dez segundos depois. Bebia águas com gás enquanto as raparigas faziam tai-chi, depois voltava para o lobby do hotel e adormecia num sofá. Bebia outras coisas estranhas quando ninguém estava a ver. Máquinas fotográficas provocavam em mim a reacção instintiva de mostrar o dedo do meio. No McDonald’s os sundaes tinham amendoins.&lt;br /&gt;E passava muito tempo sozinho e alguém se preocupava comigo e alguém me vinha sempre falar de Nietzsche e o meu companheiro de quarto chamava-se Milhafre – as pestanas demasiado grandes de quem dorme demasiado. &lt;br /&gt;Em Hong-Kong andei à procura de lésbicas, não sei porquê; andei também à procura de uma máquina fotográfica. Em Hong-Kong experimentei misturar-me com os ingleses e fechar os olhos e tentar imaginar-me em casa. Não sei porquê. Comia muito, ia à casa de banho a correr mas quase nunca chegava a vomitar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108941369155313975?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941369155313975'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941369155313975'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/rio-das-prolas-iii.html' title='Rio das Pérolas (III)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108941347441586066</id><published>2004-07-09T23:45:00.000+01:00</published><updated>2004-07-09T23:51:14.416+01:00</updated><title type='text'>Rio das Pérolas (II)</title><content type='html'>Eu estou deitado na cama e o meu quarto (outro quarto) está cheio de gente e eu espreito e ela está deitada no chão ao lado da cama, a olhar-me, a sorrir-me, o pijama vestido, e ela mexe no cabelo – e eu amo esta recordação. Depois eu estou no lobby do hotel e não me lembro de mais nada a não ser de toda aquela gente à minha volta e eu sem perceber. E no Rio das Pérolas ninguém falava a nossa língua, ninguém gostava de nós, mas mesmo assim vivíamos como reis – pelo menos é assim que ela se lembra porque do Rio das Pérolas eu pouco mais recordo do que a água negra, os bichos estranhos que imaginava no fundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108941347441586066?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941347441586066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941347441586066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/rio-das-prolas-ii_108941347441586066.html' title='Rio das Pérolas (II)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108941308160818101</id><published>2004-07-09T23:42:00.000+01:00</published><updated>2004-07-09T23:44:41.606+01:00</updated><title type='text'>Rio das Pérolas (I)</title><content type='html'>Eu segurava a mão dela junto ao Rio das Pérolas, e era noite ou pelo menos assim me lembro e eu segurava a mão dela - e a água estava quente, sem ondas. Saltávamos rochedos.&lt;br /&gt;E pelo menos é assim que ela se lembra porque do Rio das Pérolas eu só guardo a escuridão, a água parda e quente, e a vaga memória de um toque. Um afago. O que poderia ser a mão dela, ou talvez outra coisa.&lt;br /&gt;Eu estava cansado e não queria falar com ninguém. E, no Rio das Pérolas, apenas os olhos dela (ou o que eles significavam) serviam para me manter desperto. E mesmo assim não era suficiente para me aperceber de nada. Tudo me escapava, não me sentia vivo.&lt;br /&gt;Os olhos dela em Lisboa, depois os olhos dela num avião qualquer, eu a perder os olhos dela num quarto de hotel em Macau enquanto ela me deixava deitado na cama a torcer-me de pena. E juro que, se pudesse guardar para sempre o que os olhos dela significavam para mim, eu não necessitaria de procurar mais, e poderia enfim descansar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108941308160818101?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941308160818101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108941308160818101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/rio-das-prolas-i.html' title='Rio das Pérolas (I)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108930502328939908</id><published>2004-07-08T16:42:00.000+01:00</published><updated>2004-07-08T23:51:43.016+01:00</updated><title type='text'>Córdoba e eu</title><content type='html'>De onde eu vejo, o deserto parece não ter fim. Mas eu vejo o deserto apenas da janela fumada do comboio e acordo sobressaltado com uma voz a sussurrar-me ao ouvido 'Descontrai, é apenas a Andaluzia', e não consigo descobrir quem me disse isto porque a carruagem não tem ninguém a não ser eu - jornais desfiados espalhados pelo chão e o ar-condicionado fora de controlo porque estou a tremer e vapor sai da minha boca quando respiro. E lá fora apenas os montes da Andaluzia e aquele deserto e as árvores calcinadas, a uma hora de Córdoba, e tudo na paisagem está desfocado pelas ondas de calor que emergem do chão e eu estou a pensar em choque térmico, estou a pensar na cara suada e barbuda de um ferreiro do bazaar de Udaipur, depois estou a pensar em corpos nus cobertos de cachecóis de muitas cores. Estou a pensar em camisas Gap, em morcegos moribundos, no David Beckham, e basicamente estou a deslizar para dentro e fora de sonhos e a quinze minutos de Córdoba eu começo a sentir um ligeiro ataque de pânico e, cravando as unhas nos abdominais tentando não sei porquê segurar-me, eu começo a rever mentalmente o que se vai passar nos próximos seis dias e meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de dois dias, seis horas e treze minutos eu vou adquirir mais um vodka numa taberna de uma rua escondida numa cidade esquecida a duas horas de Córdoba, e vou pensar distraídamente porque raio estou a beber vodka numa taberna.&lt;br /&gt;Dentro de dezasseis horas e quarenta minutos eu vou espreitar sobre um muro de um terraço e vou ver um cão parecido com um feto gordo a tentar matar-se, olhando-me pelo canto do olho e odiando-me, e eu vou provocar aquele cão e odiá-lo de volta e incitá-lo a afogar-se na corda com mais força.&lt;br /&gt;Dentro de três dias, três horas e trinta e quatro minutos eu vou estar num jardim em Priego de Córdoba a olhar o deserto e as árvores que começam a descansar de mais um dia de fogo, e vou cobrir uma folha branca com vários tons de castanho e com riscos furiosos de preto, e vou basicamente amuar enquanto ela desenha qualquer coisa equilibrada e saudável a trinta metros de mim.&lt;br /&gt;Dentro de três horas e três minutos eu vou estar deitado na cama, cheio de vontade de mudar de roupa, enquanto ela me tira fotografias e, na rua, uma procissão interminável de lambretas passa.&lt;br /&gt;Dentro de vinte horas eu estou deitado no sofá em jejum a ler um livro sobre dragões no qual não me consigo concentrar, e depois de adormecer outra vez e sonhar que estou dentro do livro 'Glamorama' de Bret Easton Ellis, depois de acordar suado e em pânico oitenta minutos depois ela está sentada em cima de mim e eu estou a tentar tirar-lhe o soutien, beijar-lhe os mamilos frios.&lt;br /&gt;Dentro de dois dias, oito horas e vinte e três minutos e dentro de três dias, sete horas e dezasseis minutos nós vamos tentar fazer amor, o que não resulta porque eu estou demasiado bêbado e ela "não pode", respectivamente. Antes destas ocorrências nós vamos estar a comer coxas de rã num restaurante, apanhando o ar fresco da noite, junto de gente normal.