segunda-feira, abril 04, 2005

Vinte e sete de trinta e três

É com uma cara de espanto que os condutores morrem nas estradas em Portugal (morrem como tordos mas porque é que tantos tordos morrem?) - eu vejo-os da minha janela alta e registo com ironia amarga as caras que eles e elas fazem quando morrem: a admiração, o «porquê eu?», o súbito medo, e se dizem que nos momentos que antecedem a morte toda a vida nos desfila em frente dos olhos então eu aposto que eles estão outra vez na Praia do Ribatejo numa tarde de Agosto, os mamilos erectos, uma garrafa de cidra mergulhada na ribeira para arrefecer.

As pessoas acorrem às janelas ao mínimo sinal de uma travagem brusca, e também eu levanto os olhos do que estou a fazer para entreabrir as cortinas e ver as pessoas a viajar em pensamento até ao regaço da adolescência, aqueles tecidos de algodão colados à pele pelo suor - o sol rendilhado e ofuscante entre as folhas das árvores - e eu era feliz, eu era feliz. Choca-me em especial o silêncio de poucos segundos que se segue ao embate - aquele silêncio petrificado, incrédulo, exangue, sem oxigénio - e depois os gritos, os alarmes, as lágrimas, os transeuntes que correm, o sangue que cria padrões irregulares, ensopando os tecidos e os estofos.

E os olhos das pessoas nos momentos antes do embate lembram-me os olhos das raposas assustadas à noite na estrada - e tantas vezes que eu escrevi sobre as raposas assustadas à noite na estrada, tantas vezes que tentei ganhar dinheiro e fama com essas peles arrancadas, com esses olhos esborrachados, esguichantes - suplicando piedade, pudor, moderação, paciência, tudo o que eu não tive. Por isso as pessoas na estrada quando morrem morrem também por minha culpa, e eu morro também com elas. E a praia fluvial da Praia do Ribatejo vai ser só nossa nas tardes de Agosto quando os mosquitos zumbem à tona de água, quando a areia suja brinca entre os nossos pés nus, quando eu desenlaço a fita que segura os seus cabelos, negros, linda, lentamente.

E o asfalto vai dar a outra face, e os motores vão rugir, e as porcas vão ser apertadas e depois saltar subitamente, e rápidos sibilantes jactos de ar comprimido vão soltar-se aqui e ali e arrotos vão ser dispensados - gargalhadas rebentando - e a minha mãe e o meu pai também vão nesses carros e os carros vão passar aos domingos debaixo das nossas janelas, tantas máquinas assassinas em movimento que é um milagre que as almas não subam ao ritmo da pulsação de um beija-flor - e as crianças embaladas nas encomendas nos berços nos braços vão olhar aqueles carros e vão desejar um dia ser assim. E vão sê-lo, e fumar charutos aos treze - pequenos césares de olhar maldoso, tintins de pólos e chaves ao pescoço, um dia desonrando as nossas irmãs, as nossas filhas.

Há quem feche os olhos: eu por vezes também fecho os olhos. O momento em que os olhos se fecham - inócua protecção, como as crianças que tapam a cara e se julgam invisíveis - esse é o momento em que a coluna da direcção se precipita como um arpão contra a caixa torácica, é o momento em que o airbag se despoleta, em que as rodas traseiras dão um pequeno pulo à medida que, centímetro a centímetro, o motor é esmagado e os parafusos e rebites são projectados a metros de distância, caindo aos pés das avós que vão ao supermercado. Todos estão estarrecidos, satisfeitos - a fita do cinto de segurança deixa uma longa lesão ao longo do peito e essa lesão vai demorar a passar - mas isso é o que menos importa porque o resto, o resto - o resto são bonecos orgânicos a desfazer-se e ecossistemas em colapso, o resto são baços rebentados e maxilares metidos para dentro, o resto são pernas estilhaçadas e articulações à deriva. Pensamentos com areia suja. Aquela rapariga que gostava de ti. Aquele rapaz que te tratou mal. Aquela noite tépida de Verão no castelo. Aquela face encostada ao teu peito, subindo e descendo com a tua respiração.

Também eu passei pela Praia do Ribatejo, um dia destes: estava sentado numa manta de tartã, e nas minhas mãos um livro francês era decantado, escorrido, bocejado, os caroços cuspidos. Tinha um cesto com romãs aos pés. O ribeiro gorgolejava entre as pedras, eu tinha: sítios na minha cabeça, sítios dentro de sítios, bosques e ribeiros onde molhara os pés, mãos dadas com uma rapariga que amava. O sol lambia languidamente a minha testa, os sítios onde antes cabelos pontificavam e onde os meus dedos se demoravam numa comichão que era o tempo a passar, a velhice, Deus, promessas de prazer.

Também eu passei pela Praia do Ribatejo: era Agosto como todos os dias, e tinha um cesto de romãs mesmo ali junto aos pés, e as tuas mãos demoraram-se na minha testa, os teus olhos nas rugas da minha face, sem dor, e por momentos deste-me esperança, e o meu livro caiu e depois levantaste-te e mergulhaste no ribeiro, e eu fui buscar-te ao fundo, os limos agarrados ao teu corpo cor de leite. Praia do Ribatejo: índios espreitando por entre as copas dos chorões que bebiam da torrente fresca, o teu corpo nu molhado poisado no tartã, os beijos que eu nunca te dei.

E depois o regresso, num súbito, num baque: o som de uma travagem, o asfalto, o céu carregado de chuva, e o meu carro a despedir-se de mim com os guinchos do metal torcido, da borracha queimada, do plástico sobreaquecido. Um corpo poisado docemente no meu pára-brisas rachado, os caracóis espalhados ao longo das linhas dos estilhaços, o escalpe aqui e ali arrancado e um lento gotejar de sangue explorando trilhos ao longo do ecrã que agora passava o meu filme. Dentes - de leite - cravados no vidro. Uma menina. O meu pé ainda no travão.


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