segunda-feira, agosto 02, 2004

Sete maneiras de ir dormir (II)

Quando entro no quarto para me ir deitar todo o mundo que está lá dentro salta e grita, e imediatamente o 'The Sidewinder Sleeps Tonite' dos REM começa a tocar na banda-sonora. A festa começa comigo, acabará quando eu quiser. A festa é minha, embora eu esteja surpreendido enquanto ando à volta pelo quarto a cumprimentar todas as pessoas (incluindo pessoas que não via há anos, pessoas que entretanto morreram, pessoas que entretanto mudaram de sexo). Confettis começam a cair em cima das nossas cabeças e o 'Automatic for the People' parece estar a tocar vezes e vezes sem conta (e eu sem me importar), e para esta cena o realizador opta por um plano-sequência, aos zigue-zagues, demorando-se alguns segundos junto de cada grupo de duas ou três pessoas que falam, apanhando pequenos segmentos de conversa.

Como vieram parar aqui, eu não sei. Mas são todos tão amigáveis que eu não faço muitas perguntas sobre os detalhes da festa, e tento entrar no espírito enquanto seguro uma garrafa de cerveja junto às faces, não para me refrescar (porque o quarto está tão frio que o gelo forma placas nas paredes e no chão) mas para sentir que estou aqui, que ainda estou acordado. E o 'The Sidewinder Sleeps Tonite' dos REM começa a tocar outra vez e é apenas mais uma noite e depois, numa conversa em que não sei porquê me encontro, Proust é introduzido, insultado, louvado (não necessariamente por esta ordem), e depois alguém diz que desaprova relações inter-raciais, alguém engole uma azeitona, alguém cospe uma azeitona para o chão.

E as raparigas beijam-me na boca quando me vêem, e eu conheço-as há tanto tempo e elas têm o hálito da morte, os dentes que me mordem os lábios são os dentes de alguém que ri, de alguém que devora cadáveres. E eu estou contente por se terem lembrado de mim de modo que bebo um pouco mais, conversas e música e confettis por todo o lado, e as pessoas atendem os telemóveis e ficam muito tempo a falar e depois choram ao telefone e nunca mais são as mesmas. O mundo fora deste quarto continua a ser algo que me ameaça e cujos pormenores eu prefiro desconhecer.

De modo que às vezes a música pára e fazemos minutos de silêncio e depois as pessoas vão-se chegando a mim para me contar os seus segredos, e quanto mais as conversas se aprofundam mais eu vejo que vedações são instaladas, numa rede de complexidade que só confunde, só serve para distrair. E quando as pessoas se confessam elas às vezes olham por cima do meu ombro para o realizador, em busca de encorajamento, e ele apenas diz 'keep rolling' (palavras que posteriormente serão apagadas na edição) e todos estamos a ir longe de mais, ou talvez não longe o suficiente.

De qualquer modo, o meu dia acaba hoje. Hoje começa a minha longa noite, portanto não terei oportunidade de tirar consequências sobre tudo o que está a ser aqui dito.

E depois começa o 'Find the River' dos REM e eu estou à janela a conversar com alguém que costumava significar tanto para mim, e a lua lá fora é atravessada por corvos, morcegos, vacas, e vai ser mesmo uma longa noite e até já fiz as minhas malas, mas eu digo a essa pessoa que costumava significar tanto para mim que julgo que estou preparado para esta longa noite. Alguém arrasta pelo quarto o corpo moribundo de um anão vestido de pirata, o corpo é atirado para um canto, algumas pessoas vão buscar garfos, a tortura é levada a cabo, etc.

E depois começa o 'Find the River' dos REM outra vez e as pessoas vão saindo e eu estou a pensar nessa longa escura noite e adoro os meus amigos e tudo isso, adoro mesmo, e depois quando todos saíram eu vou apenas lavar os dentes, considerar-me ao espelho durante alguns minutos, decidir que não me odeio menos do que me odiava ontem. Tenho a impressão que há demasiadas pessoas com uma chave para a minha vida, e julgo que as devia poupar ao que os Joy Division e J.G. Ballard chamariam 'a exibição de atrocidades'.


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