&lt;br /&gt;Dentro de quatro dias, duas horas e um minuto, na esplanada do Café Rigolet em Málaga, um súbito estampido vai soar numa mochila Eastpak, seguido de uma explosão rápida e avassaladora. Uma rapariga japonesa, os tímpanos rebentados e o choque na cara cravejada de vidros, vai tentar lidar simultaneamente com dois factos: ambos os seus braços foram arrancados à altura do cotovelo e tudo o que resta do seu noivo é um torso, um braço e duas pernas ainda sentadas na cadeira à sua frente. Depois de um silêncio incrédulo de alguns segundos, gritos vão começar num raio de cinquenta metros à volta da cratera onde costumava ser o Café Rigolet em Málaga.&lt;br /&gt;Dentro de quatro dias, uma hora e quarenta e oito minutos eu vou estar na abertura de uma exposição de arte, ensonado e no geral fora de mim, e vou passar os seguintes cinquenta e três minutos a ver desenhos de mulheres nos quais os órgãos genitais foram marcados a vermelho. Canapés vão ser fornecidos, gente de Madrid vai lá estar, boleias vão ser pedidas e concedidas.&lt;br /&gt;Dentro de quatro dias, vinte horas e não sei quantos minutos eu vou estar no terminal de comboios de Córdoba a falar ao telefone com a minha mãe. Vou tentar lembrar-me das minhas deixas enquanto olho distraídamente para: a) uma fatia de bolo de chocolate a derreter numa mesa da cafetaria, b) ela a passear em frente a uma montra, subitamente bela, c) alguém a segurar por uma trela o que me parece ser um lobo.&lt;br /&gt;Dentro de cinco dias, não sei quantas horas e não sei quantos minutos eu vou acompanhá-la enquanto ela experimenta vestidos de noite, e vou procurar em várias lojas toiros de plástico e vou ver quinze variedades de toiros de plástico e não vou comprar nenhuma, acabando por me decidir por anjos de plástico. A empresa de catering que apoia as filmagens vai fornecer torradas e nós vamos comê-las com tomate e azeite. Arte vai continuar a ser vista, apreciada, comentada.&lt;br /&gt;Dentro de cinco dias, três horas e quinze minutos, depois de uma complexa sequência de autorizações, mensagens de código e sinais, um argelino a correr vai ser abatido com uma espingarda sniper Tippmann A-5, num bairro nos arredores de Barcelona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto. Dentro de dezasseis minutos eu vou aproximar-me da porta do comboio e vou olhar em volta e durante alguns segundos vou perder o controlo sobre os meus pensamentos e vou olhar para trás para o realizador (com o qual tive uma discussão acalorada no bar do comboio, à saída de Madrid) e ele vai fazer um movimento impaciente com a mão, querendo obviamente dizer com isso que não posso ficar ali parado e tenho de seguir, seguir, seguir.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108930502328939908?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108930502328939908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108930502328939908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/crdoba-e-eu.html' title='Córdoba e eu'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108915154833404424</id><published>2004-07-06T22:20:00.000+01:00</published><updated>2004-07-07T19:02:35.020+01:00</updated><title type='text'>Hoje</title><content type='html'>Estou quase para ir lá fora, hoje, ao anoitecer, quando o sol estende uma passadeira dourada desde o sítio onde me encontro até ao fim do mar, quando de repente começa a chover levemente e, mesmo junto à minha janela, uma banda filarmónica toca 'A Whiter Shade of Pale'. Estive quase a ir lá para fora, dizia, e talvez atravessar na praia a pequena barreira de algas, povoadas por milhares de moscas-da-areia, e ficar a um metro das ondas cinzentas, sentado, agarrado aos meus joelhos, a ouvir Housemartins.&lt;br /&gt;Em vez disso, depois de acabar o meu jantar solitário na cozinha semi-escura, deixei-me ficar, encostado ao frigorífico, e a pensar se havia de lavar a loiça ou ir visitar a minha vizinha das macumbas. Acabei por fazer as duas coisas - mas antes, ainda sentado, o sol prestes a desistir de mim e de nós, lembrei-me subitamente de um poema, e em trinta segundos acabei por compô-lo totalmente - coisa que costumava ser normal em mim e que já não fazia há muito tempo.&lt;br /&gt;Que pretensioso, dizer que se escreve poesia. Os meus poemas nunca me deram trabalho nenhum - por isso eu não sou um poeta: porque não me dói. Só se é mãe se se tem um parto. Os poemas, ao contrário, passam por mim, vêm de outros sítios, juntam-se ocasionalmente e entrelaçam-se na minha mente e depois eu escrevo-os - e chamo-os meus, e digo que sou o autor. Mas os poemas são as palavras que eu ouvi a todas as pessoas por quem passei, os poemas são mais do vento, e mais dessas pessoas, do que propriamente da minha mão.&lt;br /&gt;Ainda assim, aqui está. Já há muito que não escrevia, dizia, mas alguns versos deste poema andavam a pairar na minha mente há muito tempo, como passarinhos que não encontram o seu parceiro. Talvez daqui para a frente possa recomeçar a escrever o que, um pouco ingenuamente, chamo poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este irá juntar-se aos vinte e tal que já escrevi para o meu sexto(!) "livro"(!) de poesia. Para os que se interessam, vai chamar-se "A Minha Vida Amorosa, pt.2" - tem estado parado ultimamente. Não sei porquê, não me tem surgido aquele impulso súbito e momentâneo de escrever poemas - aquela espécie de leveza da alma. Tenho a certeza que alguns de vocês perceberão. Dei recentemente uma vista de olhos ao que já está escrito e, até agora, não me parece que este Vida Amorosa pt.2 tenha muita qualidade: a maior parte dos poemas é sobre mães adolescentes; há uns quantos sobre japonesas em bibliotecas; há um sobre o Michael Corleone e outro sobre as Bangles; umas quantas aberrações escritas em Paris; um projecto de letra para os Mão Morta (como é natural, esta versa sobre mães adolescentes e raparigas que perdem a virgindade demasiado cedo). Alguns esclarecimentos: 1) nunca houve "A Minha Vida Amorosa, pt. 1"; 2) estes "livros" vão para a gaveta e, uma vez terminados, nunca mais ninguém os volta a ler, nem eu; 3) reafirmo que não percebo nada de poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, aqui vai o poema. E boa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu estava enganado. &lt;br /&gt;Eu cheguei até ti com estas mãos a cheirar a maçãs,&lt;br /&gt;E eu estava enganado. Eu não posso &lt;br /&gt;ser a rainha, a filha pródiga regressando a casa depois da guerra, &lt;br /&gt;de volta a todos os rapazes que a amam e deixam de amar.&lt;br /&gt;E não posso, "Não podes chegar aqui depois deste tempo todo&lt;br /&gt;e querer que tudo continue na mesma". &lt;br /&gt;Mas não há problema, não há mesmo nada de mal:&lt;br /&gt;eu estava apenas enganado.&lt;br /&gt;E ninguém está prestes a gritar.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108915154833404424?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108915154833404424'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108915154833404424'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/hoje.html' title='Hoje'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108906915224233603</id><published>2004-07-05T22:26:00.000+01:00</published><updated>2004-07-06T00:12:32.243+01:00</updated><title type='text'>Companheira</title><content type='html'>Às vezes penso que deves ser a pessoa mais bondosa do mundo por fazeres estas coisas, porque eu sei que tu pensas que estas coisas que fazes são o melhor para mim - ainda que eu o não admita, ainda que eu pense que estás apenas a ser má. E nesses momentos em que a tua suposta bondade me atinge e me maravilha, eu lembro-me das tuas provações e do sofrimento que eu penso que deves sentir, um sofrimento agudizado pelo facto de teres de o calar - pelo bem de nós dois. Eu sei.&lt;br /&gt;Eu estava a morrer naquela cama em Paris, eu sentia que a minha alma me estava a abandonar, sentia-me despossuído - e tu sabias isso, e quanto eu te disse que tu tinhas sempre razão tu fizeste uma longa pausa e depois disseste-me apenas que nem sempre, nem sempre tinhas razão. E eu sei que estavas de olhos abertos no silêncio, no escuro, de costas para mim, e sei que estavas apenas a dizer a verdade. Provavelmente sentias que essa era a única coisa que podias dizer. E não era por não saberes mais nada, não era por seres estúpida, era porque estavas cuidadosamente a medir as palavras, pensando em mim e na minha dor, pensando no melhor para mim, pensando também em ti, claro, porque querias recomeçar a tua vida - e, aliás, a tua nova vida estava mesmo diante dos meus olhos, e eu tinha de pensar bem onde colocar os meus pés quando caminhava no teu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras vezes, eu penso que deves ser apenas má ou insensível e então eu odeio-te. Penso no legado que deixaste: um rapaz magro, entregue à Natureza, um rapaz cujas primeiras experiências foram isto, um rapaz que deixaste sem certezas, sem termos de comparação, sem maneira de saber se há algo mais do que isto. Um rapaz sem maneira de saber se carrega em si algo de errado. Um rapaz a quem não deste respostas, ou pelo menos respostas que ele pudesse compreender. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, não te posso culpar de nada, mesmo no meio destas recriminações. À luz do que tenho vindo a pensar, não há culpados. Somos todos alegres elefantes, desastrados, partindo cristais, partindo-nos uns aos outros, umas vezes bem intencionados, outras vezes apenas maus como as crianças são más - apenas porque não sabemos melhor do que isto.&lt;br /&gt;Sim, elefantes, cinzentos e de pele dura como os elefantes. Se nos doesse tanto como devia doer, estaríamos mortos já. E, segundo aquele velho provérbio swahili, 'Quer os elefantes lutem ou façam amor, é sempre a erva que sofre'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas porque se rompeu a minha armadura? Quando foi isto? É normal que tudo o que supostamente me deveria proteger me surja tão frágil, tão precário? Algum dia poderei despir por completo esta inútil armadura, esta pele de elefante, para me revelar a olhos amigos, e entre braços amigos adormecer nu, livre de todo este peso, de todos estes cuidados?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108906915224233603?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108906915224233603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108906915224233603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/companheira.html' title='Companheira'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108894139566101402</id><published>2004-07-04T11:27:00.000+01:00</published><updated>2004-07-04T18:26:59.333+01:00</updated><title type='text'>Espírito</title><content type='html'>A equipa portuguesa de futebol ganhou porque antes das partidas eu encomendava danças de voodoo a uma vizinha para que os espíritos intercedessem favoravelmente, e nas manhãs a seguir aos dias de jogo ela vinha bater à minha porta e olhava-me com uma cara sorridente dizendo: "See? It worked!" &lt;br /&gt;E nunca cheguei a saber de que se tratavam essas danças mas como o segredo era um factor imprescindível eu nunca perguntava nada, e continuava nas vésperas dos jogos a pedir-lhe que se pudesse dar um jeitinho lá com o seu voodoo seria óptimo. E por isso, mas também por não me importar muito com o futebol, eu nunca estava nervoso durante os jogos - sentia-me como se estivesse a ver uma gravação em vídeo de uma série dos anos 80 (daquelas em que o McGyver se conseguia sempre safar da prisão e libertar uma aldeia indefesa das garras de um regime militar opressivo, num país sul-americano não identificado).&lt;br /&gt;À distância, as dores e as alegrias do futebol pareciam-me cenas de um teatro cujo guião eu sabia demasiado bem, e perder seria sempre pior do que ganhar e eu não sei porque é que ser vencedor tem necessariamente de ser melhor do que ser derrotado. O meu pequeno, pobre país, que eu amava como uma pessoa ama os seus pés, agitava-se e festejava e, pelo menos uma vez, desfrutava do gozo de estar no topo do mundo, acima de todos os outros - como se isso, afinal, valesse de alguma coisa.&lt;br /&gt;De modo que nesses dias, atingido por uma súbita febre de futebol (ou simples desejo de escapar), eu jogava praticamente dia sim dia não, e todos os dias acabava com dores nas virilhas e joelhos esfolados - e adorava esses joelhos em sangue porque me faziam lembrar quando era criança, quando o corpo ficava de facto ferido devido a essa sede quase assassina de viver. Sempre admirara os miúdos que não tinham medo de cair no chão, aqueles para os quais a competição era apenas uma outra forma de ter um pesadelo: uma coisa à qual não se dá demasiada importância, mas igualmente uma coisa à qual não se pode escapar.&lt;br /&gt;No final dos jogos, ao fim da tarde no campus deserto, eu demorava-me pelos balneários vazios, apreciando o silêncio puro e olhando para os meus pés cheios de bolhas, pensando naquele país que me matava e onde estavam as pessoas e as coisas que ainda me poderiam manter vivo. E nessas alturas, acabado de sair do duche, os músculos doridos e uma ou outra nódoa negra a despontar, eu queria abraçar essas pessoas todas num único, final, catártico abraço - e depois mergulhar fundo, ou voar bem alto, ou disparar para bem longe, rápido, num raio de luz, como no Dragon Ball.&lt;br /&gt;Pensava, por exemplo, em todas as pessoas que tinha abandonado, em todas as pessoas que sofriam pela minha ausência, e que tinham vindo a sofrer ao longo de todos esses anos devido à minha inconstância, ao meu ensejo de fugir, às minhas dúvidas, à minha altivez. Pensava que isto não era justo para ninguém, e que não havia culpados e não havia inocentes. Pensava que alguma coisa tinha corrido mal, alguma coisa tinha corrido mal mas a culpa não era só minha.&lt;br /&gt;E não queria pedir perdão por nada, queria apenas que todos, num acordo súbito, numa espécie de revelação suave mas decisiva, percebêssemos a lógica interior deste mundo humano onde nos magoamos uns aos outros apenas por respirar, onde nos batemos usamos chupamos incendiamos, onde acabamos sozinhos, face ao acumular de assuntos não resolvidos. Em tudo isso eu pensava, sentado nos bancos corridos dos balneários vazios, o silêncio e os ventiladores, o vapor dos duches, os cacifos rebentados, os meus pés deformados. A milhares de quilómetros de distância, o meu país gritava e saltava a uma só voz, fazia estremecer o solo e agitava a superfície das águas de todos os lagos e de todas as piscinas, num protesto que era de glória ou era de birra, ou era de tédio ou era de outra coisa qualquer.&lt;br /&gt;Eu pensava na minha vida desencantada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Entretanto, no futebol, tínhamos ganho. Ou tínhamos perdido, já não sei bem. Mas tudo continuava na mesma: quem odiava iria continuar a odiar, e quem amava um dia iria odiar também, e novos amores iriam surgir, por aqui e por ali, pequenos amores para pequenas pessoas, grandes ilusões para almas do tamanho do mundo, e a vida até iria ser agradável e tudo isso.&lt;br /&gt;Mas a dor, a dor de milhares de silêncios e torturas não poderia ser refeita por um momento de amor. Pelo contrário, o maior amor seria para sempre maculado por um ínfimo instante de dúvida. E isso era a coisa que para mim era mais injusta, naqueles dias em que eu jogava futebol no intervalo dos meus estudos, para esquecer sobretudo, para não ter de sentir necessidade de estar a fazer outra coisa qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tudo acabou, fui visitar a minha vizinha para lhe agradecer pelo voodoo. É curioso que ela tenha aceite meter-se com aqueles espíritos todos (aqueles espíritos cujas mudanças de humor poderiam tornar-se fatais) sem receber nada em troca e apenas porque eu lhe tinha pedido uma vez, meio a brincar. Havia pessoas que diziam que ela gostava de mim.&lt;br /&gt;Ela recebeu-me no seu quarto desarrumado e perfumado, os instrumentos do voodoo espalhados no chão no meio das fotocópias, das revistas cor-de-rosa, das coisas da maquilhagem. Eu sentei-me na cama dela a ler as últimas notícias das celebridades enquanto ela escrevia umas coisas no computador para a sua dissertação sobre o Ruanda. Depois eu perguntei-lhe: "Could you bring the spirits back into my life?" e ela riu-se e respondeu "I'll see what I can do", e levou-me à cozinha (o mar revoltoso em mais um anoitecer naquele Verão frio) onde me ofereceu chá e dois, três, quatro dedos de conversa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108894139566101402?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108894139566101402'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108894139566101402'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/esprito.html' title='Espírito'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108880696635759028</id><published>2004-07-02T22:16:00.000+01:00</published><updated>2004-07-03T01:27:18.773+01:00</updated><title type='text'>A Vida no Rio</title><content type='html'>Uma tarde, acordei no silêncio. Tinha adormecido sem dar por isso na cafetaria do barco que me levava Orinoco acima, numa viagem que terá sido provavelmente um dos momentos decisivos da minha vida (depois disso, parece-me que só encontrava estranhos, mortos, moribundos em todo o lado). Eu acordei naquele banco junto à janela e estava sozinho no silêncio da tarde e lá fora o Orinoco estava cor de lama, largo como uma milha - e onde estava toda a gente? - e por momentos pensei que era a única pessoa no barco, e encolhi os ombros, os olhos pequeninos, limpando a boca numa manga da t-shirt.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida no rio era assim. Tinha trazido comigo uns pequenos binóculos e por vezes ficava a olhar as margens do grande rio, e os índios nas margens amaldiçoavam o nosso barco e alguns vinham em canoas até meio caminho com as crianças e os velhos, para verem de perto os europeus arrogantes que voltavam e continuavam a voltar. Alguém me tentou inutilmente ensinar como observar e distinguir espécies de pássaros, e ao pôr do sol lá estava eu na proa do barco a tentar acompanhar aqueles voos rápidos, o que me chateava passados poucos minutos. Costumava ter conversas com um antropólogo que estava a bordo e que, no fundo, nos odiava a todos por não sermos nativos daquele rio - e eu ficava a ouvir as conversas dele durante as longas tardes e tomava notas no meu bloco e ele sentia-se estimulado pelo meu interesse e tirava o boné, tirava os óculos, limpava o suor da cabeça calva, continuava a falar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E metade das raparigas a bordo andava com piolhos e por isso lavavam o cabelo em vinagre e usavam um lenço a toda a hora. Alguém me convenceu a tomar umas lições de dança a bordo, e de manhã durante uma hora eu aprendia merengue, salsa, tambor, coisas assim. As músicas eram sempre as mesmas. O barco abanava muito e era difícil manter o equilíbrio. Por vezes ficava mal-disposto. Costumava dançar com uma rapariga espanhola chamada Luna. Cheguei a aprender alguns passos de sevilhanas, e praticava com duas enfermeiras venezuelanas que me chamavam Josué. Luna e Josué.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a tripulação andava basicamente a apropriar-se de roupas dos passageiros que apanhavam a secar ao sol - um dia fomos dar com uma pequena cabina cheia de soutiens e cuecas e camisolas porque um dos marinheiros cometeu a imprudência de vestir uma t-shirt que tinha roubado. Julgo que a mim não me roubaram nada, mas, de qualquer maneira, metade do que ocorria naquele barco passava-me ao lado. Lembro-me em especial das noites passadas no deck a beber ice-tea e a comer oreos atrás de oreos - lembro-me do rio à noite, iluminado fugazmente pelas luzes do barco, castanho e cheio de plantas estranhas - lembro-me de algumas conversas românticas sobre vida e separação e essas coisas - lembro-me de cortar sem cuidado o meu próprio cabelo e de o atirar ao rio - lembro-me que não me importava. Pensava em iguanas e anacondas e dormia como um anjo. Falei com duas ou três pessoas que eram ou conheciam alguém que era vampiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os duches eram assim. O capitão anunciava num megafone que ia haver duche e os passageiros que desejavam deslocavam-se em fatos de banho para o convés da popa. E esperavam. Depois aparecia o capitão com uma mangueira e ligava a mangueira e as pessoas começavam todas a esfregar-se com shampoo e sabonete e o capitão ia movendo a mangueira sobre a multidão para molhar toda a gente - braços no ar quando precisavam urgentemente de água para tirar sabão dos olhos ou coisas assim - e por isso durante o duche havia sempre grande gritaria e algumas pessoas aproveitavam para lavar roupa (o capitão sugerira bater com a roupa no chão depois de a esfregar, o que resultava lindamente) - e tudo aquilo era divertido e ficávamos no fim a secar ao sol, ofegantes, como gatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho uma fotografia que tirei, num dos últimos dias, com uma rapariga de Palencia de quem tenho muitas saudades. Acabámos por nos tornar bons amigos. Na fotografia estamos simplesmente encostados num corrimão e o sol ilumina de lado as nossas caras, e sempre que me lembro da vida no rio lembro-me dessa fotografia. Não há grande história a contar. Foi tirada após o duche, creio, porque nela tenho um aspecto lavado e saudável. Por vezes, os meus sorrisos nas fotografias surpreendem-me, e nesse momento eu estava muito feliz. A vida no rio foi boa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E havia mãos dadas ao luar e beijinhos sorrateiros, à noite, nos recantos mais reservados, e raparigas davam-me tampas de manhã, nas mesas da cafetaria, entre chávenas de café com leite e aguarelas de peixes e folhas - e eu adormecia com demasiada facilidade naquele barco e à noite tinha de afastar pedaços de frango e confettis para estender o saco-cama no chão. Tinha um pequeno papagaio de madeira vindo de não sei donde e que não sei porquê achava parecido com o John Lennon, e sempre que o dizia a alguém as pessoas confundiam sempre o John Lennon com o Elton John e eu dizia ai não, o Elton John não. Deus me livre. O meu papagaio é o John Lennon. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108880696635759028?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108880696635759028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108880696635759028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/vida-no-rio.html' title='A Vida no Rio'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108869891443778102</id><published>2004-07-01T17:14:00.000+01:00</published><updated>2004-07-01T17:21:54.436+01:00</updated><title type='text'>'Build' (The Housemartins)</title><content type='html'>Meu Deus, criei um blog. É como estar nu, magro, a pele pálida ferida – encerrado entre quatro paredes, sem portas, sem janelas, sem tecto - encostado a um canto, olhando o céu, cheio de frio. Lentamente os visitantes vão chegando, planando sobre a minha jaula de tijolo castanho, indo às suas vidas, construindo ninhos em chaminés longe de mim. Como as gaivotas, um pouco por todo o lado. Bem-vindos, visitantes! Nenhum de vocês me conhece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu não podia resistir, ou podia? Meter os dedos sorrateiros, manchados de chocolate, exactamente onde não sou chamado. Arriscando-me a ficar sem dedos nenhuns, tudo por causa de mais chocolate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou para aqui à espera daquele meu amigo que vive numa aldeia às portas de Lisboa. Coitado, ele anda tão ocupado, e eu pergunto-me se alguma vez o voltarei a ver. Estou também à espera que o Miguel me venha salvar, ele que anda sempre perdido mas que sabe muito mais do que todos nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma noite destas vai ser talvez a noite em que tudo acontece. Ontem, por exemplo, estava na cozinha a comer bolachas de chocolate à uma e meia de manhã (acho que o Miguel aceitou a minha proposta!) e estava tanto frio que o ar saía em vapor da minha boca e camadas de gelo formavam-se no interior das janelas, e eu estava a ver uma rapariga em biquini a banhar-se e a dar berros no mar revoltoso gelado, diante de amigas que riam. Acho que fiquei demasiado tempo a olhar para ela, ia-me engasgando com todo aquele chocolate, e tinha andado a matar moscas outra vez no quarto - lá estavam mais algumas manchitas de sangue no tecto a testemunhar um certo instinto assassino que ainda persiste em mim (ainda que muito fraco). Noutro dia, enquanto perseguia uma mosca junto à janela, tentando enxotá-la para fora com umas cuecas usadas, vi-a a cagar-se de medo. Verídico. Aposto que nunca viram uma mosca a cagar-se! Ora, eu já, e o cócózito que deixou fez-me ter pena dela. Limpei-o com um lenço de papel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E de resto nestas noites durmo bem mas devo estar à espera de alguma coisa - só pode. E habituei-me a comer sozinho, olhando o mar, tiritando de frio na cozinha cheia de confettis. Penso nas palavras dos meus amigos, penso noutras coisas, sorrio, encolho os ombros, afasto os confettis do prato, alguns misturam-se mesmo com a comida – enfim demoro muito a comer, aquilo fica tudo frio e o sabor nunca é nada de especial e eu lembro-me de quando era o “pastelão” do colégio, sempre o último a acabar a refeição. Ah. (suspiro sonhador). A solidão de um refeitório deserto, o olhar malévolo de uma educadora de infância meio sádica que se satisfaz quando, de tanta intimidação, comes cerejas à pressa com caroços e tudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não sei se faço bem em estar a fazer isto. Afinal, todos me construíram para me deitar abaixo e para me construir outra vez. Mas estou contente, está a ser um bom Verão. Vejo montes de pombos a acasalar. Acordo com as gaivotas a remexer no lixo. O mar é tão bonito que não preciso de mais provas de que há Deus. E não pertenço a ninguém - não pertenço a ninguém. Ando a amar anjos, tanto, tanto. Vou estar a amá-los até morrer. E sabe tão bem.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108869891443778102?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108869891443778102'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108869891443778102'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/07/build-housemartins.html' title='&apos;Build&apos; (The Housemartins)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108863346874568770</id><published>2004-06-30T22:32:00.000+01:00</published><updated>2004-07-01T17:38:36.930+01:00</updated><title type='text'>Lisboa</title><content type='html'>Lisboa, palco dos meus amores, Lisboa: onde eu não perdi a virgindade, onde a natureza não fez de mim um homem - Lisboa, cenário das minhas exibições, fitas, crises amuos mentiras - Lisboa onde cresci na estranheza e na perversidade, onde acabei de ténis brancos e blaser. Lisboa, sítios gajas tantas raparigas loiras e mesmo as morenas têm a alma loira... - modelos e jovens actores de baixa estatura todas as noites no Bairro Alto, crianças de sexto ano com cigarros entre os dedos e roupas apertadas e mochilas cor de rosa com pensos e coisas - e uma imensa vontade de agradar, uma imensa carência de companhia. Lisboa, barulho de milhões de conversas inúteis sobre arte e cinema e o mundo - conversas sem substância e sem consequência, e revestidas de beleza por isso - milhões de palavras embriagadas e sussurradas com desejo e desespero - Lisboa das camas das tentativas teatralizadas e patéticas de suicídio das depressões das noites sem sono a estudar a foder - Lisboa e o apelo do atlântico no povo doirado do mar que vive ao longo da linha de comboio que vai até Cascais - Lisboa do Guincho e das escapadinhas nos hotéis do Guincho e das areias das praias cobertas de preservativos e seringas infectadas, um ou outro cadáver e mesmo alguém que ama e dorme e sonha com tanta força... Lisboa óculos de sol, cigarros fumados por jovens em jejum enfiados até à cintura numa maré que leva à vida adulta, e as peles, ano a ano, serão sazonalmente bronzeadas e as festas vão acontecer nem que sejam festas tristes entre três a quatro amigos que sabem que inevitavelmente se separam, e os bares e as tabaqueiras e os dealers e as putas vão ter sempre negócio e Lisboa vai descansar aos domingos nos cafés de bairro - e meias de lã para os bebés vão continuar a ser feitas por futuras mães.&lt;br /&gt;Lisboa, ouve: "I'm too busy acting like I'm not naive", eu chego ao ponto de dar dinheiro às pessoas que me pedem!, aos jovens que todos os dias procuram partir de Sta. Apolónia para Idanha-a-Nova, aos estropiados aos chorosos aos esfomeados aos estupradores - eu olho para tudo e ainda hoje é como uma criança que eu entro no autocarro e que me dirijo às raparigas caixa de supermercado mais novas do que eu (que passam rapidamente as minhas mercearias no sensor óptico pensando no seu namorado de cabelo rapado como o meu!) - ouve, Lisboa, nas ante-estreias de comédias rasca eu tinha vergonha de estar no meio daquela gente toda, da tua gente, e quando a sessão acaba há átrios iluminados e pessoas brilhantes que se dirigem para os seus lofts - meu deus eu nunca entrei num loft! - e por isso não é supreendente que eu a todo o momento pense em formas de me vingar. Afinal, sou apenas mais um jovem aborrecido com a sua vida sexual  e com um complexo de inferioridade - nada que tu não conheças já, Lisboa.&lt;br /&gt;O meu esforço infrutífero para conhecer Lisboa, para abarcar e assimilar estes perfumes destas peles e a rouquidão destas vozes - e as vielas e os recantos e as casas onde as pessoas envelhecem sozinhas, e os quartos escuros com mobiliário de design e camas brancas praticamente ao nível do chão e lençóis desfeitos por corpos em luta - deus, não ter dormido em todas as pensões do Rossio, não ter enfrentado o vento e a chuva de Lisboa com a gola levantada de um sobretudo preto, não poder poisar naquelas varandas ou pairar diante das janelas como um pássaro, não ter beijado os lábios agridoces das oferecidas e das impossíveis - deus, não ter estado em Lisboa mas apenas verdadeiramente no meu quarto em Benfica, onde queimei os incensos da frustração e do desejo de amor.&lt;br /&gt;Lisboa: pequenos gatos esventrados esfriando ao sol, raparigas chorando nos cantos da faculdade, alarmes que despoletam subitamente nas tardes cálidas, a Praça do Chile o local mais desolado para os que acabaram de perder o amor... os casamentos as noivas os patos na lama os imensos centros comerciais e as cabinas nas casas de banho dos centros comerciais onde as pessoas cagam em tristeza e onde por vezes cheiram coca - uma imensa bola de bowling em movimento ao longo da pista contra imensos pinos e aqueles sapatos de sola lisa e apesar da obscuridade que envolve tudo uma beleza que é quase blasfémia, alguém que festeja sorrindo para o céu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108863346874568770?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108863346874568770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108863346874568770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/lisboa.html' title='Lisboa'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108855092600685712</id><published>2004-06-29T23:26:00.000+01:00</published><updated>2004-06-30T10:27:15.263+01:00</updated><title type='text'>Genéve</title><content type='html'>Eu tinha na minha mala uma tradução espanhola de 'Cacau' de Jorge Amado, que me tinha sido oferecida por uma senhora espanhola a viver na Suíça e que, não sei porquê, estava a ler. No corredor do hotel estava uma americana sentada no chão a ouvir música, sandálias ao lado dos pés nus, e eu estava a dizer coisas como  "I'm a country boy" e "I'm from a small town in Alabama" e "My grandfather has a farm", vezes e vezes sem conta, e conseguia ver que estava a parecer estúpido e ela claramente não estava impressionada por isso mudei para outros temas como o James Taylor que tinha estado quatro vezes num hospital de saúde mental, a diferença entre Vermont e Vancouver, a excelente programação cultural da Primavera em Viena (eu nunca tinha estado em Viena), a vida nocturna de Praga ('vida nocturna de Praga'?), coisas assim. E ela continuava a sorrir mas apenas por tolerância acho, e quando fiquei sem coisas para lhe dizer virei-me para uma rapariga gorda sul-africana que também estava por lá a rir-se demasiado e ela estava viciada em morfina desde que tinha feito uma operação à coluna e eu 'oh really?' tentando não parecer muito impressionado, e havia figurantes a abrir as portas dos quartos e a mandar-nos calar e nós ficámos por lá até ser tarde - estávamos sozinhos, afinal, e o guião dizia explicitamente para conhecermos pessoas e sermos simpáticos, e eu obedecia às orientações do realizador e as câmaras seguiam-me para todo o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só depois, dias mais tarde, chegámos a Viena, mas como sempre lembro-me mais da viagem do que propriamente da estadia - o rapaz húngaro cego de barbas compridas a dormir no corredor do comboio devido a sobrelotação e a tocar com os dedos durante a longa noite o seu violinozito desfeito, e apesar de ser cego e ter todo o estilo de ser um daqueles artistas sobredotados e geniais tocava mal mal mal mal, e a sua companheira também agonizava orgulhosamente no corredor - de modo que acabámos por lhes deixar tomar os nossos lugares durante umas horas. Lembro-me dos seus diálogos em húngaro (ciganos, florestas, fogueiras à noite, Transilvânia) com o som do comboio e do vento e o cheiro dos campos à noite no fundo, e o realizador estava a dizer-me para 'parecer sonhador e sensível' por isso eu tentava escrever uns poemas enquanto pensava porque raio uma rapariga quereria andar pela Europa fora com um pobre diabo daqueles, mas claro que isso era apenas eu a pensar e quem me manda a mim pensar, e de qualquer modo toda aquela solidariedade da estrada e dos carris estava a começar a fartar-me e eu não via nenhuma solução para o que de facto importava na minha vida, portanto: fast forward até Nîmes, França (outra cidade, as mesmas gajas de sempre) e zoom in até eu nas galerias escuras de um teatro romano, caído de joelhos, a enxotar morcegos e a vomitar.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108855092600685712?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108855092600685712'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108855092600685712'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/genve.html' title='Genéve'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108846010734638802</id><published>2004-06-28T21:59:00.000+01:00</published><updated>2004-06-28T23:18:26.156+01:00</updated><title type='text'>Los Lunes al Sol</title><content type='html'>Los Lunes al Sol: o filme que nunca cheguei a ver. No poster, o Javier Bardem está sentado no topo daquilo que em Lisboa seria um cacilheiro, e tem os olhos fechados e a cabeça ligeiramente inclinada (como os homens nos jardins de Paris!) e por todo o lado no poster é segunda-feira de manhã e ao longe está uma cidade e o Javier Bardem está desempregado. E só por este poster eu tenho sonhado dias e dias em como seria o filme.&lt;br /&gt;Estive duas ou três vezes para ir ver Los Lunes al Sol, e porque como é óbvio queria ir ver à segunda-feira durante a tarde para poder ainda apanhar sol quando saísse, e como estava à espera de um telefonema que nunca mais chegou, o tempo acabou por passar e.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagens dessa Primavera: fechado em casa a ler Platão, a ler Aristóteles, em busca da citação perfeita. Fechado em casa a ler Foucault, a ler Oakeshott, a ler Waltz, a desistir de ler Waltz, a esquecer-me por completo do que tratava o livro do Oakeshott, a não chegar a acabar o terceiro volume do Foucault. Preparava-se o Verão mais quente de que havia memória, e ironicamente eu tinha decidido nessa Primavera aceitar o sol, receber o sol na cara e sentir a sua doçura, como aposto que o Javier Bardem sentia. Tinha também decidido aproveitar aqueles dias com o sentido de fatalidade com que (imaginava estupidamente) um desempregado como o Javier Bardem acordaria.&lt;br /&gt;Dessa Primavera: um sentimento de despedida em tudo, o João e a Raquel a aparecerem em minha casa com ondas de frescura e alívio, a trazerem bolos, a convidarem-me para gelados, para cervejas nas cafetarias de Benfica. O meu curso a terminar, outros compromissos na faculdade de que me queria desesperadamente soltar e dos quais não falarei, a sensação de que talvez pudesse ter feito outras coisas, a sensação de que agora tudo estava a morrer.&lt;br /&gt;Primavera: a minha mãe doente numa cama de hospital, uma bolsa para a qual pingava o alcatrão que lhe escorria dos pulmões, a minha mãe demasiados dias naquele hospital e no geral demasiadas caras naquela enfermaria, um sentimento de alegria artificial em tudo porque o sol estava sempre a pôr-se naquele sítio e a minha mãe passava lá as noites sozinha, com dores, e eu ficava sentado aos pés da cama sem saber o que dizer, por isso olhava para o televisor e segurava as pontas dos dedos da minha mãe e não dizia nada, e depois o tempo passava naquele silêncio esterilizado e eu tinha de sair - e depois eu voltava a Lisboa num comboio que demorava muito tempo, e onde escrevia poemas sobre raparigas do campo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha perdido a minha última hipótese com o amor à medida que o tal telefonema nunca mais chegava, e tinha sido até bom acho, numa única tarde em que acabámos com os lábios secos por causa do chá, apenas por causa do chá, e nessa tarde ela levou-me a um sítio onde se diz que o Camões foi preso, e juro que durante um fim de semana eu pensei que a minha vida poderia começar de novo - eu juro que tentei, juro que abri os braços.&lt;br /&gt;Mas o meu tempo em Lisboa já estava a acabar de qualquer maneira e julgo que mais do que ninguém ela percebeu isso, e a minha vida é uma sucessão de pessoas a saberem melhor do que eu o que é melhor para mim, mas de qualquer maneira eu penso nela às vezes e a vida é mesmo assim. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108846010734638802?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108846010734638802'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108846010734638802'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/los-lunes-al-sol.html' title='Los Lunes al Sol'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108837917026315155</id><published>2004-06-28T00:15:00.000+01:00</published><updated>2004-06-28T00:32:50.263+01:00</updated><title type='text'>Panticosa</title><content type='html'>Durante semanas, vivi numa aldeia nos Pirinéus espanhóis. Tínhamos chegado pelo sul de França, após evitarmos Toulouse-a-cidade-do-mármore devido à chuva e ao cansaço. Eu tinha levado uma mala de livros, tinha planos de escrever uma novela, ler regularmente o jornal local. Trazia comigo, entre outros, os dois volumes do 'De la Démocratie en Amérique', de Alexis de Tocqueville (ed. GF-Flammarion).&lt;br /&gt;A aldeia ficava no sopé de um monte onde se situava a estância de esqui, e apesar de ser Verão havia um teleférico em funcionamento, por isso eu subia quase todas as manhãs e observava as aulas de iniciação ao esqui num terreiro de neve artificial, alimentado constantemente por uma máquina ruidosa que cuspia flocos gelados e vento. Tratava-se de aulas para crianças, filhos da classe média-alta de Saragoça e Pamplona, vestidos a preceito com anoraques de cores fortes e óculos escuros nas caras besuntadas de protector solar - e eu observava essas crianças e bebia Coca-colas e dava voltas pelo monte, uma paisagem que começava a conhecer.&lt;br /&gt;Lia durante a tarde. Dormia sestas na varanda, estendido numa cadeira de praia, debaixo do sol fraco. Comia queijo e bolachas de água e sal. Depois de jantar ficava subitamente frio e muitas vezes eu acabava a noite na discoteca local, um sítio onde irrompiam sucessivas brigas, onde alguém sempre desatava a chorar, onde as raparigas locais e as da cidade se mediam, onde, diariamente, e sem surpresas de maior, os adolescentes representavam os seus dramas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiz amizade com um rapaz de Pamplona que esperava a chegada dos pais enquanto, supostamente, estudava para os exames de Setembro. Éramos quase vizinhos. Uma vez fui com ele e com os seus amigos até aos poços naturais situados no ribeiro junto à aldeia, e onde consegui chegar sem mazelas graças às indicações precisas dos meus companheiros - que pé colocar e onde, a que reentrâncias da rocha me agarrar, de que maneira transferir o peso do corpo por forma a escapar à água turbilhonando em baixo - o que me fez sentir como um autómato, feliz porque seguro, porque estranhamente confiante nos que me rodeavam.&lt;br /&gt;Depois os saltos: os voos de três, quatro metros, nas zonas negras das piscinas - a água gelada, as sapatilhas velhas do meu amigo subitamente familiares, as arestas arranhando os pés molhados, as pequenas pedrinhas cravadas na pele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia, já de volta a casa, enquanto tentava conciliar o lanche com a leitura de um jornaleco da zona francesa dos Pirinéus, fiz uma profunda ferida num dedo, ao cortar queijo. Olhei o dedo ferido com uma certa estranheza durante algum tempo. Depois, comi o queijo empapado no sangue, o que deixou o seu sabor por demasiado tempo nas minhas gengivas. Era altura de regressar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108837917026315155?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108837917026315155'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108837917026315155'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/panticosa.html' title='Panticosa'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108828886305401384</id><published>2004-06-26T22:44:00.000+01:00</published><updated>2004-06-26T23:27:43.053+01:00</updated><title type='text'>Pinar de Antequera</title><content type='html'>Valladolid, Valladolid, o que mais me lembro de Valladolid é dos bairros residenciais nas cercanias a que chegávamos de comboio, aquelas tardes preguiçosas de Outono em Pinar de Antequera e andávamos de bicicleta pelas ruas desertas esmagando as folhas que caíam, acelerando de sombra em sombra, e ao fim da tarde ficávamos nos bancos de trás da missa naquela pequena igreja moderna, misturando-nos à saída com os vizinhos que se conversavam. Como o meu aniversário em Valladolid naquele Outono dourado, triste como uma laranja espremida e eu a chegar às quatro da manhã no comboio e aqueles três malucos que não via há um ano a esperarem-me na estação vazia com um balão, de modo que em Pinar de Antequera passávamos as tardes a andar de bicicleta naqueles bairros de vivendas e pedalávamos até chegar ao limite e encontrar uma estrada ou um descampado e então ficávamos parados a olhar para aquilo durante demasiado tempo, antes de voltar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa do Felipe eu movia-me como num sonho, todos aqueles quartos e aquelas cabeças de criança a espreitarem-me de todos os lados, os tectos altos e os cães no largo quintal com um imenso pinheiro que eu achei que devia ter um espírito que sentia tudo e todos - o Felipe com a sua guitarra e o aparelho de dentes que usava de noite e que parecia um açaime ao estilo Hannibal Lecter. Pobre Felipe, dificilmente encontrarei alguém que me cative tanto com a sua força humana, a sua fúria triste: O Felipe a oferecer-se para me mandar ácidos pelo correio, o Felipe a arder de febre deitado numa rede em La Guaira, o Felipe vermelho enraivecido a lutar contra um banco de autocarro, o Felipe a ir ao mar de botas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, Valladolid, Valladolid, lembro-me do último dia em Pinar de Antequera e o último duche, e a casa imensa, escura e tranquila em mais um anoitecer de Setembro e o Felipe a tocar no violino a música do filme A Missão. Lembro-me da Tania ao telefone e eu a perguntar-lhe porque é que não estás aqui e ela a responder-me porque não posso, lembro-me de uma discoteca onde uma rapariga lambia a orelha de um homem careca e lembro-me também de uma pintura de El Grieco que vimos num palácio qualquer - e alguém ficou a explicar-nos durante muito tempo aquela pintura de Jesus morto e já não me lembro se no quadro também estava Maria, mas Jesus tinha acabado de ser descido da cruz, isso sim - e por isso para mim Valladolid é Jesus ter morrido por todos nós.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108828886305401384?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108828886305401384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108828886305401384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/pinar-de-antequera.html' title='Pinar de Antequera'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108820660960462967</id><published>2004-06-26T00:36:00.000+01:00</published><updated>2004-06-26T10:43:21.483+01:00</updated><title type='text'>Um mundo sem amor (IV)</title><content type='html'>Domingo de páscoa: eu não quero este dia. Saio na estação de metro de Ballard. Eu nunca estive aqui. Ballard é o nome do autor de Crash, de Hello America, de Empire of the Sun, de The Kindness of Women, de The Atrocity Exhibition. Ballard é um bairro suburbano no sudoeste de Paris, eu saio em Ballard e é domingo de Páscoa e eu não quero este dia e procuro uma cabine telefónica assim que saio, desorientado, da estação de metro. Está sol e na cabine telefonica eu, eu abro os braços e encosto as mãos nos vidros da cabine e olho para o chão sujo cheio de vidros pequenos e respiro fundo, depois abro o mapa e fecho o mapa e meto o mapa no bolso de trás das calças e respiro fundo. Durante este tempo todo eu estou a segurar no bocal do telefone e há lá dentro uma voz feminina a dizer que o número que marquei não está disponível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois o parque André Citroen e aquele domingo triste, cheio de sol e o Sena suburbano e as famílias suburbanas e joggers e eu sento-me num banco e fico calmo. Leio umas páginas do Huckleberry Finn e escrevo um poema, talvez dois. Estou de costas para o rio e num banco junto a mim o habitual mendigo dorme. Depois ponho-me a andar e e volto para trás e sigo por outro caminho e vou olhando para o mapa, e compro uma banana e uma maçã e penso em urinar. Ela tinha chegado a casa às dez da manhã, ainda bêbada, acordando-me com um grito jovial de pequeno almoço. Depois uma música na cozinha e eu na cama a pensar eu não quero este dia e eu a percorrer avenidas sozinho a pensar em urinar e na música 'se estás com medo tens de sair correndo', e eu acabo por ir urinar aos Invalides a cerca de 100m do túmulo do Napoleão, e nessa altura eu já amo Paris por isso nada me importa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, no museu Rodin, eu iria sentar-me no jardim e olhar para os Burgueses de Calais e iria começar um poema chamado Burgueses de Calais cujo primeiro verso era houve um tempo em que as ruas eram escuras e o pão salgado, e nunca cheguei a acabar esse poema, e nesse dia mais uma vez não almocei – acetona na minha boca é Paris também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o cheiro a café? O cheiro a café naquela manhã enquanto eu tentava voltar para o sono enquanto a música se estás com medo tens de sair correndo, e eu naquela cama era uma das pessoas mais infelizes que conheci e não queria aquele dia e mesmo assim tinha sempre bilhetes de metro, bilhetes inesgotáveis, e pernas, pernas boas e jovens – e uma bexiga formidável que aguentava até aos Invalides. Tinha-me a mim, só a mim, e já não era pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho andado a espalhar a minha urina pelas casas de banho e ruas mais estranhas deste mundo, e mesmo assim não estou cansado.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108820660960462967?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108820660960462967'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108820660960462967'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/um-mundo-sem-amor-iv.html' title='Um mundo sem amor (IV)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7437754.post-108820644731303563</id><published>2004-06-26T00:33:00.002+01:00</published><updated>2004-06-26T11:04:08.003+01:00</updated><title type='text'>Um mundo sem amor (III)</title><content type='html'>Quando estava em Paris comecei, por virtude da ausência de grandes inconvenientes nas minhas deambulações diárias, a confiar numa espécie de intuição a que confortavelmente chamava orientação divina. Quando saía de uma estação de metro, por exemplo, dizia para mim próprio ‘preciso de um sinal’ para saber para onde me dirigir e exactamente onde me situar no mapa – resultado: quase nunca me enganava. Era assim que entrava e saía de ruas, escolhia caminhos e, em geral, confiava em mim próprio, e como cada rua e caminho tinham algo de bonito ou surpreendente eu nunca me arrependia das minhas escolhas. Foi por isso que ao chegar àquela bifurcação perto da Bastille, onde se encontrava uma pastelaria, eu parei, hesitando por momentos, decidindo se havia ou não de entrar. O facto de um homem ter entrado no preciso momento em que duvidava serviu-me como o sinal de que estava à espera. Lá dentro pedi um Paris-Brest e a funcionária corrigiu a minha pronúncia, acentuando o ‘st’ final, de uma forma que não deixei de achar um pouco rude. Tínhamos combinado nos degraus da Ópera Bastille para um passeio, e eu tinha passado a manhã toda a caminhar desde Stalingrad ao longo do canal de S.martin cortando depois por uma avenida que não me lembro o nome (Chemin Vert?) até ao Cemitério Pére Lachaise onde ao princípio não queria ir. Tinha estado a ver as sepulturas de Proust, Wilde e claro Jim Morrisson, embora não me tenha entusiasmado muito com esta última.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conversávamos muito. Eu dei-lhe o Paris-Brest e ela comeu um pouco e guardou o resto na mala. Chegámos ao Sena e cruzámos junto ao ministério das Finanças (gare de Austerlitz, acho), e depois parámos num restaurante fast-food para ela beber café e comer o resto do bolo. Quando estávamos sentados eu falei brevemente sobre os meus amigos de Lisboa e depois pedi-lhe desculpa por tê-la desrespeitado na primeira noite ao ponto de a ter beijado. Saímos do restaurante e eu voltei a entrar para ir à casa de banho e o meu cabelo estava horrível e fomos até à biblioteca nacional François Midterrand com uma floresta no meio e foi aí que nos sentámos. Ela contou-me de como o pai chorou no dia em que a foi deixar ao aeroporto e como lhe preparou um pequeno-almoço, dias depois daquela discussão tão grande, e o pai dela nunca gostou de mim, julgo que por também ter sangue português – os portugueses detestam-se todos em países estrangeiros. E o sol estava a ficar fraco e tudo isso e eu não falava muito e não havia de facto muito para dizer e tudo estava tão acabado e tudo tão triste, e caminhámos até Jeanne d’Arc onde eu queria ver uma igreja mas esta estava fechada, e depois até à Place d’Italie em busca de uma padaria aberta e por isso acabámos por ir a um centro comercial mas todas as lojas estavam fechadas o que era estranho porque havia algumas pessoas a passear – e depois acabámos por ir comprar pão à rue de Mouffetard, de modo que caminhámos imenso.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Mostrei-lhe orgulhoso a casa de Hemingway mas ela desvalorizou-a um bocado assim que percebeu que ele tinha vivido lá apenas cerca de um ano. E já não me lembro mas acho que uma vez mais não tinha almoçado nesse dia por isso ao jantar comi com apetite e queria ver os '10 Mandamentos' na televisão mas não se via imagem, só o som da dobragem em francês e a música dramática, épica, de modo que me aborreci um pouco e ela adormeceu por volta das dez e eu fiquei sentado no sofá, no quarto silencioso, durante muito tempo até me juntar a ela na cama com um silencioso ‘com licença’.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrei a sepultura de Marcel Proust graças a um homem sentado num banco de pedra, no quarteirão 85 do imenso Pére Lachaise. Era uma sepultura simples, familiar, quase despercebida no meio de outras iguais. Havia algumas pedrinhas em cima do tampo por isso eu coloquei a minha pedrinha também apesar de nunca ter lido Marcel Proust. Julgo que aquele ar devia estar cheio de coisas podres, mas o bom tempo só prometia pureza, juventude.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7437754-108820644731303563?l=my-love-life.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108820644731303563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7437754/posts/default/108820644731303563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://my-love-life.blogspot.com/2004/06/um-mundo-sem-amor-iii.html' title='Um mundo sem amor (III)'/><author><name>Joao</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
